{"id":1295,"date":"2013-09-10T23:32:27","date_gmt":"2013-09-10T22:32:27","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2013\/09\/10\/o-outro-11-de-setembro-a-tragedia-chilena\/"},"modified":"2013-09-10T23:32:27","modified_gmt":"2013-09-10T22:32:27","slug":"o-outro-11-de-setembro-a-tragedia-chilena","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2013\/09\/10\/o-outro-11-de-setembro-a-tragedia-chilena\/","title":{"rendered":"O outro 11 de Setembro: a trag\u00e9dia chilena"},"content":{"rendered":"\n<p>O golpe militar que derrubou Salvador Allende vitimou milhares de pessoas, destruiu os partidos pol\u00edticos e as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e imp\u00f4s o modelo precursor do neoliberalismo. N\u00e3o por acaso, os estudantes e o povo que se manifestam nestes dias \u00e0s centenas de milhares pelas ruas de Santiago [<em>refere-se \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es de 2011, quando foi escrito este artigo<\/em>] levantam a bandeira de &#8220;Se va caer, se va caer, la educaci\u00f3n de Pinochet&#8221;.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Assim como a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade e a previd\u00eancia s\u00e3o privadas em sua esmagadora maioria, assim como as empresas que exploram o cobre, a sua principal riqueza. T\u00e3o profunda foi a derrota imposta em 1973. A melhor homenagem aos ca\u00eddos, aos centenas de milhares de exilados \u00e9 essa demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a das massas chilenas. Mas como se chegou a um desfecho t\u00e3o terr\u00edvel? Havia outra possibilidade? Como o t\u00e3o poderoso movimento social foi derrotado praticamente sem combates?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O Chile em 1970<\/strong><\/p>\n<p>O Chile tinha cerca de 10 milh\u00f5es de habitantes, uma alta taxa de urbaniza\u00e7\u00e3o (75%), uma trajet\u00f3ria de quase cem anos de organiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, o mais antigo e poderoso partido comunista das Am\u00e9ricas, ao lado de um tamb\u00e9m antigo e forte partido socialista, que tinha uma forte ala esquerda. A democracia burguesa era bastante antiga e est\u00e1vel para os padr\u00f5es latino-americanos: desde 1932 n\u00e3o havia golpes militares. O movimento de massas contava com uma poderosa central sindical, a CUT, cujos filiados representavam cerca de 25% dos assalariados.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, o Chile conheceu um profundo processo de mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, populares e estudantis, devido ao estrangulamento do modelo econ\u00f3mico de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es e \u00e0 influ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o cubana. N\u00e3o por acaso, a Democracia Crist\u00e3 (DC), em 1964, foi \u00e0s elei\u00e7\u00f5es para enfrentar a coliga\u00e7\u00e3o de esquerda com a bandeira de &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o em liberdade&#8221;. O seu programa focava a reforma agr\u00e1ria, a incorpora\u00e7\u00e3o dos pobres da cidade \u00e0 economia e a &#8220;chileniza\u00e7\u00e3o&#8221; do cobre?. Esse partido contou com o forte apoio do imperialismo americano, que \u00e0quela \u00e9poca implementava seu programa da Alian\u00e7a para o Progresso a fim de tentar deter a tremenda influ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s vencer as elei\u00e7\u00f5es, o governo Frei, da DC, mostrou abertamente a sua cara patronal, repressiva, pr\u00f3-imperialista. Inicialmente, a sua estrat\u00e9gia parecia ter \u00eaxito, mas, ap\u00f3s dois anos, a infla\u00e7\u00e3o subiu, a reforma agr\u00e1ria estagnou, a \u201cchileniza\u00e7\u00e3o\u201d do cobre mostrou-se um \u00f3timo neg\u00f3cio para as companhias americanas. Com isso, o movimento de massas come\u00e7ou a aumentar significativamente as suas lutas, havendo o aumento exponencial das greves, especialmente as ilegais. Houve tr\u00eas greves gerais at\u00e9 o processo eleitoral em 1970; os camponeses, estimulados pela promessa de reforma agr\u00e1ria, come\u00e7aram a ocupar terras e aproveitaram-se da recente permiss\u00e3o de sindicaliza\u00e7\u00e3o antes negada para faz\u00ea-lo aos milhares.