{"id":1824,"date":"2015-03-06T15:40:46","date_gmt":"2015-03-06T14:40:46","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2015\/03\/06\/a-violencia-sobre-as-mulheres-tem-muitas-faces\/"},"modified":"2015-03-06T15:40:46","modified_gmt":"2015-03-06T14:40:46","slug":"a-violencia-sobre-as-mulheres-tem-muitas-faces","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2015\/03\/06\/a-violencia-sobre-as-mulheres-tem-muitas-faces\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia sobre as mulheres tem muitas faces"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 8 de Mar\u00e7o de 1857, 129 oper\u00e1rias de uma f\u00e1brica de tecidos, em Nova Iorque, morreram carbonizadas pelas m\u00e3os do seu patr\u00e3o! O motivo? Fizeram greve por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho: redu\u00e7\u00e3o da carga di\u00e1ria de trabalho para dez horas (trabalhavam 16 horas) e equipara\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios com os homens (recebiam um ter\u00e7o do sal\u00e1rio de um homem)!<\/p>\n<p>Hoje as mulheres morrem se n\u00e3o lutarem!<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Os casos de ass\u00e9dio moral e sexual no trabalho, abuso sexual, maus tratos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos e homic\u00eddios s\u00e3o a realidade de muitas mulheres em Portugal e no mundo. A viol\u00eancia tem muitas faces e demonstra-se de v\u00e1rias formas. Comemorar o 8 de Mar\u00e7o \u00e9 tamb\u00e9m dizer basta de viol\u00eancia contra as Mulheres!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os estudos<\/strong><\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da <strong>Ag\u00eancia dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia, publicado em meados de 2014,<\/strong> apresentou os resultados do maior inqu\u00e9rito alguma vez realizado a n\u00edvel mundial sobre a viol\u00eancia contra as mulheres, revelando a amplitude dos abusos que as mulheres sofrem em casa, no trabalho, em p\u00fablico e na Internet. As conclus\u00f5es s\u00e3o terrificas: 1 em cada 3 mulheres (33%) sofreu de agress\u00f5es f\u00edsicas ou sexuais, ao longo da vida; 13 milh\u00f5es de mulheres continuam a ser agredidas no tempo presente; 5% das mulheres declaram ter sido violadas; 20% das mulheres declaram ter sido v\u00edtimas de <em>stalking<\/em>; 43% das mulheres foram v\u00edtimas de viol\u00eancia psicol\u00f3gica; 35% das v\u00edtimas foram sexualmente abusadas antes dos 15 anos de idade.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade indicam que 30% das mulheres no mundo sofrem agress\u00f5es e abusos de seus maridos ou namorados, e sofrem problemas de sa\u00fade comuns que incluem ossos partidos, hematomas, contus\u00f5es, complica\u00e7\u00f5es na gravidez, depress\u00e3o e outras doen\u00e7as mentais, o que representa, \u201cum problema de sa\u00fade global com propor\u00e7\u00f5es epid\u00eamicas\u201d.<\/p>\n<p>Mas a viol\u00eancia manifesta-se de muitas formas. N\u00e3o h\u00e1 lugar no mundo onde as mulheres n\u00e3o sejam vitimas de viol\u00eancia, nem passa um dia sem que uma mulher seja agredida ou violada.<\/p>\n<p>As maiores v\u00edtimas s\u00e3o as mulheres jovens, trabalhadoras e pobres, incluindo crian\u00e7as pequenas. Agress\u00f5es verbais, humilha\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as fazem parte do quotidiano de muitas mulheres e em muitos casos \u00e9 dentro de casa que as mulheres mais sofrem viol\u00eancia. \u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia f\u00edsica e viol\u00eancia psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia no trabalho<\/strong><\/p>\n<p>O ritmo fren\u00e9tico do dia de trabalho, seja numa linha de produ\u00e7\u00e3o, ao telefone ou atr\u00e1s de uma secret\u00e1ria, a press\u00e3o das chefias, o excesso de horas extras e os baixos sal\u00e1rios criam condi\u00e7\u00f5es insuport\u00e1veis no trabalho. Parte da desqualifica\u00e7\u00e3o das mulheres passa por dar-lhes caracter\u00edsticas pejorativas e inferiores, como se fossem explicadas pelo simples facto de ser mulher; uma das formas mais comuns, e sub-rept\u00edcia,&nbsp; \u00e9 a \u201cengra\u00e7ada\u201d viol\u00eancia psicol\u00f3gica propagada por meio de piada. A press\u00e3o \u00e9 imensa: seja para n\u00e3o engravidar, para n\u00e3o amamentar, para n\u00e3o sair a horas ou porque se vai demasiadas vezes \u00e0 casa de banho! O ass\u00e9dio moral \u00e9 muito usual para pressionar o\/as trabalhadore\/as e al\u00e9m disso inibe a organiza\u00e7\u00e3o do\/as mesmo\/as.<\/p>\n<p>O ass\u00e9dio sexual tamb\u00e9m faz parte das rela\u00e7\u00f5es de trabalho sendo as mulheres as maiores v\u00edtimas. Na maioria dos casos a culpa \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 pr\u00f3pria mulher, seja por usar saia curta, decote ou por sorrir, quando na verdade os chefes aproveitam-se da sua posi\u00e7\u00e3o para assediar as mulheres trabalhadoras.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia em casa<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 famoso o ditado \u201centre marido e mulher n\u00e3o se mete a colher\u201d, pois o que acontece \u00e9 que as mulheres morrem, na maioria dos casos, nas suas pr\u00f3prias casas e v\u00edtimas dos seus pr\u00f3prios companheiros. Em 2014 morreram em Portugal 40 mulheres em situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia dom\u00e9stica, e 46 n\u00e3o morreram por sorte, tendo o homic\u00eddio ficado na forma tentada.