{"id":1728,"date":"2014-11-08T13:16:35","date_gmt":"2014-11-08T12:16:35","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2014\/11\/08\/kobane-e-a-revolucao-siria\/"},"modified":"2014-11-08T13:16:35","modified_gmt":"2014-11-08T12:16:35","slug":"kobane-e-a-revolucao-siria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2014\/11\/08\/kobane-e-a-revolucao-siria\/","title":{"rendered":"Kobane e a Revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Mais de um m\u00eas depois de ter come\u00e7ado o ataque do Estado Isl\u00e2mico (EI), a cidade curda de Kobane n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o caiu como a resist\u00eancia t\u00e3o her\u00f3ica como desesperada do seu povo conseguiu deter os seus brutais agressores.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>O pre\u00e7o, n\u00e3o obstante, \u00e9 alto. At\u00e9 \u00e0 data, mais de 700 pessoas morreram e outras 300.000 tiveram de fugir do cerco do EI<sup>[1]<\/sup>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m a batalha continua intensa. Dentro da cidade, movimentando-se entre os esqueletos dos edif\u00edcios, a fazer buracos nas paredes para posicionar o ponto de mira, preparando emboscadas e recorrendo, inclusive, a ataques suicidas, milhares de combatentes das Unidades de Protec\u00e7\u00e3o Popular (YPG)<sup>[2]<\/sup>, comandadas por Narin Afrin, uma mulher que emociona pelo seu valor, seguem dando ao mundo demonstra\u00e7\u00f5es de uma determina\u00e7\u00e3o que parece inesgot\u00e1vel.<\/p>\n<p>As mil\u00edcias curdas contam tamb\u00e9m com o apoio activo de pelo menos tr\u00eas batalh\u00f5es de combatentes \u00e1rabes, todos provenientes da resist\u00eancia s\u00edria: o batalh\u00e3o revolucion\u00e1rio de Raqqa; o batalh\u00e3o &#8220;O Sol do Norte&#8221;; e o batalh\u00e3o de &#8220;Jirablis&#8221;. Pelo seu lado, a 4 de Outubro, o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria (ELS) decidiu aderir a este esfor\u00e7o e mandar um milhar de combatentes para defender Kobane.<sup>[3]<\/sup><\/p>\n<p>Neste sentido, deu-se um facto fundamental e extremamente progressivo: o acordo do Comando Geral do YPG com o ELS, para lutar &#8220;contra o terrorismo e pela constru\u00e7\u00e3o de uma S\u00edria livre e democr\u00e1tica&#8221;, que por sua vez tamb\u00e9m confirma uma &#8220;coordena\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s [YPG] e as fac\u00e7\u00f5es importantes da FSA no campo Norte de Aleppo, Afrin, Kobane e Jazia. Actualmente, h\u00e1 fac\u00e7\u00f5es e v\u00e1rios batalh\u00f5es da FSA que lutam do nosso lado contra os terroristas do ISIS&#8221;<sup>[4]<\/sup>.<\/p>\n<p>A defesa da cidade deve ser atribu\u00edda, sobretudo, \u00e0 resist\u00eancia kurda, n\u00e3o s\u00f3 na S\u00edria, mas em toda aquela na\u00e7\u00e3o de mais de 30 milh\u00f5es de pessoas que est\u00e3o dispersas nos actuais territ\u00f3rios da Turquia, Iraque, Ir\u00e3o e S\u00edria.<\/p>\n<p>Isto materializa-se, desde o come\u00e7o do ataque a Kobane, em milhares de combatentes do PKK que tentaram cruzar a fronteira turca para unir-se \u00e0 resist\u00eancia. A resposta do governo turco de Recep Tayyip Erdogan foi bombarde\u00e1-los no Sudeste da Turquia, entre as fronteira com o Iraque e o Ir\u00e3o<sup>[5]<\/sup>.<\/p>\n<p>Por sua vez, outras centenas de <em>peshmergas<\/em><em>, a for\u00e7a armada do Curdist\u00e3o iraquiano, que desde Junho combatem o EI no seu territ\u00f3rio, ofereceram-se tamb\u00e9m para lutar em Kobane.