{"id":1808,"date":"2015-02-24T14:18:40","date_gmt":"2015-02-24T13:18:40","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2015\/02\/24\/syriza-partido-e-politica-internacional\/"},"modified":"2015-02-24T14:18:40","modified_gmt":"2015-02-24T13:18:40","slug":"syriza-partido-e-politica-internacional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2015\/02\/24\/syriza-partido-e-politica-internacional\/","title":{"rendered":"Syriza: partido e pol\u00edtica internacional"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>A imprensa europeia estava em choque. Yanis Varoufakis, ministro das finan\u00e7as do governo Syriza, apareceu sem gravata em suas reuni\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>A camisa fora da cal\u00e7a, segundo o jornal alem\u00e3o Die Welt, que o descreveu como um \u201ccomunista libert\u00e1rio\u201d, indicaria a \u201cagressividade\u201d de algu\u00e9m \u201cprocurando uma briga de rua\u201d. Todos na Uni\u00e3o Europeia querem saber se a Gr\u00e9cia realmente subir\u00e1 ao ringue contra a Alemanha. Em Paris, Londres e Roma, Varoufakis evitou trocar socos, estava disposto a ceder diversos pontos de seu programa. Para seu azar, deparou-se em Berlin com alem\u00e3es que queriam vit\u00f3ria por W.O. Ap\u00f3s mais de uma semana de viagem, o ministro, uma esp\u00e9cie de novo pop-star da pol\u00edtica grega, elucidou a conjuntura internacional e a estrat\u00e9gia a ser abordada pelo seu partido.\u00a0<em>[i]<\/em> (CONNOLLY, 2015)<\/p>\n<p>Atenas enfrenta uma conjuntura polarizada; a Troika aumentou na intransig\u00eancia. Pior que no plano de \u201cresgate\u201d \u00e0 Gr\u00e9cia de 2012, em que o governo norte americano mediou com os europeus\u00a0uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0 crise, nos \u00faltimos dois anos os alem\u00e3es e o norte da Europa tem agindo de forma independente e mais agressiva. Ao longo da crise do Chipre <em>[ii]<\/em>, em mar\u00e7o de 2013, \u00a0exigiram confiscar o dinheiro de todos cidad\u00e3os do pa\u00eds. Depois, despuseram-se, por caso de desobedi\u00eancia, empurrar a ilha de origem grega\u00a0para fora do Euro.\u00b9<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses do norte da moeda unica (Alemanha, Finl\u00e2ndia, \u00c1ustria e Holanda) aumenta a oposi\u00e7\u00e3o popular aos \u201cplanos de resgate\u201d da Troika. N\u00e3o em solidariedade aos pa\u00edses do sul, mas em oposi\u00e7\u00e3o a eles. A direita populista, que cresce exponencialmente na regi\u00e3o, culpa a \u201cpregui\u00e7a mediterr\u00e2nea\u201d por custos excessivos \u00e1s suas economias nacionais. A depender deles, Gr\u00e9cia, Espanha, Portugal, Irlanda, It\u00e1lia e agora, o Chipre, deveriam ser expulsos do Euro. Exemplo maior disto \u00e9 o crescimento da extrema direita em pa\u00edses como a Finl\u00e2ndia, historicamente conhecidos pela tradi\u00e7\u00e3o socialdemocrata.<\/p>\n<p><strong>Populismo do norte<\/strong><\/p>\n<p>Racista, homof\u00f3bico e socialmente conservador, o partido \u201cos finlandeses\u201d \u00e9 a prova maior do sucesso eleitoral do populismo anti-Euro no norte europeu. Nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2007, tiveram 4% dos votos, quatro anos depois, sua vota\u00e7\u00e3o multiplicou-se em quase cinco vezes, superando os 19%. Era uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica marginal; tornou-se a terceira for\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds. Desde ent\u00e3o, a ruptura com o Euro por conta do excesso de \u201csacrif\u00edcios\u201d exigidos do norte da Europa \u00e9 tema comum no parlamento.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o do Syriza, \u201cos finlandeses\u201d moveram-se para tentar derrubar o primeiro ministro da direita moderada por conta de sua suposta leni\u00eancia pro-Atenas. \u00a0A agencia de not\u00edcias financeiras Bloomberg, em uma mat\u00e9ria intitulada \u201cGr\u00e9cia sequestra novamente a pol\u00edtica finlandesa\u201d, narra da seguinte forma o ocorrido<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cA Gr\u00e9cia foi novamente usada como porrete em uma tentativa do partido anti-resgate \u2018Os finlandeses\u2019 derrubar o governo por meio de um voto de confian\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>A coaliz\u00e3o do Primeiro Ministro Alexander Stubb saiu-se vitoriosa com apoio de 97 legisladores. A oposi\u00e7\u00e3o conseguiu 81 votos e 9 absten\u00e7\u00f5es. 12 deputados n\u00e3o compareceram \u00e0 vota\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2018Os finlandeses\u2019 exigiram do governo respostas sobre seus compromissos com a Gr\u00e9cia e se o governo finland\u00eas estava disposto a romper com a zona do Euro. Stubb defendeu as pol\u00edticas de \u201cresgate\u201d na quarta-feira [5\/02\/2015], dizendo que atravessaria a crise para salvar a moeda \u00fanica.