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A Unidade Popular<\/strong><\/p>\n<p>Em 1970, realizam-se as elei\u00e7\u00f5es e a coliga\u00e7\u00e3o de partidos de esquerda, a Unidade Popular (UP), consegue a primeira maioria, com Salvador Allende \u00e0 cabe\u00e7a. A UP, composta pelo Partido Comunista (PC), o Partido Socialista (PS), mais um pequeno partido dissidente da DC, o Movimento de A\u00e7\u00e3o Popular Unificado (MAPU), e pequenas agrupamentos burgueses, como o Partido Radical, consegue a primeira maioria (36%). Para que o candidato vitorioso tivesse a sua elei\u00e7\u00e3o confirmada ainda teria que passar pela aprova\u00e7\u00e3o do parlamento. Intensas press\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es precederam essa vota\u00e7\u00e3o. O imperialismo americano procura estimular os setores que n\u00e3o queriam a posse de Allende. O ex-secret\u00e1rio de Estado Henry Kissinger resumiu a considera\u00e7\u00e3o do imperialismo americano pela vontade popular ao comentar com seus colegas: &#8220;N\u00e3o vejo por que temos que ficar parados e assistir a um pa\u00eds tornar-se comunista devido \u00e0 irresponsabilidade do seu pr\u00f3prio povo\u201d.<\/p>\n<p>A extrema direita chegou a tentar sequestrar o comandante do Ex\u00e9rcito, Rene Schneider, partid\u00e1rio de aceitar os resultados eleitorais, para for\u00e7ar uma mudan\u00e7a na opini\u00e3o das For\u00e7as Armadas e da burguesia, mas o general resistiu e morreu, e o resultado foi que o setor mais golpista da burguesia perdeu espa\u00e7o. Antes de votar, no entanto, a DC obrigou a UP a aceitar um estatuto de garantias constitucionais que reafirmava o compromisso de manter as institui\u00e7\u00f5es centrais do regime capitalista.<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7armos a fazer o balan\u00e7o do governo, duas palavras sobre Allende. Era um antigo parlamentar socialista que concorreu pela quarta vez a presidente. Ele era um reformista convicto e nunca o escondeu. As concess\u00f5es reais feitas na primeira parte de seu governo, a implac\u00e1vel oposi\u00e7\u00e3o que seu governo sofreu por parte da burguesia e do imperialismo e a sua morte tr\u00e1gica provocada pelos golpistas assassinos fizeram com que seja idolatrado pelas massas. Mas n\u00e3o devemos nos confundir: o seu grande valor pessoal no \u00faltimo ato ao enfrentar com coragem os gorilas chilenos n\u00e3o redime os seus erros, isto \u00e9, a escolha equivocada da chamada via institucional ao socialismo e a sua responsabilidade pela derrota.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O primeiro ano<\/strong><\/p>\n<p>A UP tinha um programa de reformas b\u00e1sicas que inclu\u00eda a acelera\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria segundo a mesma lei aprovada no governo Frei e, principalmente, a nacionaliza\u00e7\u00e3o completa do cobre, que representava 80% das receitas de exporta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Quanto \u00e0 ind\u00fastria, seria dividida em tr\u00eas \u00e1reas &#8211; privada, mista e \u00e1rea de propriedade social (APS). A esta \u00faltima, seriam incorporadas as empresas que constitu\u00edam monop\u00f3lios. Nas \u00e1reas n\u00e3o estatais a \u00fanica participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores seria atrav\u00e9s dos pouco definidos comit\u00e9s de vigil\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o. Os bancos seriam tamb\u00e9m nacionalizados.<\/p>\n<p>O programa da UP fazia uma refer\u00eancia vaga a uma transi\u00e7\u00e3o ao socialismo respeitando as leis e a institucionalidade vigentes, sem especificar os seus ritmos e m\u00e9todos. Allende em v\u00e1rios discursos como presidente falava de uma segunda forma de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, supostamente defendida por Marx, ou seja, uma transi\u00e7\u00e3o respeitando as regras estabelecidas pelo regime burgu\u00eas, pac\u00edfica, enaltecendo a suposta &#8220;flexibilidade&#8221; das institui\u00e7\u00f5es do estado chileno.<\/p>\n<p>Outro elemento no programa da Unidade Popular que estimulou o movimento a lutar foi a declara\u00e7\u00e3o de que &#8220;as transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de que o pa\u00eds necessita somente poder\u00e3o ser realizadas se o povo chileno tomar em suas m\u00e3os o poder e o exercer real e efetivamente&#8221;. Era uma declara\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, uma concess\u00e3o \u00e0 sua ala esquerda, sem maiores precis\u00f5es, mas mesmo assim era uma linguagem distinta dos demais governos e foi tomada ao p\u00e9 da letra pelos trabalhadores e pelos setores populares e acabou ultrapassando em muito as a\u00e7\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es do governo e com ele se chocou em v\u00e1rios momentos.