{"id":2247,"date":"2016-12-09T13:12:11","date_gmt":"2016-12-09T12:12:11","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/09\/a-luta-contra-a-precariedade-e-comum-a-centenas-ou-milhares-de-outros-call-centers\/"},"modified":"2016-12-09T13:12:11","modified_gmt":"2016-12-09T12:12:11","slug":"a-luta-contra-a-precariedade-e-comum-a-centenas-ou-milhares-de-outros-call-centers","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2016\/12\/09\/a-luta-contra-a-precariedade-e-comum-a-centenas-ou-milhares-de-outros-call-centers\/","title":{"rendered":"\u201cA luta contra a precariedade \u00e9 comum a centenas ou milhares de outros call-centers\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>O MAS tem acompanhado e apoiado as greves nos call-centers da EDP de Lisboa. A organiza\u00e7\u00e3o e sindicaliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores prec\u00e1rios \u00e9 uma aposta estrat\u00e9gica do nosso partido, assim como a dinamiza\u00e7\u00e3o de um sindicalismo independente, combativo e democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Por isso, apesar de apoiarmos todas as lutas dirigidas pelos sindicatos ligados \u00e0 CGTP \u2013 e mesmo da UGT, quando existem -, somos muitas vezes cr\u00edticos dos m\u00e9todos usados. Por isso mantemo-nos como oposi\u00e7\u00e3o ao Governo PS, uma vez que, a nosso ver, n\u00e3o tem resolvido os problemas centrais dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Para aprofundar estes debates fomos entrevistar D\u00e1rio Costa, operador do call-center da EDP e rec\u00e9m-sindicalizado no STCC \u2013 Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center \u2013, independente de ambas as centrais sindicais. D\u00e1rio Costa \u00e9 um nome fict\u00edcio, uma vez que, apesar das lutas e greves, hoje a precariedade ainda torna perigoso dar a cara para falar sobre direitos e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: H\u00e1 quanto tempo que trabalhas no call-center da EDP? Tens contrato com quem? Qual \u00e9 o teu sal\u00e1rio m\u00e9dio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC<\/strong>: Estou a trabalhar na EDP fez este m\u00eas de novembro 3 anos, sem contar os 4 meses de forma\u00e7\u00e3o inicial (1 em sala e 2 on-job). Respondemos como EDP perante o cliente mas trabalhamos para a Randstad.<\/p>\n<p>O sal\u00e1rio m\u00e9dio tem-se situado cerca de 30 euros acima do sal\u00e1rio m\u00ednimo considerando os aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo dos \u00faltimos anos que t\u00eam acompanhado o meu percurso no sistema de escal\u00f5es por antiguidade que existia na empresa \u00e0 minha chegada. Existia, porque estes escal\u00f5es n\u00e3o t\u00eam&nbsp; sido atualizados face aos aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo.&nbsp; <strong>Existiam 4 escal\u00f5es que se atingia aos 6, 18 e 36 meses de trabalho mas considerando que em princ\u00edpio o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional vai voltar a aumentar agora em 2017, v\u00e3o restar apenas dois escal\u00f5es. O inicial, igual ao sal\u00e1rio m\u00ednimo e o escal\u00e3o dos 36 meses situado atualmente em 645 euros de sal\u00e1rio base.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>: T\u00eam havido greves e plen\u00e1rios nos call-centers da EDP. Tens participado? Que avalia\u00e7\u00e3o fazes desta luta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC<\/strong>: Existe com regularidade plen\u00e1rios promovidos pelo principal sindicato afeto aos trabalhadores dos call-centers da EDP (SIESI) e tamb\u00e9m t\u00eam existido greves com frequ\u00eancia. <strong>A avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser totalmente satisfat\u00f3ria ou positiva considerando que os resultados t\u00eam sido bastante escassos face \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es.