\u201d (VIITA, POHJANPALO 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para proteger-se do voto anti-Gr\u00e9cia da direita populista, o partido conservador de Stubb teve de se apoiar nos socialdemocratas e nos verdes. Estas alian\u00e7as, existentes por toda a Europa, comp\u00f5em aquilo que o escritor Tariq Ali descreveu com a pol\u00edtica do \u201cextremo-centro\u201d. Fomentado pela ades\u00e3o ao neoliberalismo pelo partido trabalhista brit\u00e2nico e o partido socialdemocrata alem\u00e3o, o extremo-centro \u00e9 a fus\u00e3o social, ideologia e partid\u00e1ria da antiga centro-direita e centro-esquerda europeia. Com a crise do Euro e a polariza\u00e7\u00e3o da sociedade, o v\u00e1cuo pol\u00edtico deixado pelos partidos tradicionais vem sendo ocupado por novos atores. (ALI, 2011)<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do extremo-centro neoliberal, \u201cOs Finlandeses\u201d defendem o aprofundamento do estado de bem estar social e uma pol\u00edtica econ\u00f4mica intervencionista. Ao mesmo tampo, querem expulsar os imigrantes da Finl\u00e2ndia, difundem a islamofobia e consideram a Troika excessivamente simp\u00e1tica \u00e0 Gr\u00e9cia. A Alemanha, cl\u00e1ssico basti\u00e3o do extremo-centro, vem assistindo surgir um fen\u00f4meno similar a \u201cos finlandeses\u201d. Eles amea\u00e7am a hegemonia hist\u00f3rica do partido de Angela Merkel, a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Crist\u00e3 (CDU) sobre a direita do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Merkel e a direita moderada<\/strong><\/p>\n<p>Produto da ocupa\u00e7\u00e3o militar norte-americana, que governou diretamente o pa\u00eds depois da derrota o nazismo em 1945 at\u00e9 1949, a Rep\u00fablica Federativa Alem\u00e3 possui um sistema pol\u00edtico particularmente fechado <em>[iii]<\/em>. A transforma\u00e7\u00e3o de metade da Alemanha e parte de sua capital em um Estado oper\u00e1rio burocraticamente deformado, a presen\u00e7a militar russa ao seu entorno e a amea\u00e7a do surgimento de um movimento trabalhista simp\u00e1tico ao leste socialista for\u00e7ou a burguesia alem\u00e3 a uma alian\u00e7a umbilical com Washington. Para garantir a pol\u00edtica de um regime est\u00e1vel e pr\u00f3-americano, criou-se a CDU.<\/p>\n<p>Dentro da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Crist\u00e3 cabia de tudo: liberais-conservadores, nacionalistas, populistas, pregadores cat\u00f3licos ou protestantes, representantes da grande, m\u00e9dia e pequena burguesia, e, \u00e9 claro, ex-nazistas e seus aliados. Kornad Adenauer, idealizador da CDU e o primeiro chefe de Estado alem\u00e3o, foi preso e perseguido por Hitler. Isto em momento algum impediu-o de colocar ex-nazistas, em alguns casos atrelados \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do holocausto, no topo de seu governo ou partido.<\/p>\n<p>Apesar de controlado por liberal-conservadores, sempre existiu no CDU uma corrente populista de direita. Dirigiram, em alguns momentos, aparatos regionais do partido. Mas sempre sob tutela rigorosa dos moderados. Para os americanos, que mantiveram bases militares no pa\u00eds, nenhum nacionalismo alem\u00e3o poderia existir de forma independente \u00e0 democracia crist\u00e3. Pequenos grupos, muitas vezes de inclina\u00e7\u00e3o neo-nazista, sempre existiram na margem do CDU, mas organizados de forma espor\u00e1dica e pouco amea\u00e7adora. A clausula de barreira de 5% para o ingresso ao parlamento protegeu a democracia crist\u00e3 de disputas legislativas com aventureiros de direita.