<\/em><\/p>\n<p>Tudo isto ocorre no momento de massivas manifesta\u00e7\u00f5es de curdos exigindo apoio material a Kobane, que ocorreram em Berlim, Bruxelas, Paris e outras cidades europeias poucos dias antes. Na Turquia, a repress\u00e3o de Erdogan a estas mobiliza\u00e7\u00f5es causou dezenas de mortos em Istambul, Ancara e, sobretudo, em Diyarbakir, considerada a \u201ccapital\u201d curda nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Estes factos confirmam que <strong>a unidade de toda a na\u00e7\u00e3o curda, em primeiro lugar, e deste povo oprimido com as mil\u00edcias \u00e1rabes da resist\u00eancia s\u00edria s\u00e3o a chave para derrotar as hordas do EI e, ao mesmo tempo, intensificar a<\/strong><strong> resist\u00eancia contra a ditadura s\u00edria. Isto, como vimos, est\u00e1 a ocorrer, mesmo que de forma incipiente. \u00c9 hora de estreitar mais estes la\u00e7os de solidariedade na luta!<\/strong><\/p>\n<p>Isto \u00e9 urgente pois a amea\u00e7a do EI continua em toda a sua for\u00e7a. Para este &#8220;partido-ex\u00e9rcito&#8221; com programa teocr\u00e1tico-dictatorial, Kobane, localizada entre as cidades de Cerablus e Tell Abyad, permitiria uma continuidade territorial com a \u00e1rea j\u00e1 ocupada no Norte da S\u00edria, sendo tamb\u00e9m uma porta de entrada para a Turquia.<\/p>\n<p>Outro motivo importante para os \u00e9 a captura da cidade de Cizre, situada no extremo oriental da S\u00edria e que tem um campo de petr\u00f3leo importante (Rimela). A conquista destes objectivos facilitaria enormemente a provis\u00e3o de petr\u00f3leo (com a qual se financiam) e o fornecimento log\u00edstico atrav\u00e9s da Turquia, recursos usados para esmagar a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria.<\/p>\n<p><strong>O papel dos bombardeamento dos Estados Unidos <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Confirmando que a interven\u00e7\u00e3o a\u00e9rea dos Estados Unidos nada tem de &#8220;progressiva&#8221; nem de &#8220;humanit\u00e1ria&#8221;, o imperialismo demonstrou pouco interesse pela sorte dos curdos em Kobane.<\/p>\n<p>Em menos de duas semanas, nas horas mais terr\u00edveis do cerco &#8220;jihadista&#8221; \u00e0 cidade, o Secret\u00e1rio de Estado norte-americano, John Kerry, declarou Kobane como \u201cobjectivo n\u00e3o-estrat\u00e9gico\u201d<sup>[6]<\/sup>. De facto, quando come\u00e7aram os bombardeamentos imperialistas, a 23 de Setembro, o EI estava a 60 km de Kobane. Poucas semanas depois, havia tomado um ter\u00e7o da cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o r\u00e1pido avan\u00e7o do EI em Kobane (que se somam aos progressos militares do EI perto de Bagdad) come\u00e7ou a demonstrar os limites da opera\u00e7\u00e3o militar norte-americana, dando raz\u00e3o \u00e0s cr\u00edticas da oposi\u00e7\u00e3o interna nos Estados Unidos, sobretudo dos &#8220;falc\u00f5es&#8221; republicanos e &#8220;neoconservadores&#8221; em geral, que v\u00eaem exigindo &#8220;botas no terreno&#8221;, algo que Washington, por falta de condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas favor\u00e1veis, reiterou que n\u00e3o haver\u00e1.<\/p>\n<p>O governo de Obama, ent\u00e3o, encontrou-se a caminhar numa linha fina, pois, por um lado, n\u00e3o podia &#8220;ajudar&#8221; decididamente os curdos, porque isso criaria m\u00e1s rela\u00e7\u00f5es com a Turquia, pa\u00eds com o qual a Casa Branca comparte a sua oposi\u00e7\u00e3o sobre a autodetermina\u00e7\u00e3o do povo curdo; por outro lado, n\u00e3o podia permitir um avan\u00e7o fulminante do EI, j\u00e1 que isto retiraria &#8220;confian\u00e7a&#8221; \u00e0 interven\u00e7\u00e3o a\u00e9rea em curso.