{"id":1806,"date":"2015-02-24T03:04:17","date_gmt":"2015-02-24T02:04:17","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2015\/02\/24\/podemos-todo-o-mundo-e-composto-de-mudanca\/"},"modified":"2015-02-24T03:04:17","modified_gmt":"2015-02-24T02:04:17","slug":"podemos-todo-o-mundo-e-composto-de-mudanca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2015\/02\/24\/podemos-todo-o-mundo-e-composto-de-mudanca\/","title":{"rendered":"PODEMOS: todo o mundo \u00e9 composto de mudan\u00e7a!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A base, a vanguarda e a direc\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas partes dos fen\u00f3menos pol\u00edticos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel analis\u00e1-las como um todo \u00fanico e monol\u00edtico, fora do momento actual da luta de classes e das suas catacter\u00edsticas. <\/em><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em a Dial\u00e9tica da Natureza, Friedrich Engels elucida que \u201c<em>(\u2026) a totalidade da natureza, do menor elemento ao maior, dos gr\u00e3os de areia ao sol, dos protozo\u00e1rios (organismos unicelulares) ao homem, transcorre a sua exist\u00eancia entre um eterno chegar a ser e deixar de ser, num movimento e mudan\u00e7a sem descanso (\u2026)<\/em>\u201d. Entender o fen\u00f3meno Podemos, do Estado espanhol, exige destrin\u00e7ar as suas partes e verificar as rela\u00e7\u00f5es entre elas, conhecer como come\u00e7ou, por onde passou e, da\u00ed, perspectivar que caminhos seguir\u00e1.<\/p>\n<p>Os que exultam e os que desdenham o processo t\u00eam em comum a absolutiza\u00e7\u00e3o do Podemos numa das suas partes. Tomam o fen\u00f3meno como um corpo \u00fanico, regressivo ou progressivo, pela simples an\u00e1lise da sua direc\u00e7\u00e3o ou base que o fez catapultar para a pol\u00edtica internacional. Deslocam-no para um universo est\u00e1tico onde o movimento e a mudan\u00e7a s\u00e3o vari\u00e1veis que n\u00e3o contam, transformando o debate e a proposta num exerc\u00edcio escol\u00e1stico entre imagens de processos an\u00e1logos passados e a teoria que leram.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o eleitoral das massas, de apoio a novas forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, est\u00e1 a abalar as placas tect\u00f3nicas dos regimes democr\u00e1tico-burgueses da Europa, em especial a do Sul. Em comum, estes regimes sustentaram-se num bipartidarismo, com ou sem muleta ocasional, que se alimentava dos neg\u00f3cios do Estado, escondendo com migalhas a corrup\u00e7\u00e3o end\u00e9mica do sistema capitalista. A crise em que o capitalismo mergulhou desde 2007\/2008 fez estalar a muralha.<\/p>\n<p>Os milh\u00f5es de indignados que atiraram pela janela os velhos ditadores no Norte de \u00c1frica e que foram seguidos por milh\u00f5es nas pra\u00e7as e ruas da Europa perif\u00e9rica puseram a nu as primeiras fissuras. No entanto, a combina\u00e7\u00e3o entre a trai\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica dos amigos do bipartidarismo na classe trabalhadora e o sentimento legalista e anti-organiza\u00e7\u00e3o, derivado da desilus\u00e3o com as experi\u00eancias \u201csocialistas\u201d e da actua\u00e7\u00e3o da esquerda reformista mais radical ou mais estalinista, fez com que o auge da mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha correspondido a uma mudan\u00e7a pol\u00edtica. Em Espanha, a vit\u00f3ria eleitoral da direita, no final de 2011, introduziu uma reflex\u00e3o profunda no movimento quanto \u00e0 necessidade de novas express\u00f5es pol\u00edticas em alternativa ao centro pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A austeridade cont\u00ednua e em intensidade brutal dos anos seguintes, fez com que a diminui\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o se concentrasse num ranger de dentes que acumulou o sentimento de div\u00f3rcio e ruptura com os partidos tradicionais, incluindo os de esquerda que sempre institucionalizavam os protestos .<\/p>\n<p>Esse div\u00f3rcio teve, em Espanha, o primeiro an\u00fancio nas elei\u00e7\u00f5es europeias. O manifesto-movimento \u201cMover ficha\u201d, constru\u00eddo por um n\u00facleo de investigadores universit\u00e1rios de Madrid, com muita presen\u00e7a medi\u00e1tica, pela organiza\u00e7\u00e3o Izquierda Anticapitalista e por um sem n\u00famero de activistas, apresentou-se como \u201cPodemos\u201d e as massas, atrav\u00e9s dos seus misteriosos caminhos, usaram-no e elevaram-no a instrumento de protesto. Instrumento que abriu uma importante brecha no regime mon\u00e1rquico espanhol fundado em 1978, pensado pelo anterior ditador Franco e aceite pelo Partido Comunista Espanhol.