<\/p>\n<p>O governo Allende foi um cl\u00e1ssico governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes em um pa\u00eds dependente do imperialismo, marcado por uma profunda instabilidade, particularmente a partir do locaute patronal de 1972.<\/p>\n<p>Para tornarmos mais clara essa defini\u00e7\u00e3o, cedamos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de fazer algumas analogias hist\u00f3ricas, como uma aproxima\u00e7\u00e3o a uma realidade viva e complexa. Pelo seu conte\u00fado program\u00e1tico, pela sua pr\u00e1tica de tentar manter o movimento de massas como um apoiante controlado do governo, mais al\u00e9m das men\u00e7\u00f5es ret\u00f3ricas, para &#8220;dias de festa&#8221;, a uma transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, assemelhava-se a outros governos nacionalistas burgueses da Am\u00e9rica Latina, entre eles o de Goulart no Brasil. Pela composi\u00e7\u00e3o predominante dos partidos que o compunham e pelo apoio da principal organiza\u00e7\u00e3o sindical do pa\u00eds, a CUT chilena, tinha semelhan\u00e7a com outros regimes de colabora\u00e7\u00e3o de classes, chamados de frente popular pela denomina\u00e7\u00e3o dada pela Internacional Comunista sob dom\u00ednio de Estaline. A proposta era a de organizar uma alian\u00e7a antimonopolista, antiolig\u00e1rquica e anti-imperialista entre a classe trabalhadora, setores da classe m\u00e9dia e uma suposta burguesia nacional, oposta aos monop\u00f3lios e ao imperialismo para completar uma primeira fase democr\u00e1tico-burguesa do processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A partir de outubro de 1972, o governo, al\u00e9m das caracter\u00edsticas anteriores, come\u00e7a a assemelhar-se aos governos no auge de situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, e logo nos v\u00eam \u00e0 mente o exemplo de Kerensky na R\u00fassia em 1917, em que, sem deixar de ter projetos nem de existir, cada vez mais \u00e9 totalmente impotente entre as duas classes fundamentais que se enfrentavam, entre revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o. De qualquer forma, era um governo que explicitamente n\u00e3o rompia nem pretendia romper com os marcos da domina\u00e7\u00e3o estatal capitalista.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o nos adiantemos. Vejamos como evoluiu o processo. O Chile que Allende recebeu vivia uma profunda crise econ\u00f3mica, recess\u00e3o e infla\u00e7\u00e3o na casa dos 35% e a maior d\u00edvida externa per capita do mundo. A UP aplicou uma estrat\u00e9gia inicial de reativar a economia com medidas de est\u00edmulo keynesiano, aumentando os sal\u00e1rios pelo menos no n\u00edvel da infla\u00e7\u00e3o, elevando os benef\u00edcio sociais (entre eles, a entrega gratuita de meio litro de leite para cada crian\u00e7a do pa\u00eds) e , em especial os da Seguran\u00e7a Social, aumentando o cr\u00e9dito para a economia, diminuindo o desemprego, estimulando a constru\u00e7\u00e3o de casas populares, acelerando a reforma agr\u00e1ria, come\u00e7ando a nacionalizar os principais monop\u00f3lios industriais e banc\u00e1rios por meio da compra e, muito especialmente, nacionalizando as riquezas naturais b\u00e1sicas, entre elas, claro, em primeiro lugar, o cobre, o chamado &#8220;sal\u00e1rio do Chile&#8221;.<\/p>\n<p>O efeito foi imenso: em 1971, houve uma grande transfer\u00eancia de renda para o trabalho assalariado, que alguns dizem ter atingido 10% da renda nacional (o que \u00e9 verdadeiramente extraordin\u00e1rio), o desemprego baixou quase \u00e0 metade, para 3,9%. A ideia era de, a partir do aumento da popularidade advinda dessas medidas, lan\u00e7ar medidas de democratiza\u00e7\u00e3o do Estado, em particular a Assembleia Popular, esp\u00e9cie de c\u00e2mara legislativa \u00fanica para poder prosseguir com as reformas. Com isso, cinco meses ap\u00f3s assumir o poder, a UP conseguiu 51% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es municipais.