<\/p>\n<p>Neste marco, sem jogar em pleno para &#8220;salvar&#8221; Kobane, desde h\u00e1 poucos dias o imperialismo intensificou os bombardeamentos a\u00e9reos \u00e0s posi\u00e7\u00f5es jihadistas. Ao mesmo tempo, o Pent\u00e1gono anunciou uma entrega de 28 lotes de armas e medicamentos via a\u00e9rea aos defensores de Kobane, doados, na verdade, pelos<em> peshmergas<\/em> iraquianos, sem que se possa verificar se efectivamente chegaram ao destino, pois o EI difundiu um v\u00eddeo em que, aparentemente, as suas tropas se apoderaram desse carregamento<sup>[7]<\/sup>. De todas as formas, Kerry foi categ\u00f3rico ao afirmar que esta medida, muito limitada, era &#8220;moment\u00e2nea&#8221;, produto de &#8220;uma emerg\u00eancia diante dum momento de crise&#8221;<sup>[8]<\/sup>.<\/p>\n<p>Assim, o governo turco decidiu abrir um sector da fronteira com o Iraque para que unidades\u00a0<em>peshmergas<\/em> desse pa\u00eds possam refor\u00e7ar a defensa de Kobane. Isto tem a ver, em parte, com as press\u00f5es das mobiliza\u00e7\u00f5es curdas na Turquia e na Europa.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, existe outro elemento. Para o governo turco, as rela\u00e7\u00f5es com o Governo Regional do Curdist\u00e3o iraquiano s\u00e3o muito diferentes das sustentadas com o PKK. Desde que o Curdist\u00e3o iraquiano, que conta com autogoverno desde 2005, tomou em Junho a cidade de Kirkut e defendeu-a face ao avan\u00e7o do EI, conta com umas reservas petrol\u00edferas estimadas em 45.000 milh\u00f5es de barris, que come\u00e7aram a exportar este ano a partir do porto turco de Ceyhan, configurando um bom negocio para Ancara<sup>[9]<\/sup>.<\/p>\n<p>Contudo, apesar desta medida, a atitude do governo turco continua a ser de n\u00e3o intervir em Kobane, pois, nas palavra de Erdogan: <em>&#8220;<\/em><em>Criar uma frente contra o ISIL <\/em>[como se conhecia antes de EI]<em> poderia significar dar armas ao PYD, mas para n\u00f3s o PYD \u00e9 o mesmo que o PKK, uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista&#8221;<\/em><sup>[10]<\/sup>.<\/p>\n<p>\u00c9 o momento de aproveitar estas contradi\u00e7\u00f5es dentro do imperialismo, e deste com o governo turco, para exigir com mais afinco o envio incondicional de armas pesadas para os combatentes de Kobane, para al\u00e9m da abertura total da fronteira turca para a livre passagem de volunt\u00e1rios curdose de qualquer outra origem para defender os curdos s\u00edrios.<\/p>\n<p><strong>Defender Kobane \u00e9 defender a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria!<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O destino de Kobane est\u00e1 intimamente ligado ao desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria. Esta cidade foi libertada do regime de Al Assad em 19 de Julho de 2012 e \u00e9 parte da regi\u00e3o de Rojava (Curdist\u00e3o s\u00edrio) que com a revolu\u00e7\u00e3o ganhou uma administra\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma, no marco da luta mais geral pela autodetermina\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Estas cidades transformaram-se em \u201cregi\u00f5es democr\u00e1ticas aut\u00f3nomas\u201d, a partir de uma confedera\u00e7\u00e3o de \u201ccurdos, \u00e1rabes, s\u00edrios, caldeus, turcomanos, arm\u00e9nios e chechenos\u201d como declara o Preambulo da Constitui\u00e7\u00e3o de Rojava de Novembro de 2013, algo muito progressivo, apesar do car\u00e1cter burgu\u00eas da direc\u00e7\u00e3o curda do PYD.