{"id":199,"date":"2010-03-22T16:16:16","date_gmt":"2010-03-22T15:16:16","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2010\/03\/22\/a-morte-de-orlando-zapata-tamayo-e-as-liberdades-em-cuba\/"},"modified":"2010-03-22T16:16:16","modified_gmt":"2010-03-22T15:16:16","slug":"a-morte-de-orlando-zapata-tamayo-e-as-liberdades-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2010\/03\/22\/a-morte-de-orlando-zapata-tamayo-e-as-liberdades-em-cuba\/","title":{"rendered":"A morte de Orlando Zapata Tamayo e as liberdades em Cuba"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-198\" style=\"margin-right: 10px; float: left;\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/raul_castro_cuba.jpg?resize=260%2C300\" alt=\"Raul Castro\" width=\"260\" height=\"300\" \/>A morte do preso cubano Orlando Zapata Tamayo, logo ap\u00f3s uma longa greve de fome, tem provocado uma grande pol\u00e9mica internacional. \u00c9 que as circunst\u00e2ncias do caso e a sua repercuss\u00e3o internacional t\u00eam demonstrado de forma chocante a actua\u00e7\u00e3o do governo cubano e qual deve ser a atitude das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda em casos como este. O debate obriga-nos a aprofundar o tema e leva-nos a responder a pergunta sobre o que \u00e9 actualmente o Estado cubano.<br \/>   <!--more-->  <br \/><strong>Quem era Orlando Zapata Tamayo?<\/strong><\/p>\n<p>A maioria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda saiu em defesa intransigente do governo cubano e denunciou que a repercuss\u00e3o dos media \u00e9 uma nova campanha imperialista contra o que considera \u201co \u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d. O primeiro argumento neste sentido \u00e9 que ele n\u00e3o era um \u201cpreso pol\u00edtico\u201d, mas um marginal, um delinquente anti-social que aproveitou a sua condi\u00e7\u00e3o de preso para apresentar-se como \u201cdissidente\u201d e come\u00e7ou a ser utilizado pela media imperialista. <\/p>\n<p>Tal acusa\u00e7\u00e3o falsifica absurdamente a realidade. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio ver como funciona o sistema penal cubano e quem era realmente Orlando Zapata Tamayo. Porque \u00e9 a partir dessas quest\u00f5es que se come\u00e7a a entender o que realmente ocorreu. Os \u00f3rg\u00e3os oficiais de Cuba e quem os apoia tratam de mostrar Zapata Tamayo como um \u201cpreso comum\u201d, alegando que foi detido v\u00e1rias vezes nos anos 90, acusado por delitos como \u201cfraude\u201d, \u201cdesordem p\u00fablica\u201d e \u201cagress\u00f5es\u201d. \u00c9 nesta ficha jur\u00eddico-policial que os \u00f3rg\u00e3os do PC cubano se apoiam para caracteriz\u00e1-lo como \u201cdelinquente\u201d. <\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 preciso ver \u00e9 que o sistema judicial cubano, por raz\u00f5es que logo veremos, est\u00e1 completamente viciado. Mas vamos supor que Zapata Tamayo tenha cometido esses delitos pelos quais foi preso nos anos 90. Contudo, esses mesmos \u00f3rg\u00e3os oficiais \u201cesquecem\u201d o facto de que, em Dezembro de 2002, n\u00e3o foi detido por nenhum desses delitos, mas por ter se transformado num opositor ao regime. O {Granma}, jornal oficial do PC cubano, diz que ele foi liberado sob fian\u00e7a em 9 de Mar\u00e7o de 2003 e que \u201cvoltou a delinquir no dia 20 do mesmo m\u00eas\u201d. A que se deveu essa \u00faltima deten\u00e7\u00e3o? O que significa para o {Granma} \u201cvoltar a delinquir\u201d? &nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um preso de consci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A \u00faltima deten\u00e7\u00e3o ocorreu porque, junto a outras pessoas, realizava uma greve de fome organizada pela Assembleia para Promover a Sociedade Civil. Depois, \u00e9 