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-1291\" style=\"margin: 10px 5px 10px 10px; float: right;\" alt=\"allende_resistencia_moneda\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/allende_resistencia_moneda.jpg?resize=360%2C264\" height=\"264\" width=\"360\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/allende_resistencia_moneda.jpg?w=360 360w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/allende_resistencia_moneda.jpg?resize=300%2C220 300w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/>Mas as coisas n\u00e3o corriam exatamente como previam os dirigentes da UP: a burguesia obtinha enormes lucros com a reativa\u00e7\u00e3o da economia, mas n\u00e3o investia quase nada, por seu car\u00e1ter parasit\u00e1rio e principalmente por um c\u00e1lculo pol\u00edtico: at\u00e9 que ponto os dirigentes da UP poderiam controlar os trabalhadores? A mesma desconfian\u00e7a teriam os setores privilegiados das classes m\u00e9dias urbanas e rurais.<\/p>\n<p>Por outro lado, as massas, depositavam enormes expectativas no governo e o apoiavam, sentindo que havia chegado o momento de conquistar seus direitos tanto tempo postergados. As ocupa\u00e7\u00f5es de terras explodiram, inclusive superando os limites da reforma burguesa herdada da DC: ao contr\u00e1rio de respeitar o limite de 80 hectares de irriga\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, o que deixaria cerca de 40% das melhores terras nas m\u00e3os dos grandes e m\u00e9dios propriet\u00e1rios, os camponeses resolveram adiantar-se e come\u00e7aram a ocup\u00e1-las, organizando-se em conselhos camponeses aut\u00f3nomos dos oficiais e propondo a radicaliza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria. Papel importante tiveram os mapuches, povo ind\u00edgena conquistado e espoliado desde a \u00e9poca dos espanh\u00f3is, que pediam a restitui\u00e7\u00e3o de suas terras. A rea\u00e7\u00e3o do governo foi dupla : condenou, inclusive pela palavra do pr\u00f3prio Allende, a radicaliza\u00e7\u00e3o, mas, para n\u00e3o perder o controle acelerou a reforma agr\u00e1ria, a tal ponto que em dois anos se cumpriram as metas para seis anos&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que tenha sido do campo, da prov\u00edncia de Linares, de onde tenha surgido a primeira contesta\u00e7\u00e3o organizada, pela esquerda, \u00e0 pol\u00edtica do governo: o congresso de camponeses daquela prov\u00edncia, em 1971, exigiu o aprofundamento da lei de reforma agr\u00e1ria herdada da DC que deixava as melhores terras nas m\u00e3os dos grandes propriet\u00e1rios, pedindo a diminui\u00e7\u00e3o do limite expropri\u00e1vel para 40 hectares de irriga\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e o fim da possibilidade de os latifundi\u00e1rios reservarem as melhores terras para eles, assim como as suas m\u00e1quinas e os seus animais.<\/p>\n<p>Nas cidades, os trabalhadores come\u00e7aram a reivindicar melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, as greves continuam a aumentar exponencialmente. Muitas empresas foram ocupadas para for\u00e7ar a sua nacionaliza\u00e7\u00e3o, mesmo aquelas que n\u00e3o preenchiam os crit\u00e9rios definidos pela UP (n\u00e3o havia uma lista definida nem havia possibilidade de passar uma lei pelo congresso, dominado pela direita).<\/p>\n<p>Por exemplo, a tecelagem Yarur, de propriedade de uma das fam\u00edlias mais ricas do pa\u00eds, era uma das candidatas, mas o governo n\u00e3o havia anunciado a sua nacionaliza\u00e7\u00e3o. Os dirigentes sindicais da f\u00e1brica que eram da UP e os trabalhadores de base precipitaram um conflito laboral, ocuparam a empresa e pediram a sua passagem para a APS. Como conta o historiador Peter Winn (<em>Tecedores da Revolu\u00e7\u00e3<\/em>o), depois de muito pressionar o governo e contando com a oposi\u00e7\u00e3o pessoal de Allende, os trabalhadores o dobraram e o governo utilizou uma das chamadas brechas legais, lan\u00e7ando m\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o antiga e em desuso para intervir na empresa. Segundo o autor, nos \u00e1speros di\u00e1logos, Allende foi claro e disse: &#8220;Se eu ceder a voc\u00eas, outros far\u00e3o o mesmo&#8221;. E, efetivamente, v\u00e1rias outras empresas seguiram o mesmo caminho.<\/p>\n<p>Os moradores sem-teto, que, entre ocupa\u00e7\u00f5es e favelas, constitu\u00edam cerca de 20 a 25% da popula\u00e7\u00e3o de Santiago, seguiram ocupando terrenos e exigindo a constru\u00e7\u00e3o de casas e melhorias. Chamados genericamente de &#8220;pobladores&#8221;, este movimento atingiu um alto grau de organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, chegando a ter verdadeiras comunas populares, como a ocupa\u00e7\u00e3o &#8220;Nueva La Habana&#8221;, que chegou a reunir 9 mil pessoas sob a influ\u00eancia de um organismo para-partid\u00e1rio do Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1rio (MIR), o MPR (Movimiento de Pobladores Revolucion\u00e1rios).