<\/p>\n<p>Talvez por conta disto \u00a0Angela Merkel permitiu que seu governo a flertasse com o reformismo. Segundo a World Pol\u00edtics Review<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cPara o horror de alguns em seu partido, sua postura reformadora incluiu ades\u00e3o a muitas bandeiras do Partido Social Democrata alem\u00e3o e at\u00e9 do partido verde, que fica mais a sua esquerda. Merkel, por exemplo, abriu o n\u00facleo da fam\u00edlia tradicional \u2013 desde sempre o modelo normativo do CDU \u2013 para fam\u00edlias n\u00e3o-convencionais formadas por m\u00e3es solteiras, pais que trabalham tempo integral, gays e lesbicas. Sob Merkel, instituiu-se um sal\u00e1rio m\u00ednimo e cota para mulheres na dire\u00e7\u00e3o das empresas, tetos em alugu\u00e9is e a redu\u00e7\u00e3o da aposentadoria de 65 para 63 anos \u2013 todos projetos do partido socialdemocrata\u201d. (HOCKENOS, 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Seu governo, que desde o final de 2013 inclui os verdes e os socialdemocratas, expressa a hegemonia do \u201cextremo-centro\u201d europeu. Apesar de ter encabe\u00e7ado algumas reformas, a primeira ministra segue sendo uma firme adepta do neoliberalismo e do imperialismo norte-americano. Em um artigo redigido antes da guerra no Iraque, por exemplo, criticou a postura relativamente neutra de seu governo, defendendo um alinhamento mais pr\u00f3ximo a Washington. (PAKER, 2014)<\/p>\n<p>Mais do que qualquer pol\u00edtica de aproxima\u00e7\u00e3o ao centro, o que mais vem gerando desconforto dentro do CDU e da direita alem\u00e3 em geral \u00e9 a quest\u00e3o dos \u201cplanos de resgate\u201d aos pa\u00edses do sul. Apesar de sua identidade pro-Euro, h\u00e1 no partido diferentes linhas sobre a pol\u00edtica de ades\u00e3o \u00e0 moeda \u00fanica. Apesar da natureza disciplinada e hier\u00e1rquica do CDU, o agravamento da crise grega exp\u00f4s suas fraturas<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cEm 2010, 62% dos alem\u00e3es se opuseram a programas de ajuda financeira a pa\u00edses endividados. Em 2012, diversos crist\u00e3o-democratas se recusaram a votar a favor do \u2018resgate\u2019 de 175 bilh\u00f5es de euros \u00e0 Gr\u00e9cia, tendo o governo que depender do voto da oposi\u00e7\u00e3o formada por Verdes e Socialdemocratas para aprovar a medida. Um dos ministros de Merkel \u2013 do CSU bavariano, [partido-irm\u00e3o [iv] da democracia crist\u00e3 no Estado-Livre da Bavaria] que normalmente adota as pol\u00edticas da direita do CDU \u2013 advogou expulsar a Gr\u00e9cia do Euro.\u201d (HOCKENOS, 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Crescimento do euroceticismo alem\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A crise grega fez a dire\u00e7\u00e3o do CDU deparar-se com uma realidade; a conjuntura que permitiu o monop\u00f3lio do partido e sua ala moderada sob a direita alem\u00e3 n\u00e3o existe mais. O desmantelamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a reintrodu\u00e7\u00e3o do capitalismo na Alemanha oriental reduziu a centralidade da media\u00e7\u00e3o feita pelo CDU entre a burguesia nacional e os Estados Unidos. Ela tamb\u00e9m eliminou o \u00fanico elemento ideol\u00f3gico unificador do CDU: o anti-comunismo. Alimentando-se deste ambiente f\u00e9rtil, um ex-militante do partido, Bernd Luke, rompeu com o CDU ap\u00f3s a crise grega e criou a Alternativa para Alemanha (AfD)<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cA AfD surgiu em 2013 como uma voz nacionalista contr\u00e1ria \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na zona da moeda \u00fanica e o papel desempenhado por Berlin no \u2018resgate\u2019 dos pa\u00edses endividados do Euro. Seu porta-voz reivindica que a Alemanha est\u00e1 sendo manipulada e estaria melhor por si s\u00f3 \u2013 ou talvez em uma uni\u00e3o monet\u00e1ria com os outros pa\u00edses do norte.\u201d(HOCKENOS, 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando o rec\u00e9m-fundado AfD disputou as elei\u00e7\u00f5es de 2013, baseado exclusivamente numa plataforma anti-Euro, ele conseguiu 4.7% dos votos, faltando-lhe 0.3% para entrar no parlamento. Dois anos depois, durante as elei\u00e7\u00f5es europeias de 2014, o partido desenvolveu mais a fundo seu programa. Defendeu a energia nucelar, combateu o casamento igualit\u00e1rio e surfou na islamofobia; sua vota\u00e7\u00e3o superou 7%.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es por detr\u00e1s do sucesso do AfD tem sido sua capacidade de adotar um discurso com contornos democr\u00e1ticos na cr\u00edtica ao Euro. Ao contr\u00e1rio da Fran\u00e7a\u00b2, nunca houve um referendo na Alemanha sobre o tema. Para Luke, procedimentos como estes fazem da AfD um polo de resist\u00eancia democr\u00e1tica ao Euro, assemelhando-o aos que outrora resistiram ao nazismo<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cO AfD tem se provado particularmente capaz, por enquanto, de se colocar a direita do CDU sem cair no p\u00e2ntano do neo-nazismo e dos populistas de cervejaria. Ele tem conquistado eleitores da direita assim como da esquerda, mas seu eixo de aglutina\u00e7\u00e3o obvio s\u00e3o os conservadores desiludidos, o nacionalismo alem\u00e3o e a extrema direita \u00f3rf\u00e3.