{"id":218,"date":"2010-05-10T06:30:18","date_gmt":"2010-05-10T05:30:18","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/05\/10\/nem-deus-nem-cesar\/"},"modified":"2010-05-10T06:30:18","modified_gmt":"2010-05-10T05:30:18","slug":"nem-deus-nem-cesar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/05\/10\/nem-deus-nem-cesar\/","title":{"rendered":"Nem Deus nem C\u00e9sar"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-217\" style=\"margin-right: 5px; float: left;\" alt=\"nem_deus_nem_csar\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/nem_deus_nem_csar.jpg?resize=260%2C234\" width=\"260\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/nem_deus_nem_csar.jpg?w=500 500w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/nem_deus_nem_csar.jpg?resize=300%2C270 300w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/nem_deus_nem_csar.jpg?resize=480%2C432 480w\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/>De repente, na histeria da recep\u00e7\u00e3o a Bento XVI, os nossos fazedores de opini\u00e3o puseram-se a zurzir forte e feio nos preconceitos laicistas, jacobinos e ma\u00e7ons. Que s\u00e3o preconceitos esquem\u00e1ticos, que pretendem separar hermeticamente o que \u00e9 de deus e o que \u00e9 de c\u00e9sar, que confundem um Estado laico com uma sociedade laica e assim por diante.<\/p>\n<p>Acontece que todo este palavreado \u00e9, ele pr\u00f3prio, esquem\u00e1tico, porque  toma como alvo o laicismo republicano e burgu\u00eas da Primeira Rep\u00fablica.  Esse laicismo burgu\u00eas h\u00e1 muito que est\u00e1 morto e enterrado. Ele \u00e9 um alvo  f\u00e1cil porque fracassou. Concebia o combate ao obscurantismo religioso  como revolu\u00e7\u00e3o cultural, quando na realidade esse combate s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel  mediante uma revolu\u00e7\u00e3o social.  <!--more-->  <\/p>\n<p> Compreende-se que o laicismo republicano, burgu\u00eas como era, n\u00e3o pudesse admitir esta liga\u00e7\u00e3o e nos tenha deixado em heran\u00e7a um alvo de f\u00e1cil para a demagogia pr\u00f3-clerical. <\/p>\n<p>\u00c0 falta de argumentos, os burgueses laicos do nosso tempo, os Soares e os Alegres, mimetizam-se portanto com a grande mar\u00e9 patrioteira e anfitri\u00e3. Sobram, assim, para um laicismo socialista \u2013 socialista, digo bem, nem soarista, nem alegrista \u2013 v\u00e1rias elementaridades para serem ditas, daquelas que antes faziam parte do senso comum e agora parecem estar esquecidas.<\/p>\n<p>O que se esconde por tr\u00e1s da met\u00e1fora \u201co que \u00e9 de deus e o que \u00e9 de c\u00e9sar\u201d? Claro que \u00e9 de reivindicar a separa\u00e7\u00e3o, se por ela se entende que o Estado n\u00e3o deve meter o nariz na religi\u00e3o. Todas as pessoas t\u00eam o direito a uma irrestrita liberdade religiosa. E \u00e9 de reivindicar a separa\u00e7\u00e3o, se por ela se entende que a C\u00e2mara de Our\u00e9m n\u00e3o tem de subsidiar a visita papal em meio milh\u00e3o de euros dos contribuintes.<\/p>\n<p>Mas, se se considera \u201cde deus\u201d o imenso patrim\u00f3nio imobili\u00e1rio da igreja, j\u00e1 nada disso pode ficar fora da lei ou acima da lei. Quando vigora a lei burguesa, o patrim\u00f3nio da igreja deve ser tribut\u00e1vel e pagar impostos como qualquer outro. Quando vigorar uma lei revolucion\u00e1ria, de reforma agr\u00e1ria, de reforma urbana, ou do que for, deve ser expropri\u00e1vel como qualquer outro. Nada dever\u00e1 colocar um burgu\u00eas de mitra e sotaina ao abrigo das medidas que atingem um burgu\u00eas de fraque e cartola.<\/p>\n<p>Hoje vigora a lei burguesa e nada deveria colocar o papa e o seu clero acima das obriga\u00e7\u00f5es que ela imp\u00f5e. Diz-se que, ao tomar conhecimento dos casos de pedofilia na igreja, o ent\u00e3o cardeal Ratzinger tentou p\u00f4r-lhes cobro. Talvez. Tentou talvez meter na ordem os padres ped\u00f3filos e abafar o esc\u00e2ndalo. Mas os padres ped\u00f3filos n\u00e3o tinham de ser metidos na ordem \u2013 tinham de ser metidos na cadeia, como qualquer abusador de menores. Toda a ac\u00e7\u00e3o de Ratzinger foi para evitar que isso acontecesse e para n\u00e3o entregar \u00e0 Justi\u00e7a de c\u00e9sar o que pretendia reservar ao foro \u2013 indulgente, e quanto! \u2013 da igreja.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 que notar que as crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas sofrem tamb\u00e9m o abuso de serem baptizadas numa idade em que nada podem dizer. N\u00e3o se trata aqui de comparar um tal abuso simb\u00f3lico e relativamente benigno com os criminosos abusos sexuais. Mas ainda assim este \u00e9 mais um terreno em que, com o estafado discurso do pa\u00eds \u201cmaioritariamente cat\u00f3lico\u201d, a igreja considera aquelas ovelhas como propriedade sua, para efeitos estat\u00edsticos e n\u00e3o s\u00f3, acha que pode fazer delas o que quiser e marca-as com um ferro em brasa s\u00f3 anul\u00e1vel atrav\u00e9s de uma declarada e militante apostasia.<\/p>\n<p>Enfim, a igreja pode ter as suas opini\u00f5es sobre a sexualidade dos cat\u00f3licos e dos n\u00e3o-cat\u00f3licos. Mas n\u00e3o pode fazer dessas opini\u00f5es o trampolim para uma fronda contra as leis que protegem a sa\u00fade p\u00fablica. N\u00e3o pode, por exemplo, incitar os m\u00e9dicos \u00e0 objec\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia perante as interrup\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias de gravidez, nem pode boicotar o uso do preservativo. E n\u00e3o pode faz\u00ea-lo, porque esses incitamentos e boicotes s\u00e3o simplesmente criminosos.<\/p>\n<p>Deus s\u00f3 existe para quem acredita e, \u00e0 face da lei, nada tem. C\u00e9sares, tem havido muitos e todos eles incapazes de colocarem a igreja no seu lugar. A capacidade de falar claro perante a igreja e de dizer, em momentos destes coisas impopulares, seria a marca de \u00e1gua duma esquerda sem c\u00e9sares, disposta a transformar a sociedade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p> <strong>Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De repente, na histeria da recep\u00e7\u00e3o a Bento XVI, os nossos fazedores de opini\u00e3o puseram-se a zurzir forte e feio nos preconceitos laicistas, jacobinos e ma\u00e7ons. Que s\u00e3o preconceitos esquem\u00e1ticos, que pretendem separar hermeticamente o que \u00e9 de deus e o que \u00e9 de c\u00e9sar, que confundem um Estado laico com uma sociedade laica e assim por diante. Acontece que todo este palavreado \u00e9, ele pr\u00f3prio, esquem\u00e1tico, porque toma como alvo o laicismo republicano e burgu\u00eas da Primeira Rep\u00fablica. Esse laicismo burgu\u00eas h\u00e1 muito que est\u00e1 morto e enterrado. Ele \u00e9 um alvo f\u00e1cil porque fracassou. 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