<\/strong> Tivemos recentemente por exemplo, como resposta \u00e0 nossa luta, uma atualiza\u00e7\u00e3o salarial de 1 euro para trabalhadores com mais de 3 anos de casa e um arredondamento nos 6 euros do subs\u00eddio de alimenta\u00e7\u00e3o. Nem uma palavra contudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o dos escal\u00f5es de modo a acompanhar os aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Al\u00e9m disso a nossa luta \u00e9 ingrata porque nunca existe ader\u00eancia a 100% e nem pode haver porque temos sempre colegas em on-job que, com contratos de forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem aderir \u00e0 greve, e temos colegas a colmatar a nossa aus\u00eancia no call center de Seia, cujas condi\u00e7\u00f5es salariais e reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o outras e pelo que percebo n\u00e3o t\u00eam participado das nossas a\u00e7\u00f5es. <strong>Portanto, o impacto por mais que possa existir, acaba sempre por ser reduzido porque o trabalho &#8211; j\u00e1 imensamente atrasado &#8211; atrasa mais um pouco mas a linha de atendimento n\u00e3o chega a parar.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Quais s\u00e3o as principais reivindica\u00e7\u00f5es desta luta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC<\/strong>: <strong>A revindica\u00e7\u00e3o principal mas que \u00e9 de certa forma ut\u00f3pica, \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o dos trabalhadores dos call centers da EDP nos quadros da EDP. Mas este cen\u00e1rio, apesar de justo, \u00e9 bastante improv\u00e1vel. Mais justo ainda contudo \u00e9 a atualiza\u00e7\u00e3o salarial que n\u00e3o existe desde 2012, quando houve um aumento de 8 euros. <\/strong>Atualmente a a\u00e7\u00e3o sindical bate-se por um aumento di\u00e1rio de 1 euro (cerca de 30 euros m\u00eas), mas a EDP respondeu com um aumento mensal de 1 euro (no \u00faltimo escal\u00e3o). Existe ainda outra reivindica\u00e7\u00e3o acerca do pr\u00e9mio pelos 10 anos de antiguidade &#8211; temos muitos colegas nesta situa\u00e7\u00e3o, o que demonstra o carat\u00e9r de efetividade da fun\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os via empresa de trabalho tempor\u00e1rio &#8211; atualmente em 500 euros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Do teu ponto de vista, quais s\u00e3o os pontos fortes e fracos deste processo de lutas e greves?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC<\/strong>: Apesar do generalizado descr\u00e9dito que categoria &#8220;sindicato&#8221; adquiriu, no geral, junto dos trabalhadores nos tempos que correm, onde muitos n\u00e3o reconhecem o sindicato como uma entidade capaz de zelar pelos direitos dos trabalhadores &#8211; e nos CC da EDP n\u00e3o \u00e9 diferente &#8211; temos uma boa percentagem de colegas que acredita nesta luta e nas a\u00e7\u00f5es de luta propostas pelo SIESI. A din\u00e2mica dos delegados sindicais na realiza\u00e7\u00e3o de plen\u00e1rios nas pr\u00f3prias instala\u00e7\u00f5es onde desempenhamos o nosso trabalho s\u00e3o com certeza um ponto positivo neste processo, uma vez que a visibilidade inevitavelmente criada junto dos trabalhadores permite atrair a aten\u00e7\u00e3o daqueles que normalmente estariam &#8220;desligados&#8221; destas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Um ponto menos positivo a respeito, tem a ver com o facto de n\u00e3o sermos trabalhadores de call-center diferentes de outros trabalhadores de call center. <strong>A luta contra a precariedade das nossas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 comum a centenas ou milhares de outros call-centers no pa\u00eds, e a luta contra a precariedade do trabalho de call center n\u00e3o \u00e9 central na agenda do SIESI mas deveria ser. E o fim da precariedade dos trabalhadores de call center apenas pode ser alcan\u00e7ado com o reconhecimento do trabalho de call center como um trabalho de desgaste r\u00e1pido e como tal, pausas de 4 minutos de 2 em 2 horas e um limite de 6 horas de atendimento telef\u00f3nico por jornada de trabalho deveriam ser direitos adquiridos.