<\/p>\n<p>O MIR era uma organiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pertencia formalmente \u00e0 Unidade Popular e havia sido formado originalmente por dissidentes do PS, trotskistas e independentes e depois seguiu uma linha castrista sob a dire\u00e7\u00e3o de Miguel Enriquez.<\/p>\n<p>Todos esses novos acontecimentos apareciam ainda como se fossem apenas um pouco mais do clima de ascenso e crise que se vivia antes da posse de Allende, com uma maior confian\u00e7a por parte dos trabalhadores porque sentiam que o governo estava supostamente ao seu lado ou pelo menos que n\u00e3o usaria a repress\u00e3o, como havia prometido solenemente.<\/p>\n<p>Em julho de 1971 o Congresso aprovou por unanimidade a nacionaliza\u00e7\u00e3o completa das minas de cobre e Allende prop\u00f4s que as empresas (americanas) fossem compensadas financeiramente, mas que os lucros extraordin\u00e1rios auferidos nos \u00faltimos 15 anos fossem descontados, o que por press\u00e3o popular acabou sendo confirmado pelos \u00f3rg\u00e3os do estado. Na verdade, o c\u00e1lculo que se fazia \u00e0 \u00e9poca era que as empresas mineradoras haviam lucrado tanto como todo o investimento em capital fixo no pa\u00eds durante sua hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>Com isso, o imperialismo americano decide impor o chamado &#8220;bloqueio invis\u00edvel&#8221; do pa\u00eds, cortando os cr\u00e9ditos para as importa\u00e7\u00f5es, bloqueando a renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa do pa\u00eds, entrando em ju\u00edzo para confiscar as exporta\u00e7\u00f5es de cobre chilenas e financiando cada vez mais os movimentos de oposi\u00e7\u00e3o ao governo. O nervosismo do imperialismo se explica pela situa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina naquele per\u00edodo, com a desestabiliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses, como Argentina, Uruguai e Bol\u00edvia, no marco da iminente derrota no Vietname e os reflexos da crise de 68 ainda bem presentes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Come\u00e7a a polariza\u00e7\u00e3o extrema entre as classes fundamentais<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao final de 1971 vai lentamente mudando: a oposi\u00e7\u00e3o burguesa reorganizou-se; foi feita a primeira manifesta\u00e7\u00e3o de massas contra o governo, com as senhoras de classe m\u00e9dia orquestrando a &#8220;marcha das panelas vazias&#8221;, facto que coincidiu com a visita de um m\u00eas de Fidel Castro ao pa\u00eds, quando deu seu apoio \u00e0 chamada &#8220;via pac\u00edfica ao socialismo&#8221;; a produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a cair por falta de investimentos; a infla\u00e7\u00e3o recome\u00e7ou a subir; e as divisas do pa\u00eds esgotaram-se, dificultando a importa\u00e7\u00e3o de bens de consumo e insumos para a produ\u00e7\u00e3o, o que levou o governo suspender o pagamento da d\u00edvida externa pela simples impossibilidade de continuar a pagar.<\/p>\n<p>Frente a isso, a UP come\u00e7ou a deliberar mudar de rumo. Foram v\u00e1rias reuni\u00f5es na primeira metade de 1972, quando finalmente a linha econ\u00f3mica do governo foi mudada. Foi demitido o ministro Pedro Vuskovic, independente, e assumiu Orlando Millas, do PC, com a orienta\u00e7\u00e3o de frear as nacionaliza\u00e7\u00f5es e os aumentos salariais e negociar um acordo com a DC sobre a extens\u00e3o da APS.<\/p>\n<p>Pois foi naquele ano de 1972 que tudo realmente come\u00e7ou a mudar de curso no que toca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de luta das massas e \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o burguesa.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer que as nacionaliza\u00e7\u00f5es previstas pelo governo da UP n\u00e3o englobariam mais do que 20% dos trabalhadores industriais do pa\u00eds, ou seja, a pol\u00edtica de alian\u00e7as proposta deixava de fora o restante dos trabalhadores industriais, sem contar os trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, os desempregados, os artes\u00e3os e um largo percentual de trabalhadores rurais n\u00e3o integrados \u00e0 reforma agr\u00e1ria. Um autor chileno, Fernando Mires, calcula que ficavam de fora 1,7 milh\u00f5es de pessoas, em uma for\u00e7a de trabalho que era de cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas&#8230;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-1292\" style=\"margin: 