<\/p>\n<p>A brecha foi de tal ordem que, nos tr\u00eas meses seguintes \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, o regime mudou o rei, o Governo do PP recuou na sua lei retr\u00f3grada de voltar a proibir o aborto e anunciou uma redu\u00e7\u00e3o da austeridade e impostos para 2015. Desde a\u00ed, o Podemos enquanto organiza\u00e7\u00e3o teve uma progress\u00e3o geom\u00e9trica tanto na aglutina\u00e7\u00e3o de activistas, reunindo centenas de c\u00edrculos, como na depura\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica da sua direc\u00e7\u00e3o e do seu programa. Ao mesmo tempo, o div\u00f3rcio eleitoral do povo com o regime ganhou apoio e transformou o Podemos no Syriza de Espanha.<\/p>\n<p>Agora, enquanto as massas levam os activistas para dentro do Podemos e est\u00e3o a potenci\u00e1-lo como expectativa de um governo contra a austeridade, a corrup\u00e7\u00e3o e pela soberania, a direc\u00e7\u00e3o de Pablo Iglesias tem caminhado no sentido inverso dessas expectativas, com o recuo sistem\u00e1tico das propostas originalmente contidas no manifesto \u201cMover ficha\u201d. Abandonou a cr\u00edtica ao Euro e a defesa da socializa\u00e7\u00e3o das grandes empresas estrat\u00e9gicas e dos bancos, eliminou a auditoria \u00e0 d\u00edvida p\u00fablica e a recusa de pagar a parte ileg\u00edtima para uma proposta difusa de \u201creestrutura\u00e7\u00e3o positiva\u201d, ao mesmo tempo que assumiu uma postura espanholista face \u00e0 Catalunha, opondo-se a que esta declare unilateralmente a independ\u00eancia para realizar o referendo que o Estado espanhol impediu.<\/p>\n<p>Juntando a este recuo, Iglesias empreendeu uma depura\u00e7\u00e3o das estruturas de direc\u00e7\u00e3o do Podemos que impede, na pr\u00e1tica, uma discuss\u00e3o diversa e a elei\u00e7\u00e3o interna de activistas com posi\u00e7\u00f5es distintas para cargos directivos e electivos, impossibilitando tamb\u00e9m, por exemplo, os companheiros fundadores da Izquierda Anticapitalista de aceder \u00e0s direc\u00e7\u00f5es, e estes capitulam dissolvendo a sua organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para retirar os partidos da Troika e da austeridade do poder, as massas trabalhadoras usar\u00e3o como principal ferramenta o voto tanto no Syriza, na Gr\u00e9cia, como no Podemos, em Espanha. Mas, lamentavelmente, as direc\u00e7\u00f5es de ambos e a sua linha program\u00e1tica fazem crer que terminar\u00e3o a governar de forma parecida \u00e0 social-democracia do PASOK e do PSOE.<\/p>\n<p>Os revolucion\u00e1rios devem acompanh\u00e1-las nesse processo, explicando t\u00e1ctica e pacientemente as limita\u00e7\u00f5es e o car\u00e1cter destes partidos, de forma a abrir caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade. Se os recuos program\u00e1ticos e organizativos n\u00e3o levarem nem \u00e0 desilus\u00e3o pr\u00e9via dos activistas, nem \u00e0 absten\u00e7\u00e3o eleitoral das massas, ambos saber\u00e3o perceber, no caso de falhan\u00e7o governativo, que tanto o Syriza como o Podemos n\u00e3o s\u00e3o o fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Daniel Pereira<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A base, a vanguarda e a direc\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas partes dos fen\u00f3menos pol\u00edticos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel analis\u00e1-las como um todo \u00fanico e monol\u00edtico, fora do momento actual da luta de classes e das suas catacter\u00edsticas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1805,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[23],"tags":[116,336,181,422,118,114,115,206,448,162,117,423],"class_list":["post-1806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estado-espanhol","tag-alternativa","tag-espanha","tag-estado-espanhol","tag-grecia","tag-indignados","tag-mas","tag-movimento","tag-podemos","tag-reformismo","tag-revolucionario","tag-socialista","tag-syriza"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/iglesias_doc_economico2.jpg?fit=450%2C362","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1806\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1805"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}