{"id":2257,"date":"2016-12-26T10:17:31","date_gmt":"2016-12-26T09:17:31","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/26\/podemos-e-psoe-terminam-o-ano-divididos-internamente\/"},"modified":"2016-12-26T10:17:31","modified_gmt":"2016-12-26T09:17:31","slug":"podemos-e-psoe-terminam-o-ano-divididos-internamente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/26\/podemos-e-psoe-terminam-o-ano-divididos-internamente\/","title":{"rendered":"Podemos e PSOE terminam o ano divididos internamente"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>O Estado Espanhol <sup>1<\/sup> \u00e9 dos pa\u00edses Europeus que encerra mais contradi\u00e7\u00f5es: uma economia antiga cada vez mais dependente das grandes pot\u00eancias europeias e dos EUA, desindustrializada, cruzada por tens\u00f5es independentistas, sangrada por uma onda de emigra\u00e7\u00e3o etc. Um pa\u00eds, como Gr\u00e9cia e Portugal, fustigado pela austeridade imposta ap\u00f3s a crise de 2008.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Essas contradi\u00e7\u00f5es explodiram entre 2011 e 2014: as grandes marchas pela independ\u00eancia da Catalunha, o movimento dos indignados, as greves gerais e as lutas dos mineiros s\u00e3o express\u00f5es da complexa realidade do pa\u00eds. <strong>O surgimento de forma\u00e7\u00f5es como o Podemos e Ciudadanos ou o impasse de quase um ano em que o pa\u00eds ficou sem governo eleito foram reflexos de um pa\u00eds em transi\u00e7\u00e3o.<\/strong> Hoje, apesar da situa\u00e7\u00e3o estar mais calma \u2013 o PIB pode crescer acima dos 3% este ano e as lutas sociais t\u00eam diminu\u00eddo \u2013 o cen\u00e1rio social mostra a decad\u00eancia do pa\u00eds, paga pelos trabalhadores. Mais de 28% da popula\u00e7\u00e3o vive em risco de pobreza, 22% \u00e9 diretamente pobre e quase 15% dos trabalhadores tamb\u00e9m. O desemprego, apesar de ter descido, est\u00e1 nos 19% e nos 44% entre os jovens.<\/p>\n<p>Necessariamente esta realidade, mesmo quando n\u00e3o gera grandes conflitos e lutas sociais, expressa-se na vida pol\u00edtica do pa\u00eds. A crise do centro pol\u00edtico, espelhado sobretudo na crise do PSOE e no crescimento do Podemos, \u00e9 a maior express\u00e3o desta reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massas.<\/p>\n<p><strong>PSOE em crise pela amea\u00e7a da \u201cpasokiza\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de dezembro de 2015 ganhou o centro direita, seguido do PSOE<sup>2<\/sup>, com as duas novas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, Ciudadanos (centro-direita) e Podemos na casa dos 14%. Era a destrui\u00e7\u00e3o do centro pol\u00edtico e nenhum dos dois principais dirigentes \u2013 Mariano Rajoy, do PP ou Pedro Sanchez, do PSOE &#8211; conseguiram forjar alian\u00e7as para formar governo. Isso obrigou \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, no ver\u00e3o de 2016, com um cen\u00e1rio semelhante. A possibilidade de umas terceiras elei\u00e7\u00f5es esteve colocada porque o secret\u00e1rio-geral do PSOE se negava a estender a m\u00e3o ao PP e permitir uma maioria parlamentar. Isso foi resolvido com um golpe interno no PSOE.<\/p>\n<p>Como tem acontecido noutros pa\u00edses europeus, tem sido o centro-esquerda a pagar de forma mais dura a ruptura de milh\u00f5es de eleitores com o bipartidarismo. A destrui\u00e7\u00e3o do PASOK<sup>3&nbsp;<\/sup>paira como aviso sobre a social-democracia europeia. <strong>A aposta de Sanchez era a de salvar o PSOE como o seu cong\u00e9nere portugu\u00eas fez, at\u00e9 agora com sucesso: governando em alian\u00e7a com a sua esquerda, prendendo-a ao centro pol\u00edtico e impedindo-a de fazer oposi\u00e7\u00e3o. <\/strong>Por\u00e9m ningu\u00e9m facilitou a vida a Sanchez: Pablo Iglesias exigia, para se aliar ao PSOE, a disponibilidade para um referendo \u00e0 soberania da Catalunha, coisa que o PSOE n\u00e3o podia aceitar. Por outro lado o regime pol\u00edtico espanhol, uma monarquia herdada do franquismo, n\u00e3o t\u00eam flexibilidade para aceitar uma governa\u00e7\u00e3o com os \u201cradicais\u201d do Podemos. <strong>O impasse amea\u00e7ava levar a uma nova elei\u00e7\u00e3o e, para o impedir, o aparelho interno do PSOE, apoiado em figuras como Zapatero e Felipe Gonzalez<sup>4<\/sup>, for\u00e7ou a demiss\u00e3o de Sanchez e colocou em seu lugar uma dire\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria que se apressou em abster-se no parlamento, permitindo ao PP governar.