10px 5px 10px 10px; float: right;\" alt=\"mineiros_chile\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/mineiros_chile.jpg?resize=350%2C224\" height=\"224\" width=\"350\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/mineiros_chile.jpg?w=350 350w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/mineiros_chile.jpg?resize=300%2C192 300w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/>Al\u00e9m disso, o m\u00e9todo preferido da UP para nacionalizar era o de comprar as a\u00e7\u00f5es das empresas, o que foi feito em especial com os bancos; isso n\u00e3o tinha nenhuma semelhan\u00e7a com uma nacionaliza\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter socialista, que expropriava aqueles que tinham se apoderado por muitos anos da riqueza produzida por seus trabalhadores. Por press\u00e3o dos trabalhadores e pela resist\u00eancia da patronal, as nacionaliza\u00e7\u00f5es por esse m\u00e9todo n\u00e3o mais foram poss\u00edveis e o governo utilizou os m\u00e9todos de interven\u00e7\u00e3o e requisi\u00e7\u00e3o das empresas, que tinham o inconveniente de perpetuar o conflito com os antigos propriet\u00e1rios nos meandros do aparato legal do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por outro lado, segundo o conv\u00e9nio CUT-governo de 1971, sobre a participa\u00e7\u00e3o nas empresas da APS, o modelo de gest\u00e3o seria dominado pelo Estado: a dire\u00e7\u00e3o das empresas ficou nas m\u00e3os de um diret\u00f3rio com maioria nomeada pelo governo e a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores resumia-se em geral aos comit\u00e9s de produ\u00e7\u00e3o que ajudavam a implementar a pol\u00edtica preferida do governo, impulsionada em especial pelo PC, a chamada &#8220;batalha da produ\u00e7\u00e3o&#8221;, que levou a que a produ\u00e7\u00e3o das empresas da APS tivesse resultados espetaculares antes que a crise econ\u00f3mica e o mercado negro n\u00e3o se tornassem dominantes.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria APS come\u00e7aram a haver muitas cr\u00edticas ao modelo, exigindo aumento da participa\u00e7\u00e3o real dos trabalhadores, apontando em dire\u00e7\u00e3o ao controle efetivo das empresas, como se expressou, por exemplo, no Encontro de Empresas T\u00eaxteis da APS, o principal setor industrial nacionalizado, realizado em meados de 1972.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a formar-se, no calor dos acontecimentos e da press\u00e3o das massas, uma polariza\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria UP: contra a posi\u00e7\u00e3o de Allende e do PC, alinhou-se a ala esquerda, maiorit\u00e1ria, do PS, mais o MAPU, a Esquerda Crist\u00e3 (uma nova cis\u00e3o da DC ocorrida ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Allende) e, de fora da Unidade Popular, o MIR. Os lemas da \u00e9poca eram &#8220;consolidar para avan\u00e7ar&#8221; e &#8220;avan\u00e7ar sem conciliar&#8221;, o que parece um jogo de palavras, mas significava que amplos setores das massas come\u00e7aram a manifestar um enfoque diferente sobre a forma de enfrentar os patr\u00f5es e a rea\u00e7\u00e3o, sem deixar de apoiar o governo.<\/p>\n<p>Em maio, a direita prop\u00f5e-se a ocupar as ruas de Concepci\u00f3n, a segunda cidade industrial do pa\u00eds; a ala esquerda da UP e o MIR lideraram uma das maiores manifesta\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria da cidade a fim de impedi-lo, sendo reprimidos pela pol\u00edcia sob as ordens do prefeito do PC. Mais tarde, em julho, realiza-se a chamada Assembleia Popular de Concepci\u00f3n, na verdade um f\u00f3rum p\u00fablico onde a esquerda debateu os rumos do processo chileno, com a presen\u00e7a independente, pela primeira vez, de v\u00e1rios organismos sociais, onde se pediu essencialmente a convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Popular para implementar o programa da UP. Mesmo assim, foram publicamente desautorizados por Allende que reclamou da tentativa de se criar uma nova dire\u00e7\u00e3o para o movimento popular.<\/p>\n<p>Em junho um acontecimento de grande magnitude ocorreu: a energia das massas come\u00e7a a se expressar em lutas mais radicais, como j\u00e1 acontecia em todo o pa\u00eds, com o aumento ainda maior do n\u00famero de greves ilegais, ocupa\u00e7\u00f5es, barricadas nas ruas. Como em todos os grandes processos revolucion\u00e1rios, come\u00e7aram a surgir organismos mais amplos, para dirigir as lutas, que haviam se ampliado e n\u00e3o mais poderiam ser levadas a bom termo pelas estruturas tradicionais, no caso da CUT. E isso se produziu, como costuma ocorrer sempre em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, da forma menos esperada.