\u201d (HOCKENOS, 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A din\u00e2mica pol\u00edtica interna nos pa\u00edses do norte do Euro caminha em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0s do sul, do qual a vit\u00f3ria eleitoral do Syriza \u00e9 a melhor express\u00e3o. Houve, dentro deste cen\u00e1rio, esparsas porem importantes manifesta\u00e7\u00e3o de solidariedade alem\u00e3 com a Gr\u00e9cia, como um abaixo-assinado organizado pela Confedera\u00e7\u00e3o Sindical da Alemanha e o IG Metall (duas das principais entidades sindicais do pa\u00eds) al\u00e9m de alguns parlamentares socialdemocratas. As mobiliza\u00e7\u00f5es anti-Troika organizadas por Die Linke, principal partido antiausteridade do pa\u00eds, tamb\u00e9m s\u00e3o dignas de men\u00e7\u00e3o, mas o espirito geral da pol\u00edtica em Berlin \u00e9 antigrego. (HOFMANN; ET AL, 2005)<\/p>\n<p>A prov\u00e1vel elei\u00e7\u00e3o da AfD ao parlamento alem\u00e3o em 2017, apesar de hist\u00f3rica, n\u00e3o far\u00e1 com que a CDU deixe de representar o grosso da direita nacional. Ela indica, por\u00e9m, o surgimento de um importante centro de press\u00e3o parlamentar por pol\u00edticas ainda mais extremas na Troika. Poss\u00edvel indicativo deste endurecimento foi a crise cipriota de 2013, em que pela primeira vez um pa\u00eds foi quase expulso da zona do euro.<\/p>\n<p><strong>O caso do Chipre<\/strong><\/p>\n<p>A crise cipriota revela uma intensifica\u00e7\u00e3o neoliberal nas demandas da Troika em conte\u00fado e na forma. At\u00e9 2013, o centro das exig\u00eancias associadas aos empr\u00e9stimos eram \u201creestruturar\u201d as economias: privatiza\u00e7\u00f5es, demiss\u00f5es de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, ataques a direitos trabalhistas e cortes em gastos sociais. O que divide o programa de austeridade cipriota dos anteriores foi a introdu\u00e7\u00e3o do mecanismo de \u201cauto-resgate\u201d, uma reestrutura\u00e7\u00e3o do sistema financeiro feito diretamente com o dinheiro da popula\u00e7\u00e3o<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cA proposta de \u2018resgate\u2019 inclu\u00eda uma \u2018taxa\u2019 \u00fanica de 6.75% sobre todas as contas banc\u00e1rias com menos de 100.000 euros [na \u00e9poca, o equivalente a 265.000 reais], e 9.9% de \u2018taxa\u2019 sobre as contas com mais de 100.000 euros. O assalto a luz do dia geraria 5.8 bilh\u00f5es. Como contrapartida, a troika inseriria 10 bilh\u00f5es de euros nos bancos cipriotas. (OVENDEN, 2013)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o por acaso, quando a not\u00edcia da \u201ctaxa \u00fanica\u201d espalhou-se pelo Chipre, o caos se implantou. Enquanto pequenos protestos contra o governo eclodiram por toda parte, a massa da popula\u00e7\u00e3o correu aos bancos para tentar sacar seu dinheiro. Para impedir um colapso do sistema, foi declarada uma semana de feriado banc\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos protestos de rua, a burguesia cipriota se op\u00f4s ao pacto. Para\u00edso fiscal e centro de lavagem de dinheiro da oligarquia russa, o pa\u00eds precisava proteger a estabilidade de seu sistema banc\u00e1rio. Sob press\u00e3o de manifestantes que cercavam o Parlamento e imaginando poder contar com o apoio pol\u00edtico e econ\u00f4mico de Moscou, os deputados do Chipre tentaram resistir \u00e0 Troika. Segundo o socialista ingl\u00eas Kevin Ovenden<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cN\u00e3o apenas rejeitou-se o acordo. N\u00e3o houve um \u00fanico membro do parlamento que votou a favor dele. 36 deputados votaram contra, e os 19 do partido do presidente se abstiveram.<\/em><\/p>\n<p><em>O voto cipriota foi um divisor de \u00e1guas. Pela primeira vez em tr\u00eas anos de crise banc\u00e1ria e da d\u00edvida soberana na Europa, uma institui\u00e7\u00e3o governamental votou pelo n\u00e3o. (\u2026) Al\u00e9m da massa da popula\u00e7\u00e3o, uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 o parlamento \u2013 rejeitou a Troika. Esta pequena crian\u00e7a \u2013 o Chipre juntou-se a Uni\u00e3o Europeia em 2004 e a moeda \u00fanica em 2008; ele representa apenas 0.2% da economia da UE \u2013 avisou aos outros que o imperador est\u00e1 nu.