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: O m\u00e9todo de greves repetidas usado pelo SIESI assemelha-se um pouco \u00e0s greves do Metro nos \u00faltimos anos. Ser\u00e1 este o melhor m\u00e9todo? Quais achas que poderiam ser os pr\u00f3ximos passos para dar continuidade \u00e0 luta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DS<\/strong>: Compreendo a compara\u00e7\u00e3o uma vez que o impacto junto da entidade patronal \u00e9 reduzido, face ao impacto que estas a\u00e7\u00f5es t\u00eam junto dos utilizadores\/clientes que acabam por ser os maiores prejudicados devido \u00e0 dificuldade de contacto com a linha da EDP, ou devido ao atraso na realiza\u00e7\u00e3o de seus pedidos (2\u00aas vias de faturas por exemplo). <strong>Admitindo que a paralisa\u00e7\u00e3o por interm\u00e9dio de greves n\u00e3o \u00e9 o melhor m\u00e9todo, \u00e9 a arma que temos ao nosso dispor enquanto este tipo de luta for realizada somente no \u00e2mbito dos call centers da EDP, como uma esp\u00e9cie de categoria excecional dentro dos call centers. \u00c9 claro que a reivindica\u00e7\u00e3o salarial nos moldes em que \u00e9 feita, \u00e9 um aspeto particular da &#8220;nossa&#8221; luta, contudo esta luta deve ser tamb\u00e9m a luta de outros trabalhadores de call-center Randstad<\/strong>, ou luta dos nossos vizinhos da Teleperformance por exemplo (ironicamente o call-center da EDP em Lisboa, no Parque das Na\u00e7\u00f5es, localiza-se justamente ao lado de outro call-center, o da Telepeformance).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: O Sindicato dos Trabalhadores de Call-Centers tem promovido uma campanha para que o trabalho em call-center seja considerada profiss\u00e3o de desgaste r\u00e1pido. Concordas com esta reivindica\u00e7\u00e3o? Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DS<\/strong>: Concordo efetivamente. No \u00faltimo plen\u00e1rio promovido pelo SIESI estivemos inclusivamente a discutir sobre o elevado n\u00famero de colegas de profiss\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rios meses de baixa psiqui\u00e1trica. Em Fran\u00e7a tamb\u00e9m t\u00eam-se relacionado o acr\u00e9scimo do n\u00famero de suic\u00eddios com a precariedade e com o desgaste das fun\u00e7\u00f5es do trabalho em call-center. <strong>O nosso trabalho \u00e9 porventura uma das profiss\u00f5es mais desgastante a n\u00edvel psicol\u00f3gico das sociedades ocidentalizadas atuais, quer devido \u00e0 press\u00e3o por resultados de qualidade e excel\u00eancia, quer devido \u00e0 press\u00e3o por resultados comerciais (vendas) ou at\u00e9 mesmo pela repetitividade de fun\u00e7\u00f5es e barulho em sala. <\/strong>Este \u00faltimo ponto sobre o barulho em sala, \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o que a meu ver deveria ser regulada no \u00e2mbito dos call-centers, da mesma forma que a quest\u00e3o das pausas de 4 minutos de 2 em 2 horas (atualmente existe mais ou menos um consenso quanto aos 2 minutos de pausa de 2 em 2 horas) e a quest\u00e3o do limite de tempo de atendimento de 6 horas por jornada de trabalho (8 horas), devendo ser as restantes 2 horas consagradas ao desempenho de outras fun\u00e7\u00f5es administrativas. O barulho em sala \u00e9 um ponto de preocupa\u00e7\u00e3o em alguns call-center mas em outros definitivamente n\u00e3o, e os pr\u00f3prios colegas em posi\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas superiores, s\u00e3o primeiros a promover este &#8220;barulho&#8221; sob a forma de din\u00e2micas comerciais, com gritos de incentivo a vendas, que sobrep\u00f5em-se \u00e0s vozes dos colegas em linha, que aumentam o tom de voz em resultado disto, elevando todo o n\u00edvel de decib\u00e9is em sala. <strong>Ora se na generalidade das atividades profissionais existem limites quanto o ru\u00eddo que o trabalhador pode estar exposto, porque nos call-centers a situa\u00e7\u00e3o permanece diferente e excepcional?