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O primeiro cord\u00e3o industrial: Cerrillos-Maipu<\/strong><\/p>\n<p>A regi\u00e3o de Cerrilos, ao sul da capital, era a principal concentra\u00e7\u00e3o fabril de Santiago, contando com 46 mil trabalhadores espalhados por 250 f\u00e1bricas (o pa\u00eds contava com 550 mil oper\u00e1rios industriais). A maior parte das f\u00e1bricas da regi\u00e3o era moderna e n\u00e3o estava contemplada nos planos de nacionaliza\u00e7\u00e3o do governo, muito menos com a redu\u00e7\u00e3o de seu n\u00famero sob a nova orienta\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da UP. Algumas dezenas de f\u00e1bricas mobilizaram-se, e os trabalhadores ocuparam as ruas do distrito, chegaram a ocupar o Minist\u00e9rio do Trabalho, dirigido por Mireya Baltra, comunista.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-1293\" style=\"margin: 10px 10px 10px 5px; float: left;\" alt=\"cordones_industriales\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/cordones_industriales.jpg?resize=360%2C212\" height=\"212\" width=\"360\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/cordones_industriales.jpg?w=360 360w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/cordones_industriales.jpg?resize=300%2C177 300w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/>Esse movimento chocava-se frontalmente com os novos planos da Unidade Popular de frear as nacionaliza\u00e7\u00f5es e ainda uniu-se \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es dos camponeses da regi\u00e3o. O cord\u00e3o Cerrillos foi formado como uma coordena\u00e7\u00e3o entre os sindicatos de f\u00e1brica da regi\u00e3o (os sindicatos chilenos eram organizados por f\u00e1brica), passando por cima da compartimenta\u00e7\u00e3o imposta pela lei sindical e pela estrutura da CUT que n\u00e3o tinha organismos locais para coordenar as lutas, adotando uma forma territorial de organiza\u00e7\u00e3o. A plataforma de funda\u00e7\u00e3o do cord\u00e3o j\u00e1 anuncia uma clara press\u00e3o para radicalizar o processo, pedindo, al\u00e9m da passagem de muitas f\u00e1bricas para a APS, o controle oper\u00e1rio sobre todas as demais empresas na cidade e no campo, o estabelecimento de uma assembleia popular em substitui\u00e7\u00e3o ao parlamento burgu\u00eas e, sem deixar de reafirmar a legitimidade popular do governo, consideravam apoi\u00e1-lo &#8220;na medida em que este interpretasse as lutas e as mobiliza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores&#8221;, o que dava uma nota bem mais cr\u00edtica ao movimento social.<\/p>\n<p>Posteriormente, organizaram-se mais cerca de 30 cord\u00f5es industriais em Santiago e ao longo do pa\u00eds. Eles contaram com um grau desigual de ades\u00e3o e massividade, dependendo das conjunturas. Assim, durante as grandes crises que analisaremos a seguir tiveram um papel destacad\u00edssimo, assumindo, a partir de sua origem sindical tarefas claramente pol\u00edticas, refluindo posteriormente para reuni\u00f5es de dirigentes sindicais com milit\u00e2ncia em partidos mais \u00e0 esquerda (esquerda do PS, MIR) sem se independizarem do governo, funcionando como uma esp\u00e9cie de press\u00e3o de massas para tentar radicaliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O lock-out de outubro e o surgimento de uma situa\u00e7\u00e3o abertamente revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>A burguesia e o imperialismo, utilizando m\u00e9todos que j\u00e1 haviam experimentado em outros pa\u00edses e conjunturas, como no Brasil de Jango, come\u00e7aram a estimular os setores de classe m\u00e9dia e todos os descontentes com o governo e se propuseram a lan\u00e7ar uma ofensiva final para derrubar ou fazer capitular a UP.