\u201d (OVENDEN, 2013)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Frente a decis\u00e3o do parlamento, sob comando da Alemanha, deu-se um ultimato ao Chipre. O Banco Central Europeu (BCE) anunciou que caso o pa\u00eds n\u00e3o entrasse em acordo com a Troika, seria cortado seu acesso \u00e0 moeda \u00fanica europeia. O BCE colocou o prazo de quatro dias uteis para expulsar o pa\u00eds do Euro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ouvir de Vladmir Putin que a R\u00fassia n\u00e3o lhe ajudaria, o Chipre recuou. Dentro do prazo imposto pelo BCE, renegociou um plano-B. Segundo o jornal\u00a0<em>The Guardian<\/em>, \u201cO novo programa poupa os dep\u00f3sitos banc\u00e1rios abaixo de 100.000 euros, ao contr\u00e1rio da proposta da semana passada, que gerou indigna\u00e7\u00e3o com a ideia de taxar 6.75% de todos os dep\u00f3sitos\u201d. O novo programa restringiu-se aos dois principais bancos do pa\u00eds, Banco Laiki e Banco do Chipre. As contas com mais de 100.000 euros no Banco do Chipre perderam cerca de 30% de seu valor, as do Banco Laiki tiveram mais azar, viraram p\u00f3 [v]. Apesar de derrotada a proposta mais extrema, a taxa geral de 6.75% sobre todas as contas, abriu-se um perigoso precedente na zona do Euro<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cCom a proposta inicial de taxar todos os dep\u00f3sitos em banco, os administradores p\u00fablicos deixaram claro que, dependendo da circunst\u00e2ncia, estavam dispostos a tomar aquele dinheiro. Mesmo n\u00e3o tendo feito-o, isto provavelmente sacudir\u00e1 a confian\u00e7a nos bancos caso a crise se acentue novamente em outros pa\u00edses, como Espanha ou It\u00e1lia.\u201d (OSBORNE, MOULDS 2013)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>O impasse grego<\/strong><\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o da Troika no plano de resgate ao Chipre, assim como o crescimento do euroceticismo no norte europeu, ajudam a explicar a dificuldade enfrentada pelo ministro das finan\u00e7as grego em sua viagem pela Europa. O programa do Syriza, de permanecer no Euro e ao mesmo tempo renegociar a d\u00edvida, ser\u00e1 de dif\u00edcil aplica\u00e7\u00e3o. Segundo Ilias Milonas, dirigente da esquerda do partido de Tsipras<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cNo tema da d\u00edvida nacional, h\u00e1 uma ideia consolidada na lideran\u00e7a do Syriza de que a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o expulsar\u00e1 a Gr\u00e9cia da zona do Euro. Esta ilus\u00e3o foi provada irreal no caso do Chipre \u2013 amea\u00e7aram o governo cipriota de que caso n\u00e3o aceitassem seus termos o pa\u00eds seria expulso da zona do Euro, mesmo se o parlamento do Chipre apoiasse a posi\u00e7\u00e3o do governo. (\u2026) [por isto] temos colocado diversas vezes a necessidade de um Plano B caso a Gr\u00e9cia seja empurrada para fora da moeda \u00fanica.\u201d (MILONAS, 2014)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do Syriza, porem, evita a discuss\u00e3o sobre um eventual \u201cplano B\u201d, em outras palavras, o retorno ao Drachma. Argumentam que se elegeram propondo a renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida com a manuten\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia no Euro. Sustentam-se em dados como os da \u00faltima pesquisa da Pew Research Center, ocorrida em meados de 2014, que revelam que 69% da popula\u00e7\u00e3o grega quer permanecer na moeda \u00fanica europeia. (PEW, 2014)<\/p>\n<p>Para superar este impasse o Syriza tem buscado construir um arco de alian\u00e7as favor\u00e1veis \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o para pressionar os alem\u00e3es. O recente tour regional de Yannis Varoufakis, que al\u00e9m da Alemanha incluiu Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Reio Unido, expressou uma tentativa do governo de encontrar apoio nas principais potencias da Europa ocidental para pressionar os pa\u00edses norte. Logo ap\u00f3s sua viagem, Varoufakis reuniu-se em Atenas com Daleep Singh, o representante especial para Europa do minist\u00e9rio das finan\u00e7as norte-americano. (SPIEGEL DONNAN 2015)<\/p>\n<p><strong>A estrat\u00e9gia internacional do Syriza<\/strong><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de alian\u00e7a com os Estados Unidos est\u00e1 expressa, entre outros lugares, em um artigo redigido pelo pr\u00f3prio Varoufakis e publicado no\u00a0<em>New York Times<\/em> um ano e meio antes de sua nomea\u00e7\u00e3o a ministro da economia<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cSe ele [Tsipras] vencer, n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma mudan\u00e7a vital para os Estados Unidos. (\u2026) o problema da Gr\u00e9cia hoje \u00e9 com a Europa, e o Sr. Tsipras n\u00e3o quer comprar uma briga com Washington.