<\/p>\n<p>Em geral, eles matam motivados pelo ci\u00fame ou por n\u00e3o aceitarem o fim do relacionamento. Por qualquer motivo torpe, os espancamentos s\u00e3o di\u00e1rios, as mulheres s\u00e3o amarradas, queimadas, asfixiadas, estranguladas e assassinadas. A tortura psicol\u00f3gica&nbsp; e as agress\u00f5es f\u00edsicas est\u00e3o longe dos jornais, mas presente no quotidiano. A naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia diminui, deteriora e humilha as mulheres! Mas estas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas v\u00edtimas: foram 83 os filhos das v\u00edtimas assassinadas e das tentativas de homic\u00eddio ocorridas em 2014, sendo que foram <strong>24 os filhos destas mulheres que&nbsp; assistiram aos crimes cometidos contra as suas m\u00e3es! <\/strong><\/p>\n<p>Os motivos que fazem com que as mulheres n\u00e3o denunciem o agressor s\u00e3o, al\u00e9m da sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o, a maioria das vezes condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, que se agrava com a preocupa\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o dos filhos e o medo de ser morta.&nbsp; A maioria das v\u00edtimas, em m\u00e9dia, s\u00f3 apresenta queixa passado 13 anos de continuados maus tratos. Por isso, a cria\u00e7\u00e3o e prolifera\u00e7\u00e3o de casas abrigo s\u00e3o determinantes para a protec\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia do Estado<\/strong><\/p>\n<p>Por todo o mundo as mulheres continuam a receber menos sal\u00e1rio que os homens, continuam a ser as principais respons\u00e1veis pela lide dom\u00e9stica e as principais cuidadoras dos filhos e av\u00f4s.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de austeridade, que implica a cont\u00ednua diminui\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida do\/as trabalhadore\/as, com os cortes nos sal\u00e1rios, subs\u00eddios e pens\u00f5es, aumento do desemprego, destrui\u00e7\u00e3o das infra-estruturas p\u00fablicas ao n\u00edvel da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a, aumento das taxas e dos pre\u00e7os, torna as mulheres mais vulner\u00e1veis e duplamente prejudicadas.<\/p>\n<p>Com a aus\u00eancia de pol\u00edticas para assegurar melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para as trabalhadoras, a aus\u00eancia de infraestruturas estatais que permitam libertar a mulher destas tarefas, o problema continuar\u00e1 a perpetuar-se, pois vai dando jeito a governos e patr\u00f5es! O governo n\u00e3o dedica no or\u00e7amento de estado verbas para serem aplicadas em programas de combate \u00e0 viol\u00eancia, ao inv\u00e9s continua a austeridade em nome do pagamento da d\u00edvida p\u00fablica que vai directo para o bolso dos banqueiros.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia do estado revela-se na aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas para que as mulheres possam avan\u00e7ar na sua luta contra a opress\u00e3o. Medidas simples ajudariam a mulher a eliminar a famosa segunda jornada de trabalho, como o aumento do n\u00famero creches p\u00fablicas, de lares, a cria\u00e7\u00e3o de restaurantes e lavandarias p\u00fablicas. A valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e a cria\u00e7\u00e3o de empregos, para que as mulheres pudessem trabalhar e n\u00e3o serem dependentes economicamente de seus maridos, al\u00e9m de um sistema efectivo de atendimento e acolhimento \u00e0s v\u00edtimas de agress\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, bem como a cria\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de atendimento especializado \u00e0 viol\u00eancia&nbsp; dom\u00e9stica nas esquadras de pol\u00edcia. S\u00e3o respostas simples para ajudar a minorar o problema!<\/p>\n<p>A verdadeira face da viol\u00eancia contra a mulher n\u00e3o est\u00e1 no comportamento individual de cada ser mas na decis\u00e3o consciente em manter este estado de coisas por mero benef\u00edcio econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>Que neste dia, \u00e0 escala internacional, se realizem actos, debates e actividades que impulsionem a defesa das mulheres contra qualquer forma de opress\u00e3o e viol\u00eancia, exigindo medidas concretas para combater o flagelo. Cabe aos trabalhadores, homens e mulheres,&nbsp; travar a luta contra a viol\u00eancia, exigindo a tomada de medidas e mecanismos de protec\u00e7\u00e3o, mas principalmente condi\u00e7\u00f5es para que as mulheres se possam libertar de sua condi\u00e7\u00e3o de oprimida.<\/p>\n<p><strong><em><span style=\"font-size: 10pt;\">Raquel Oliveira<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=1017;dia-internacional-mulher-trabalhadora-8-marco-2015&amp;catid=141&amp;Itemid=604\"><span style=\"font-family: georgia,palatino; color: #692587;\"><span style=\"font-size: 14pt;\">Voltar ao Especial Dia Internacional da Mulher Trabalhadora &#8211; 8 Mar\u00e7o 2015 &gt;<\/span><\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 8 de Mar\u00e7o de 1857, 129 oper\u00e1rias de uma f\u00e1brica de tecidos, em Nova Iorque, morreram carbonizadas pelas m\u00e3os do seu patr\u00e3o! O motivo? 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