julgado e condenado por \u201cdesacato, desordem p\u00fablica e desobedi\u00eancia ao Estado\u201d e recebe uma pesada condena\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, vinha realizando diversos protestos exigindo a sua liberdade (e ao mesmo tempo melhores condi\u00e7\u00f5es na pris\u00e3o) que culminaram com a greve de fome que o levou \u00e0 morte. <\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Cubana de Direitos Humanos e Reconcilia\u00e7\u00e3o Nacional (CCDHRN), encabe\u00e7ada pelo advogado e dissidente pol\u00edtico Elizardo S\u00e1nchez, reivindicava-o como preso pol\u00edtico, e desde 2004 a Amnistia Internacional o reconhecia como \u201cpreso de consci\u00eancia\u201d (quer dizer, por suas convic\u00e7\u00f5es e n\u00e3o por delitos comuns), exigindo a sua liberdade. <\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que Zapata Tamayo (ou a organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual estava ligado) tivesse posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-capitalistas. N\u00e3o temos nenhum compromisso com as suas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nem ideais. Ele, por\u00e9m, n\u00e3o foi detido por estar a favor de restaurar o capitalismo, mas sim por exigir liberdades democr\u00e1ticas no pa\u00eds. O choque real que houve entre ele e o governo cubano, e que o levou \u00e0 morte, foi que o regime pol\u00edtico cubano n\u00e3o aceita a realiza\u00e7\u00e3o de actividades contra si. \u00c9 necess\u00e1rio perguntar-se o que ocorreu em Cuba nas \u00faltimas d\u00e9cadas para que um oper\u00e1rio especializado, como era Zapata Tamayo na d\u00e9cada de 80, seja condenado a longos anos de pris\u00e3o s\u00f3 por protestar contra o regime. Em segundo lugar, por que o governo cubano preferiu deix\u00e1-lo morrer a fazer qualquer concess\u00e3o a um preso de consci\u00eancia para n\u00e3o servir de \u201cmau exemplo\u201d? &nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma atitude que indigna<\/strong><\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias de sua morte, e a atitude do governo de Ra\u00fal Castro de negar qualquer responsabilidade, indigna aqueles que lutaram ou lutam contra as persegui\u00e7\u00f5es aos militantes de esquerda e que, nos c\u00e1rceres das ditaduras ou dos pa\u00edses imperialistas, muitas vezes tiveram que recorrer a esse tipo de medida. As declara\u00e7\u00f5es de Lula, presidente do Brasil, tamb\u00e9m nos indignam. Ele saiu em defesa da repress\u00e3o do Estado cubano e atacou os que fazem greve de fome, comparando-os com \u201cbandidos brasileiros\u201d. Lula \u201cesquece\u201d a pr\u00f3pria experi\u00eancia de luta do povo brasileiro contra a ditadura militar e as muitas vezes que, nessa \u00e9poca, os presos pol\u00edticos utilizaram essa ferramenta, inclusive quando ele pr\u00f3prio esteve preso.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n<p>Algo mais grave ainda quando, neste momento, o imperialismo e os governos capitalistas usam as acusa\u00e7\u00f5es de \u201ccriminosos\u201d ou \u201cbandidos\u201d contra lutas sociais, como as ocupa\u00e7\u00f5es de terra, e atacam os activistas oper\u00e1rios, camponeses ou ind\u00edgenas que lutam contra o latif\u00fandio ou o saque das empresas multinacionais. Assim, Lula serve os argumentos do governo cubano na bandeja para que a direita possa utiliz\u00e1-los no resto dos pa\u00edses do mundo. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o cubana e a restaura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel entender a morte de Orlando Zapata Tamayo sem localiz\u00e1-la no marco de um processo econ\u00f3mico-social muito mais profundo: a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo que Cuba viveu do final dos anos 80 e meados dos 90, impulsionada pelo regime do Partido Comunista. O processo aberto com a revolu\u00e7\u00e3o de 1959, ou seja, a expropria\u00e7\u00e3o das empresas do imperialismo norte-americano e da burguesia cubana e, principalmente, o in\u00edcio de uma economia planificada transformaram Cuba no primeiro Estado oper\u00e1rio do continente latino-americano. <\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o conseguiu avan\u00e7os imensos em \u00e1reas como Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, a melhoria geral do n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o e a elimina\u00e7\u00e3o da pobreza extrema e da mis\u00e9ria. Cuba converteu-se num s\u00edmbolo do que uma revolu\u00e7\u00e3o socialista era capaz de fazer, e os dirigentes do processo, Fidel Castro e Che Guevara, adquiriram imenso prest\u00edgio e se transformaram em uma refer\u00eancia pol\u00edtica para milh\u00f5es de lutadores e revolucion\u00e1rios do mundo. <\/p>\n<p>Contudo, desde o pr\u00f3prio in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o, a direc\u00e7\u00e3o castrista se constitu\u00eda numa burocracia governante que, poucos anos depois, se integrou ao aparato estalinista mundial, centralizado desde a casta governante na ex-URSS. Tal liga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica expressou-se no apoio de Fidel Castro \u00e0 invas\u00e3o do ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico \u00e0 Checoslov\u00e1quia em 1968, ou em sua orienta\u00e7\u00e3o, depois que a FSLN (Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional) derrotou a ditadura de Somoza, em 1979, de n\u00e3o fazer da Nicar\u00e1gua \u201cuma nova Cuba\u201d (ou seja, n\u00e3o avan\u00e7ar a uma revolu\u00e7\u00e3o socialista). <\/p>\n<p>Em Cuba, impediu o exerc\u00edcio da democracia oper\u00e1ria e perseguiu n\u00e3o s\u00f3 os agentes dos \u201cgusanos\u201d de Miami como tamb\u00e9m os opositores de esquerda. No final dos anos 80 e come\u00e7o dos 90, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista no Leste europeu e a queda da URSS significaram um duro golpe \u00e0 economia cubana, centrada na exporta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e na sua troca por petr\u00f3leo e tecnologia com esses pa\u00edses. Nesse contexto, a direc\u00e7\u00e3o castrista come\u00e7ou a desenvolver uma pol\u00edtica de restaura\u00e7\u00e3o capitalista e de desmonte das bases do Estado oper\u00e1rio. <\/p>\n<p>Os pilares fundamentais de uma economia planificada (o planeamento central estatal e o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior) j\u00e1 n\u00e3o existem, e a economia funciona segundo as leis capitalistas de mercado. A restaura\u00e7\u00e3o significou a perda ou a deteriora\u00e7\u00e3o extrema da maioria das conquistas da revolu\u00e7\u00e3o e a volta dos males que haviam sido eliminados ou reduzidos ao m\u00ednimo, como o desemprego, a prostitui\u00e7\u00e3o, a marginalidade, as drogas e a delinqu\u00eancia (dados que s\u00e3o reconhecidos, inclusive, pela pr\u00f3pria direc\u00e7\u00e3o cubana).<\/p>\n<p>O governo de Ra\u00fal Castro continua atacando uma ap\u00f3s outra as conquistas que restaram: restaurantes populares, redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento da Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o. Os sal\u00e1rios dos sectores oper\u00e1rios de base s\u00e3o miser\u00e1veis, n\u00e3o existe o direito de greve nem de organiza\u00e7\u00e3o de forma independente do Estado. Assim como na China, os pa\u00edses estrangeiros buscam aproveitar os baix\u00edssimos sal\u00e1rios e as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para a acumula\u00e7\u00e3o de capital e assim extrair lucros extraordin\u00e1rios: crescem os investimentos imperialistas da Europa, Canad\u00e1 e, inclusive, de sectores burgueses do Brasil. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma ditadura capitalista<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 diferen\u00e7a do que ocorreu na ex-URSS ou nos outros estados do Leste da Europa, onde os respons\u00e1veis do processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista (os regimes e partidos estalinistas) foram logo depois derrubados pelas massas, o processo cubano seguiu o \u201cmodelo chin\u00eas\u201d. Isto \u00e9, as massas n\u00e3o conseguiram derrubar o regime de partido \u00fanico dos PC\u2019s, que continuam \u00e0 cabe\u00e7a do agora Estado capitalista (ainda que continuem falando de \u201csocialismo\u201d e usando sua simbologia).<\/p>\n<p>A maioria da esquerda j\u00e1 come\u00e7ou a reconhecer o que ocorreu na China, mas se nega a fazer o mesmo em Cuba e a reivindica como \u201co \u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d. \u00c9 certo que a perman\u00eancia da direc\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Castro, a mesma que encabe\u00e7ou a revolu\u00e7\u00e3o, pode gerar confus\u00e3o. \u00c9 um facto tamb\u00e9m que o reconhecimento da restaura\u00e7\u00e3o e da realidade cubana actual resultam dolorosos para quem viu na revolu\u00e7\u00e3o cubana uma grande esperan\u00e7a. Mas isso n\u00e3o pode justificar a nega\u00e7\u00e3o da realidade e, menos ainda, uma pol\u00edtica totalmente equivocada baseada nessa nega\u00e7\u00e3o.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n<p>A realidade nos indica que hoje em Cuba se d\u00e1 uma p\u00e9ssima combina\u00e7\u00e3o para os trabalhadores. Por um lado, um sistema econ\u00f3mico capitalista de explora\u00e7\u00e3o, a volta dos seus piores males e a recoloniza\u00e7\u00e3o da ilha, realizada pelos imperialismos europeu e canadense. Por outro lado, um regime ditatorial e antidemocr\u00e1tico transformado em s\u00f3cio, impulsionador e defensor da restaura\u00e7\u00e3o capitalista e das suas consequ\u00eancias. Nesse sentido, o regime cubano \u00e9 semelhante ao chin\u00eas: os mesmos que antes defendiam os seus privil\u00e9gios como burocracia agora defendem os novos capitalistas e os seus neg\u00f3cios a qualquer custo. <\/p>\n<p>Uma ditadura que impede a liberdade de express\u00e3o e reprime qualquer corrente pol\u00edtica que discorde de sua linha (qualquer que seja sua posi\u00e7\u00e3o), que, segundo o informe da CCDHRN (ligada \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o), mant\u00e9m ao menos 200 presos pol\u00edticos. A Amnistia Internacional, por sua vez, reconheceu 58 presos pol\u00edticos em 2008. Mais ainda, em Cuba n\u00e3o h\u00e1 processos judiciais p\u00fablicos, as audi\u00eancias s\u00e3o fechadas e se pode perseguir de forma implac\u00e1vel trabalhadores como Zapata Tamayo e conden\u00e1-los a 30 anos pelo \u201ccrime\u201d de \u201cdesacato \u00e0 autoridade\u201d. <\/p>\n<p>Uma ditadura que teme como a peste \u00e0 liberdade de manifesta\u00e7\u00e3o: para evitar que se transformasse num evento pol\u00edtico, o pr\u00f3prio enterro de Zapata Tamayo foi objecto de um cerco policial na pequena cidade de Banes, sem nenhum respeito pela dor dos amigos e familiares. Mais de 60 deten\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds foram realizadas, para que os activistas mais pr\u00f3ximos a ele n\u00e3o estivessem presentes. H\u00e1 outros activistas de oposi\u00e7\u00e3o que lutam pela liberdade dos presos pol\u00edticos: um dissidente, o jornalista Guillermo Fari\u00f1as entrou em greve de fome em sua casa, em rep\u00fadio \u00e0 morte de Orlando e pela liberta\u00e7\u00e3o de outros detentos. Novamente, a resposta do regime foi a de n\u00e3o se responsabilizar por sua poss\u00edvel morte, al\u00e9m de acus\u00e1-lo de \u201cagente dos Estados Unidos\u201d. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um programa de liberdades democr\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que era um Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico, j\u00e1 havia um intenso debate sobre Cuba na esquerda. Para a maioria das organiza\u00e7\u00f5es, a defesa da revolu\u00e7\u00e3o implicava tamb\u00e9m no apoio incondicional \u00e0 direc\u00e7\u00e3o castrista e ao seu regime. Para a corrente que hoje constitui a Liga Internacional dos Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (LIT-QI), a defesa dessas conquistas significava (assim com na ex-URSS ou na China) a realiza\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que derrotasse a burocracia e impusesse um verdadeiro regime de democracia oper\u00e1ria. Do contr\u00e1rio, a manuten\u00e7\u00e3o do regime e da burocracia castrista acabaria levando \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, como de fato ocorreu.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n<p>Naquele momento, n\u00e3o defend\u00edamos as liberdades para os burgueses ou pequeno-burgueses que buscavam restaurar o capitalismo. Exig\u00edamos democracia oper\u00e1ria, mas n\u00e3o est\u00e1vamos a favor de dar liberdades \u00e0s frac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que queriam o retorno do imperialismo ou conspiravam para derrubar o Estado oper\u00e1rio, como os \u201cgusanos\u201d (\u201cvermes\u201d) de Miami. A realidade, por\u00e9m, mudou: Cuba n\u00e3o \u00e9 mais um Estado oper\u00e1rio com um regime burocr\u00e1tico, mas um Estado capitalista governado por uma ditadura.<\/p>\n<p>Hoje, o centro de nosso programa de reivindica\u00e7\u00f5es para Cuba \u00e9 o de luta frontal contra a ditadura e pela defesa das mais amplas liberdades democr\u00e1ticas (sindicais, civis e pol\u00edticas). Todo revolucion\u00e1rio que luta contra o capitalismo e pelo poder da classe oper\u00e1ria sabe que \u00e9 necess\u00e1rio diferenciar os diferentes regimes de um Estado capitalista, como, por exemplo, uma ditadura burguesa de um regime democr\u00e1tico-burgu\u00eas. <\/p>\n<p>Frente \u00e0s ditaduras burguesas, lutamos pelas liberdades para diferentes sectores sociais. Por exemplo, na Argentina, entre 1976 e 1982, ou no Brasil, de 1964 a 1984, havia sectores burgueses opositores aos regimes ditatoriais. Naqueles momentos, qualquer militante de esquerda estava contra a repress\u00e3o desses sectores pelas ditaduras. Nessas situa\u00e7\u00f5es, lutamos pelas mais amplas liberdades democr\u00e1ticas para todas as correntes opositoras, inclu\u00eddas as burguesas, para permitir que o povo se organize e se mobilize contra esses regimes. &nbsp;<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significava nenhum compromisso com essas correntes burguesas, como o Radicalismo argentino ou o MDB brasileiro, partidos que combat\u00edamos politicamente. Nesses casos, os revolucion\u00e1rios chamavam uma ampla unidade de ac\u00e7\u00e3o, inclusive com esses sectores, para combater as ditaduras, mas sempre mantendo a mais absoluta independ\u00eancia de classe e construindo uma alternativa que apontasse para a democracia oper\u00e1ria. Essa unidade de ac\u00e7\u00e3o responde ao fato de que a classe oper\u00e1ria necessita das mais amplas liberdades democr\u00e1ticas para avan\u00e7ar em sua organiza\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No caso actual de Cuba, estamos diante de uma situa\u00e7\u00e3o semelhante, para al\u00e9m das apar\u00eancias e dos discursos. Os revolucion\u00e1rios devem lutar para conseguir as liberdades democr\u00e1ticas que facilitam