<\/em><\/p>\n<p><em>O setor financeiro global enxergar\u00e1 uma vit\u00f3ria do Syriza com abomina\u00e7\u00e3o. Mas os bancos e fundos de investimento sabem que a maior parte da d\u00edvida grega est\u00e1 sob posse dos contribuintes europeus e o Banco Central Europeu, e o que sobrou est\u00e1 sendo arrebatado por investidores porque eles sabem que ser\u00e3o pagos. A Grande Finan\u00e7a se preocupa com o que pode ocorrer em outros lugares caso um partido de esquerda ven\u00e7a na Gr\u00e9cia. Este instinto \u00e9 natural para banqueiros. Mas para o governo norte-americano adotar uma posi\u00e7\u00e3o de medo induzido seria estrategicamente m\u00edope.\u201d (GALBRAITH; VAROUFAKIS, 2013)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A tentativa de buscar nos Estados Unidos um poss\u00edvel aliado estrat\u00e9gico, por\u00e9m, \u00e9 pol\u00eamica. O artigo de Varoufakis no\u00a0<em>New York Times<\/em>, por exemplo, afirma que \u201co Syriza n\u00e3o pretende deixar a OTAN ou fechar as bases militares norte-americanas\u201d. Segundo Stathis Kouvelakis, membro da ala esquerda do partido<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p style=\"margin-top: 0px; border: 0px; font-weight: inherit; font-style: inherit; font-family: inherit; vertical-align: baseline;\"><em>\u201cAcredito que a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 OTAN est\u00e1 no c\u00f3digo gen\u00e9tico da esquerda grega radical. Por\u00e9m, desde o in\u00edcio da crise, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 troika vem superando a tudo. Existem at\u00e9 aqueles, mesmo na esquerda, que veem os Estados Unidos sob Obama como mais benevolente que a Alemanha de Merkel. (\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>Eu fundamentalmente discordo disto, mas preciso reconhecer que, de certa forma, a percep\u00e7\u00e3o geral \u00e9 que as contradi\u00e7\u00f5es principais existem dentro da Europa deslocaram a quest\u00e3o do imperialismo norte-americano.\u201d (BUDGEN, KOUVELAKIS; 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A pol\u00edtica internacional do Syriza, porem, n\u00e3o tem se resumido apenas a uma busca de equil\u00edbrio interimperialista. \u00a0Segundo o jornal Londrino\u00a0<em>Financial Times<\/em>, a escolha do roteiro das viagens de Varoufakis revelam uma tens\u00e3o entre o Syriza e os governos pr\u00f3-austeridade do sul<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cA aus\u00eancia da Espanha [em seu roteiro] \u00e9 not\u00e1vel porque ela sublinha como a crise na zona do euro girou a geografia pol\u00edtica da Europa de ponta-cabe\u00e7a: quando o tema \u00e9 ajuda a Gr\u00e9cia, n\u00e3o haver\u00e1 tal coisa como solidariedade sulista ou patroc\u00ednio perif\u00e9rico.<\/em><\/p>\n<p><em>It\u00e1lia e Fran\u00e7a podem enxergar benef\u00edcios ao se relacionar com o novo governo grego, mesmo que s\u00f3 para colocar press\u00e3o sobre os alem\u00e3es em uma disputa ampla pelos rumos da pol\u00edtica econ\u00f4mica europeia. Mas a Espanha tem mais raz\u00f5es que os outros ao reivindicar uma linha dura contra Atenas, assim como a Irlanda e Portugal.<\/em><\/p>\n<p><em>Visto de Madrid, a fronteira que separa a zona do euro n\u00e3o se d\u00e1 entre o norte pr\u00f3spero e o sul em crise, mas entre aqueles pa\u00edses que fizeram ou n\u00e3o sua li\u00e7\u00e3o de casa.\u201d (BUCK, 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para o horror dos pupilos espanh\u00f3is da Troika, o fen\u00f4meno Syriza bateu na porta de seu governo dia 31 de janeiro. 300 mil pessoas segundo seus organizadores, 100 mil segundo a pol\u00edcia, e 153 mil \u00a0segundo an\u00e1lises de imagens fotogr\u00e1ficas realizadas pelo jornal\u00a0<em>El Pais<\/em> lotaram o centro de Madrid (MANETTO, 2015)<\/p>\n<blockquote style=\"margin: 1.5em; border-width: 0px 0px 0px 3px; border-left-style: solid; border-left-color: #cadae7; overflow: hidden; line-height: 20px; text-align: justify;\">\n<p><em>\u201cMenos de uma semana depois que a Gr\u00e9cia elegeu um governo violentamente antiausteridade, lideres espanh\u00f3is da organiza\u00e7\u00e3o insurgente local, Podemos, em uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, chamaram seus apoiadores as ruas para a prepara\u00e7\u00e3o de uma agitada campanha eleitoral. \u201ctic-tac, tic-tac\u201d gritavam os milhares que ocupavam as largas avenidas centrais de Madrid, em contagem regressiva para um ano lotado de elei\u00e7\u00f5es municipais, regionais e nacionais. Pouco mais de um ano desde sua cria\u00e7\u00e3o, Podemos saltou ao topo das pesquisas de opini\u00e3o, amea\u00e7ando encerrar o sistema bipartid\u00e1rio que governa a Espanha desde a morte do general Francisco Franco, em 1975.