<\/strong> Esta n\u00e3o foi uma decis\u00e3o pac\u00edfica: v\u00e1rios deputados do PSOE romperam com a disciplina e votaram contra Rajoy. Sanchez anunciou que ser\u00e1 candidato nas pr\u00f3ximas prim\u00e1rias contra a candidata do aparelho, Susana Diaz. Os dois candidatos \u00e0 lideran\u00e7a do PSOE refletem duas estrat\u00e9gias para evitar a \u201cpasokiza\u00e7\u00e3o\u201d do PSOE: uma alian\u00e7a com Podemos e Ciudadanos, de forma a escudar-se da crise internacional da social-democracia, ou um regresso a um PSOE \u201cforte\u201d, no centro-esquerda, que tenha mais proximidades ao PP que ao Podemos, como proposto por Susana Diaz. A guerra entre estes sectores mais n\u00e3o \u00e9 do que o regime bipartid\u00e1rio mon\u00e1rquico e espanholista a lutar para preservar um dos seus apoios centrais: o PSOE.<\/p>\n<p><strong>Dire\u00e7\u00e3o do Podemos divide-se<\/strong><\/p>\n<p>Dentro do Podemos parece dar-se uma divis\u00e3o \u2013 por enquanto ainda n\u00e3o se trata de uma crise \u2013 sim\u00e9trica. O Podemos \u00e9 uma das for\u00e7as de esquerda com maior express\u00e3o eleitoral da Europa. Apesar de crises e da instabilidade interna, nada indica que esta for\u00e7a venha a esvaziar-se nos pr\u00f3ximos anos. Por\u00e9m chegou a estar colocado nas sondagens como primeira for\u00e7a pol\u00edtica e gerou espectativas de poder reproduzir o sucesso eleitoral do Syriza. Ap\u00f3s ter ficado aqu\u00e9m dessa expectativa, e tendo as lutas sociais que, indiretamente, inflaram a influ\u00eancia do Podemos, acalmado, o partido t\u00eam de se relocalizar politicamente. Tal como acontece no PSOE, a sua dire\u00e7\u00e3o divide-se. Pablo Iglesias defende o \u201cregresso \u00e0s ruas\u201d e um refor\u00e7o da alian\u00e7a com a Izquierda Unida<sup>5<\/sup> enquanto seu bra\u00e7o-direito, I\u00f1igo Errejon defende um discurso de maior \u201cresponsabilidade\u201d, pr\u00f3ximo do centro-esquerda, deixando as portas abertas a alian\u00e7as com o PSOE. Iglesias tem defendido publicamente que \u00e9 preciso virar \u00e0 esquerda, chamando \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para a forma com a extrema-direita tem crescido noutros pa\u00edses apoiada num eleitorado radicalizado. Por\u00e9m, se aponta para algumas mudan\u00e7as no terreno discursivo e, eventualmente de alian\u00e7as, <strong>Iglesias n\u00e3o fala em \u201cradicalizar\u201d o Programa do Podemos, que se tornou cada vez mais moderado, aceitando a Uni\u00e3o Europeia, o Euro e o regime Mon\u00e1rquico e opressor do Estado espanhol, assim como n\u00e3o reconhece o direito das nacionalidades oprimidas a decidir unilateralmente a sua independ\u00eancia<\/strong><sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>Essas diverg\u00eancias v\u00e3o marcar o Congresso do partido nos primeiros meses do pr\u00f3ximo ano. A Iglesias e Errejon, junta-se ainda o sector Anticapitalistas, capitaneado por Miguel \u00darban e Tereza Rodriguez que tem origem no partido trotsquista LCR, depois Izquierda Anticapitalista. Estes t\u00eam uma proposta mais \u00e0 esquerda, de enraizamento nas lutas sociais e de \u201cregresso ao Podemos das origens\u201d tamb\u00e9m a n\u00edvel program\u00e1tico. O grande acordo entre todas as correntes \u00e9 que Iglesias se deve manter como secret\u00e1rio-geral, por\u00e9m este diz que n\u00e3o aceita s\u00ea-lo caso a sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o ven\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>A media\u00e7\u00e3o de for\u00e7as j\u00e1 come\u00e7ou. <\/strong>Antes das vota\u00e7\u00f5es de delegados, posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e da elei\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o, os inscritos do Podemos s\u00e3o chamados a votar nas regras que ir\u00e3o gerir o Congresso. A vota\u00e7\u00e3o foi on-line, entre os dias 18 e 21. As diferentes correntes fizeram diferentes propostas, sendo que a corrente de Errejon e os Anticapitalistas defenderam um modelo de elei\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o com maiores garantias de proporcionalidade, sendo que Pablo Iglesias apostou num modelo mais centralista. A vota\u00e7\u00e3o mostra um Podemos dividido: a proposta de Iglesias obteve 41,6% e Errejon 39%. Os Anticapitalistas obtiveram 10,5% numa vota\u00e7\u00e3o em que participaram cerca de 100 mil dos 400 mil inscritos no partido. Embora Iglesias tenha declarado que \u201cganhou o Podemos\u201d, depois da vota\u00e7\u00e3o j\u00e1 v\u00e1rios incidentes cavaram um fosso entre \u201cpablistas\u201d e \u201cerrejonistas\u201d que se enfrentam nas redes sociais.