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Nos call-centers existe muita precariedade e tamb\u00e9m muitas mulheres, LGBT\u00b4s e Negros. Porque achas que \u00e9 assim? A teu ver existe rela\u00e7\u00e3o entre a precariedade e as opress\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC<\/strong>: <strong>Nos call-centers parece-me que a mancha social atual, pelo menos no panorama portugu\u00eas \u00e9 bastante heterog\u00e9nea. <\/strong>Existe desde jovens estudantes at\u00e9 mesmo dos secund\u00e1rio, de licenciaturas e mestrados, at\u00e9 pessoas de meia-idade que recentemente se viram numa situa\u00e7\u00e3o de desemprego ap\u00f3s d\u00e9cadas de dedica\u00e7\u00e3o ou a uma empresa que faliu, ou ao setor p\u00fablico. E existe ainda os rec\u00e9m-licenciados ou licenciados sem emprego na \u00e1rea. Ou seja, atualmente a precariedade \u00e9 transversal \u00e0 sociedade. \u00c9 claro que para os grupos citados existe opress\u00e3o e precariedade a outros n\u00edveis, mas no \u00e2mbito dos call-centers pelo menos, a situa\u00e7\u00e3o parece ser fatidicamente &#8220;democr\u00e1tica&#8221; &#8211; todos t\u00eam direito \u00e0 precariedade &#8211; excepto claro, grupos de privil\u00e9gio, no acesso ao ensino e\/ou mercado de trabalho. <strong>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 contudo diferente no que diz respeito \u00e0 facilidade com que negros e\/ou imigrantes e filhos de imigrantes sobem dentro das hierarquias dos call-centers. Nesse ponto considero que existe claramente discrimina\u00e7\u00e3o e, pelo menos nos call-centers da EDP, a subida hier\u00e1rquica est\u00e1 muito mais relacionada com privil\u00e9gios e influ\u00eancias do que propriamente com o m\u00e9rito.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MAS: Muitos trabalhadores e jovens v\u00eam com bons olhos o Governo PS, apoiado por BE e PCP. Uma das promessas do governo \u00e9 precisamente o combate \u00e0 precariedade. Como jovem, prec\u00e1rio e da periferia de Lisboa, que avalia\u00e7\u00e3o fazes deste novo governo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC<\/strong>: Os sinais deste novo governo s\u00e3o claramente positivos, pelo menos em rela\u00e7\u00e3o ao anterior executivo. <strong>Mas at\u00e9 ao momento o referido combate \u00e0 precariedade tem sido discreto e apenas cingido \u00e0 fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica com a integra\u00e7\u00e3o de alguns trabalhadores prec\u00e1rios nos quadros p\u00fablicos previsto para 2017.<\/strong> <strong>Para n\u00f3s, uma larga mancha de jovens da periferia, prec\u00e1rios e trabalhadores de call-center, ainda n\u00e3o se vislumbra a m\u00e9dio prazo mudan\u00e7as significativas na nossa atividade laboral, apesar do apoio \u00e0 esquerda do governo.<\/strong> Nas a\u00e7\u00f5es de luta reinvidicativa promovidas pelo SIESI temos inclusivamente tido a presen\u00e7a de representantes dos partidos \u00e0 esquerda do PS, que t\u00eam dado import\u00e2ncia \u00e0 nossa luta e publicado a respeito, e isso sem d\u00favida \u00e9 bom e positivo, n\u00e3o tem porventura chegado para influenciar na tomada de decis\u00f5es junto da maioria que sustenta o governo, mas acaba por ser um bom principio, sermos ouvidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O MAS tem acompanhado e apoiado as greves nos call-centers da EDP de Lisboa. 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