\u201d (KASSAM, 2015)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Apesar de ocuparem o mesmo campo anti-austeridade, Syriza e Podemos s\u00e3o express\u00f5es distintas de um mesmo fen\u00f4meno internacional. Ambos s\u00e3o liderados por figuras jovens e carism\u00e1ticas e uma dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria que, nos dois casos, tem sido incapaz de desmantelar a oposi\u00e7\u00e3o interna. Por\u00e9m, al\u00e9m de dez anos mais velho, o Syriza tem na sua v\u00e9rtebra uma corrente de tradi\u00e7\u00e3o marxista, atravessou diversas elei\u00e7\u00f5es e possui uma dire\u00e7\u00e3o com tradi\u00e7\u00e3o no movimento social. J\u00e1 o Podemos \u00e9 muito mais fluido, profundamente atrelado \u00e0 esfera digital e n\u00e3o reivindica o socialismo em seu programa. Mesmo assim, os dois partidos t\u00eam tirado o sono do mercado financeiro por todo mundo. (PODEMOS, 2014)<\/p>\n<p>O desenrolar da estrat\u00e9gia internacional do Syriza tamb\u00e9m depender\u00e1 da din\u00e2mica interna da luta de classes grega. Assim como ocorrido em Madrid, ser\u00e3o as mobiliza\u00e7\u00f5es de massa, junto \u00e0 conjuntura internacional, que definir\u00e3o o futuro do projeto Syriza. Por tanto, o pr\u00f3ximo artigo,<em>Syriza: Partido e Governo<\/em>, discutir\u00e1 a din\u00e2mica interna dos novos governantes gregos frente ao movimento que os elegeu.<\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Aldo Cordeiro Sauda<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong><span style=\"font-size: 10pt;\">Notas<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>[i]<\/strong> O presente artigo \u00e9 o terceiro de uma s\u00e9rie de cinco. Al\u00e9m de\u00a0<em>Syriza: partido e movimento\u00a0<\/em>e\u00a0Syriza: partido e programa os pr\u00f3ximos artigos,\u00a0Syriza: partido e governo e\u00a0Syriza: partido e marxismo, discutir\u00e3o a localiza\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o dentro da din\u00e2mica da pol\u00edtica nacional al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o do partido com o marxismo grego.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>[ii]<\/strong> Pa\u00eds de maioria \u00e9tnica grega, o Chipre foi ocupado militarmente pelo imp\u00e9rio brit\u00e2nico entre 1878 e 1960. At\u00e9 ent\u00e3o ele era uma col\u00f4nia do imp\u00e9rio Otomano, que de meados do s\u00e9culo 15 at\u00e9 1821 controlou tamb\u00e9m a Gr\u00e9cia. Por conta dos otomanos, uma pequena col\u00f4nia turca se instalou na ilha cipriota, gerando tens\u00f5es permanentes entre os colonos e a maioria \u00e9tnica grega. Em 1974, dezesseis anos ap\u00f3s sua independ\u00eancia, um golpe militar organizado pela direita cipriota e apoiada pela ditadura militar em Atenas derrubou o governo de Makarios II. Ao contr\u00e1rio da pol\u00edtica relativamente neutra de ent\u00e3o, os militares pro-Gr\u00e9cia anunciaram a pretens\u00e3o de anexar a ilha ao estado grego, iniciando assim uma crise com o governo turco. Cinco dias ap\u00f3s o golpe pro-Atenas, sob o argumento de proteger a minoria mu\u00e7ulmana, o ex\u00e9rcito da Turquia invadiu o norte de Chipre.<\/em><\/p>\n<p><em>Divido em dois desde a invas\u00e3o turca, a ilha, principalmente a partir dos anos 2000, tem caminhado em dire\u00e7\u00e3o a reunifica\u00e7\u00e3o. Mesmo com a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, no ter\u00e7o da ilha governado por cipriotas pro-Turquia a legisla\u00e7\u00e3o da EU se encontra suspensa. O governo local \u00e9 reconhecido apenas por Ancara, enquanto o resto do pa\u00eds mantem rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas normais com todo o mundo. Por conta de sua din\u00e2mica geopol\u00edtica, o Chipre, assim como a pr\u00f3pria Gr\u00e9cia, j\u00e1 foram considerados pelo Departamento de Estado norte americano como parte do \u201cGrande Oriente M\u00e9dio\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>A ilha do Chipre foi profundamente afetada pela guerra civil libanesa, pa\u00eds com o qual divide sua fronteira mar\u00edtima. Durante a guerra, transformou-se em entreposto comercial das mil\u00edcias libanesas. Junto a isto, todo sistema banc\u00e1rio de para\u00edso fiscal existente antes no L\u00edbano transferiu-se para l\u00e1.