<\/p>\n<p>Tanto a crise de POSE como a de Podemos mais n\u00e3o s\u00e3o que a express\u00e3o de um regime em crise profunda e em reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. As m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es que o Estado Espanhol enfrentam levam a que a reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 da qual estas crises s\u00e3o s\u00f3 a \u201cponta do iceberg\u201d \u2013 seja das mais din\u00e2micas e exuberantes da europa. <strong>Seguir o cen\u00e1rio espanhol \u00e9 essencial para perceber que for\u00e7as se libertam da crise de representatividade da democracia burguesa e como podem os revolucion\u00e1rios fortalecer-se neste cen\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Notas<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p><sup><strong>1<\/strong><\/sup>&nbsp;Usamos a express\u00e3o \u201cEstado Espanhol\u201d e n\u00e3o \u201cEspanha\u201d pois esta designa\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds omite a exist\u00eancia de outras na\u00e7\u00f5es dentro das fronteiras \u201cespanholas\u201d, identificando o estado com a na\u00e7\u00e3o espanhol central e opressora face \u00e0s nacionalidades basca, catal\u00e3 e galega;<\/p>\n<p><sup><strong>2<\/strong>&nbsp;<\/sup>Partido Socialista Obrero de Espa\u00f1a, representante da social-democracia cl\u00e1ssica, convertido ao social-liberalismo com a maioria do centro-esquerda europeu;<\/p>\n<p><sup><strong>3<\/strong><\/sup>&nbsp;Partido Socialista Grego;<\/p>\n<p><strong><sup>4<\/sup>&nbsp;<\/strong>Ex-primeiros Ministros;<\/p>\n<p><strong><sup>5<\/sup>&nbsp;<\/strong>Partido Pol\u00edtico que serve de \u201cfrente pol\u00edtica\u201d ao Partido Comunista Espanhol e que concorreu nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es coligado ao Podemos;<\/p>\n<p><sup><strong>6<\/strong><\/sup>&nbsp;Devido \u00e0s grandes lutas pela autodetermina\u00e7\u00e3o na Catalunha e \u00e0s alian\u00e7as do Podemos com Ada Colau, \u201cAlcadesa\u201d de Barcelona que acaba de fundar um novo partido na Catalunha junto com o Podemos, as posi\u00e7\u00f5es de Pablo Iglesias t\u00eam zig-zagueado. Recentemente t\u00eam defendido um referendo \u00e0 independ\u00eancia da Catalunha, mas apenas no caso do Estado Central o aceitar;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado Espanhol 1 \u00e9 dos pa\u00edses Europeus que encerra mais contradi\u00e7\u00f5es: uma economia antiga cada vez mais dependente das grandes pot\u00eancias europeias e dos EUA, desindustrializada, cruzada por tens\u00f5es independentistas, sangrada por uma onda de emigra\u00e7\u00e3o etc. Um pa\u00eds, como Gr\u00e9cia e Portugal, fustigado pela austeridade imposta ap\u00f3s a crise de 2008.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2256,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[23],"tags":[181,269,114,145,1009,206,579],"class_list":["post-2257","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estado-espanhol","tag-estado-espanhol","tag-eua","tag-mas","tag-movimento-alternativa-socialista","tag-pasokizacao","tag-podemos","tag-psoe"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/podemospsoe.jpg?fit=664%2C411","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2257","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2257"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2257\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2256"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2257"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2257"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2257"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}