a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e a luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista (no caso cubano, devamos dizer \u201cnovamente\u201d). Por isso, reivindicamos amplas liberdades democr\u00e1ticas, inclusive para os opositores burgueses e pequeno-burgueses, e repudiamos a repress\u00e3o aos dissidentes pol\u00edticos, como far\u00edamos frente a qualquer regime ditatorial burgu\u00eas latino-americano. <\/p>\n<p>Por isso, a nossa posi\u00e7\u00e3o no caso de Orlando Zapata Tamayo \u00e9 que, independentemente das posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-burguesas que provavelmente tivesse, reivindicamos sua liberdade e a dos demais presos pol\u00edticos que lutam pelos direitos humanos e civis no pa\u00eds. Ao mesmo tempo, condenamos a actua\u00e7\u00e3o do governo cubano, respons\u00e1vel por sua morte.<\/p>\n<p><strong>Defender as liberdades democr\u00e1ticas em Cuba \u00e9 a melhor forma de apresentar uma alternativa contra as manobras do imperialismo.<\/strong><\/p>\n<p>Muitas vezes, o imperialismo utiliza as campanhas de exig\u00eancia de liberdades democr\u00e1ticas para defender seus interesses pol\u00edticos e econ\u00f3micos. Em muitas ocasi\u00f5es, isso o leva a questionar ditaduras. Assim o fez, por exemplo, o ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, no final da ditadura argentina. Obama tenta vender uma imagem similar. O fato de Carter defender as liberdades democr\u00e1ticas na Argentina deveria nos levar a defender essa ditadura?<\/p>\n<p>A esquerda deve levantar mais do que nunca as bandeiras democr\u00e1ticas e da defesa dos direitos humanos em Cuba. Caso contr\u00e1rio, essa bandeira ficar\u00e1 nas m\u00e3os do imperialismo e da direita, que ganhar\u00e3o prest\u00edgio aos olhos dos trabalhadores, dos povos do mundo e do pr\u00f3prio povo cubano como os representantes da \u201cdemocracia\u201d. Se a maioria da esquerda continuar apoiando a ditadura cubana, vai facilitar a pol\u00edtica do imperialismo de identificar a esquerda e o socialismo com a falta de democracia.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo j\u00e1 se produziu em Cuba, pelas m\u00e3os do castrismo a servi\u00e7o do imperialismo europeu e canadiano. Reivindicar a actua\u00e7\u00e3o do governo cubano no caso de Orlando Zapata (e toda a ac\u00e7\u00e3o do regime) n\u00e3o significa hoje defender a \u201c\u00faltima fortaleza do socialismo\u201d, mas sim defender uma ditadura capitalista. Defend\u00ea-la n\u00e3o contra o sistema capitalista e o imperialismo, que j\u00e1 voltaram \u00e0 ilha, mas contra as necessidades dos trabalhadores e do povo cubano. A op\u00e7\u00e3o para Cuba \u00e9 construir uma alternativa oper\u00e1ria independente que enfrente a ditadura castrista e o imperialismo e que lute por uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte do preso cubano Orlando Zapata Tamayo, logo ap\u00f3s uma longa greve de fome, tem provocado uma grande pol\u00e9mica internacional. \u00c9 que as circunst\u00e2ncias do caso e a sua repercuss\u00e3o internacional t\u00eam demonstrado de forma chocante a actua\u00e7\u00e3o do governo cubano e qual deve ser a atitude das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda em casos como este. O debate obriga-nos a aprofundar o tema e leva-nos a responder a pergunta sobre o que \u00e9 actualmente o Estado cubano.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":198,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-199","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-correio-internacional"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/raul_castro_cuba.jpg?fit=290%2C366","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/198"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}