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>[iii]<\/strong> A Rep\u00fablica Federativa Alem\u00e3 (RFA), tamb\u00e9m conhecida ent\u00e3o como \u201cAlemanha ocidental\u201d, surgiu apenas em 1949. Durante os 4 anos da ocupa\u00e7\u00e3o aliada, foi-se lentamente juntando as regi\u00f5es militarmente ocupadas pelos franceses, ingleses e os norte-americanos em um \u00fanico \u201cpr\u00e9-Estado\u201d, a \u201cTirzone\u201d, firmemente controlado pelos EUA. Todo processo de reindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que rearticulou a burguesia alem\u00e3, foi bancado economicamente e politicamente por Washington. J\u00e1 a parte leste do pa\u00eds manteve-se separada da Rep\u00fablica Federativa, dando vida a outra uma unidade pol\u00edtica, a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA). Berlin, principal cidade do pa\u00eds, que tamb\u00e9m foi dividida, se localizava no meio da zona sovi\u00e9tica. Na \u00e1rea sob ocupa\u00e7\u00e3o militar sovi\u00e9tica, a burguesia foi expropriada e ergue-se l\u00e1 um estado oper\u00e1rio burocraticamente deformado sob dire\u00e7\u00e3o de um partido stalinista.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>[iv] <\/strong>Nacionalmente, o CDU interv\u00e9m na pol\u00edtica atrav\u00e9s de uma frente conhecida como \u201ca uni\u00e3o\u201d. Durante a forma\u00e7\u00e3o do partido, Adenauer deparou-se na Bavaria, uma prov\u00edncia com tra\u00e7os regionais particulares, com a Uni\u00e3o Social Crist\u00e3 (CSU) uma organiza\u00e7\u00e3o conservadora que tentava produzir, regionalmente, um projeto similar ao dele. Ao inv\u00e9s de disputar o espa\u00e7o ou incorpora-lo a seu partido, Adenauer tornou o CSU partido-irm\u00e3o da CDU na Bav\u00e1ria, onde eles representam o projeto da Democracia Crist\u00e3. Apesar de ser o \u00fanico estado com o t\u00edtulo de \u201clivre\u201d, o Estado Livre da Bav\u00e1ria possui status nacional igual aos outros estados alem\u00e3es.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>[v]<\/strong> O segundo maior banco da ilha, o Laiki foi dividido em dois: uma parte \u201cboa\u201d, com todas as contas abaixo de 100 mil euros, al\u00e9m de dep\u00f3sitos do estado e da igreja; e uma parte \u201cm\u00e1\u201d, com todo o resto. A parte \u201cboa\u201d fundiu-se ao Banco do Chipre, o maior do pa\u00eds, a parte \u201cm\u00e1\u201d foi a fal\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00b9Na primeira vers\u00e3o publicada, fui alertado a ressaltar no inicio do texto o tema da OTAN. De fato, \u00e9 importante dar luz ao papel a ser desempenhado pelo Estados Unidos de Barak Obama em uma poss\u00edvel medida de compra dos papeis do governo grego descritos pelas agencias de \u201crating \u201cdo capitalismo financeiro como em \u201czona de especula\u00e7\u00e3o\u201d. Esta formula\u00e7\u00e3o deve passar pela mente de muitos no Syriza.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00b2No texto original, super-estimei o numero de pa\u00edses em que o Euro foi eleito democraticamente. Mesmo assim, n\u00e3o deixa de ser curioso que um suposto populista de direita busque inspira\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o francesa e na cultura plebiscit\u00e1ria francesa. Um populismo \u201crefinado\u201d no liberalismo.<\/em><\/p>\n<p><em><br \/><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imprensa europeia estava em choque. Yanis Varoufakis, ministro das finan\u00e7as do governo Syriza, apareceu sem gravata em suas reuni\u00f5es internacionais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1807,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[83],"tags":[447,445,422,114,145,446,423],"class_list":["post-1808","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-grecia-europa","tag-coalizao-da-esquerda-radical","tag-governo-grego","tag-grecia","tag-mas","tag-movimento-alternativa-socialista","tag-situacao-grega","tag-syriza"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/varoufakisetsipras.jpg?fit=533%2C300","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1808\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1807"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}