<\/p>\n<p>Um triunfo sobre o EI em Kobane seria duplo: significaria um avan\u00e7o para a autodetermina\u00e7\u00e3o do povo curdo e daria um impulso ao combate contra a ditadura de Al Assad. Por isso, como vimos insistindo, a unidade militar dos curdos com os rebeldes s\u00edrios \u00e1rabes \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Neste sentido, \u00e9 necess\u00e1rio combater as direc\u00e7\u00f5es burguesas, tanto \u00e1rabes como curdas, que, respectivamente, n\u00e3o reconhecem o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do povo curdo o se fecham numa perspectiva meramente nacionalista, sem se comprometerem a fundo na luta para derrotar Al Assad.<\/p>\n<p>Os revolucion\u00e1rios, no marco do apoio incondicional \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria de conjunto e ao direito inalien\u00e1vel da na\u00e7\u00e3o curda a constituir um Estado independente, contra Al Assad e contra o EI, estamos completamente comprometidos com a vitoria militar dos curdos em Kobane, que constitui nos nossos dias um dos cap\u00edtulos mais emblem\u00e1ticos e comoventes da justa causa nacional deste povo oprimido.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em>Daniel Sugasti, LIT-QI<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p> <span style=\"font-size: 10pt;\"><strong><em> <\/em><\/strong><\/span> <\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Tradu\u00e7\u00e3o de Diogo Trindade)<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><strong>Notas<\/strong><\/span><\/p>\n<p><sup>[1]<\/sup>Dados do Observat\u00f3rio S\u00edrio dos Direitos Humanos.<\/p>\n<p><sup>[2]<\/sup> As mil\u00edcias YPG est\u00e3o ligadas ao Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica (YPD), que por sua vez est\u00e1 vinculado ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o), com centro na Turquia e catalogado \u201corganiza\u00e7\u00e3o terrorista\u201d pelos Estado Unidos, pela OTAN, UE e, evidentemente, pelo governo turco.<\/p>\n<p><sup>[3]<\/sup> <a href=\"http:\/\/www.vientosur.info\/spip.php?article9472\">http:\/\/www.vientosur.info\/spip.php?article9472<\/a><\/p>\n<p><sup>[4]<\/sup>Declara\u00e7\u00e3o do Comando Geral YPG em Kobane, ver: <a href=\"http:\/\/www.corrienteroja.net\/index.php?option=com_k2&#038;view=item&#038;id=1516\"> http:\/\/www.corrienteroja.net\/index.php?option=com_k2&#038;view=item&#038;id=1516<\/a><\/p>\n<p><sup>[5]<\/sup> Existem, por outro lado, mais de 8.000 presos pol\u00edticos curdos nas pris\u00f5es turcas, acusados de \u201cterrorismo\u201d.<\/p>\n<p><sup>[6]<\/sup> <a href=\"http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/20\/actualidad\/1413786881_623447.html\">http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/20\/actualidad\/1413786881_623447.html<\/a><\/p>\n<p><sup>[7]<\/sup> <a href=\"http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/22\/actualidad\/1413960626_494894.html\">http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/22\/actualidad\/1413960626_494894.html<\/a><\/p>\n<p><sup>[8]<\/sup> <a href=\"http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/20\/actualidad\/1413786881_623447.html\">http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/20\/actualidad\/1413786881_623447.html<\/a><\/p>\n<p><sup>[9]<\/sup> A Turquia compra 500.000 barris de petr\u00f3leo di\u00e1rios ao Iraque.<\/p>\n<p><sup>[10]<\/sup> <a href=\"http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/19\/actualidad\/1413752080_429982.html\">http:\/\/internacional.elpais.com\/internacional\/2014\/10\/19\/actualidad\/1413752080_429982.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de um m\u00eas depois de ter come\u00e7ado o ataque do Estado Isl\u00e2mico (EI), a cidade curda de Kobane n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o caiu como a resist\u00eancia t\u00e3o her\u00f3ica como desesperada do seu povo conseguiu deter os seus brutais 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