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com uma greve de camionistas privados contr\u00e1rios \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma empresa regional de transportes estatal no sul e que se estendeu a todo o Chile. Num pa\u00eds t\u00e3o longo e estreito, o c\u00e1lculo \u00e9 que isso faria o governo capitular rapidamente. Somaram-se as associa\u00e7\u00f5es de profissionais liberais, em especial os m\u00e9dicos, os estabelecimentos comerciais, o transporte urbano e a patronal industrial. Era o locaute patronal massivo&#8230;<\/p>\n<p>O governo e a CUT reagiram formalmente, sem muita energia nem iniciativa, mas as massas deram uma resposta impressionante. Os trabalhadores decidiram que a conspira\u00e7\u00e3o burguesa para paralisar o pa\u00eds n\u00e3o prosperaria e decidiram tomas a produ\u00e7\u00e3o em suas m\u00e3os. As f\u00e1bricas foram ocupadas, os meios de transporte foram em muitos casos requisitados, muitos com\u00e9rcios foram abertos \u00e0 for\u00e7a, come\u00e7aram a organizar-se formas de controle de pre\u00e7os e de distribui\u00e7\u00e3o direta em forma massiva, contra o cada vez mais florescente mercado negro (calcula-se que cerca de metade da popula\u00e7\u00e3o de Santiago era abastecida pelos organismos populares em 1973, apesar de 70% da distribui\u00e7\u00e3o grossista estar nas m\u00e3os privadas e abastecia o mercado negro). Ah, sim, sem esquecer os comit\u00e9s de vigil\u00e2ncia para enfrentar os bandos fascistas e proteger as ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos cord\u00f5es, surgiram comit\u00e9s de coordena\u00e7\u00e3o com as lutas de bairros, os comandos comunais. Nas f\u00e1bricas e bairros, pouco importava a filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mesmo os trabalhadores democrata-crist\u00e3os aderiram a esta frente \u00fanica de classe que tinham um car\u00e1ter muito mais amplo que os setores organizados pela CUT e os partidos de esquerda. O lock-out patronal havia fracassado! E nunca antes a classe trabalhadora chilena havia expressado tal combatividade, uni\u00e3o e energia!<\/p>\n<p>Mas os dirigentes da UP n\u00e3o estavam \u00e0 altura dos seus liderados. Em vez de se apoiarem na mobiliza\u00e7\u00e3o para encurralarem e derrotarem a burguesia e os seus partidos, optaram pelo caminho da concilia\u00e7\u00e3o. Um processo que tinha come\u00e7ado como uma s\u00e9rie de reformas, todas compat\u00edveis com o sistema capitalista, havia chegado pouco a pouco a um impasse por for\u00e7a da intensa polariza\u00e7\u00e3o de classes para chegar um novo auge em outubro. Sem chegar ainda a uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o explosiva como em outras situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, como na Espanha em 1936 ou a Bol\u00edvia em 1952, mas com um grau de mobiliza\u00e7\u00e3o in\u00e9dito na Am\u00e9rica Latina h\u00e1 muito tempo, havia condi\u00e7\u00f5es para romper as amarras do legalismo e do programa auto-restritivo da UP.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi essa a conclus\u00e3o da maioria da lideran\u00e7a da UP. E mesmo os que pediam o avan\u00e7o, na ala esquerda da pr\u00f3pria UP, n\u00e3o percebiam que era preciso forjar uma alternativa independente \u00e0 UP. Na verdade, constitu\u00edam-se em outro empecilho para a radicaliza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, pois insistiam que o poder popular n\u00e3o deveria ser realmente independente e procuravam utiliz\u00e1-lo como um elemento de press\u00e3o pela esquerda nos marcos do apoio ao governo.<\/p>\n<p>Allende concluiu um acordo com a DC para incluir os comandantes das For\u00e7as Armadas no gabinete com a principal miss\u00e3o de garantir as elei\u00e7\u00f5es parlamentares de mar\u00e7o de 1973 e devolver as f\u00e1bricas ocupadas durante o lock-out de outubro. Do ponto de vista econ\u00f3mico, isso veio a ser conhecido como o plano Prats-Millas (os seus formuladores haviam sido o general Prats, comandante do Ex\u00e9rcito, e Orlando Millas, comunista e ministro de Economia), que previa reduzir a \u00c1rea de Propriedade Social das 120 empresas inicialmente previstas para somente 49. Recordemos que cerca de 200 estavam ocupadas \u00e0quele momento como fruto do lock-out de outubro. Este n\u00famero chegou a mais de 300 em 1973, agrupando cerca de 40% dos trabalhadores industriais do pa\u00eds. Quando foi oficialmente lan\u00e7ado foi duramente combatido pelos cord\u00f5es industriais com novas manifesta\u00e7\u00f5es no centro de Santiago e barricadas nos distritos industriais. O plano teve que ser convenientemente engavetado, pois o governo n\u00e3o tinha for\u00e7as para o impor.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>As elei\u00e7\u00f5es de 1973, o \u201ctancazo\u201d e a prepara\u00e7\u00e3o do golpe<\/strong><\/p>\n<p>Contrariamente a todas as expectativas, a oposi\u00e7\u00e3o burguesa n\u00e3o conseguiu os 2\/3 dos votos para declarar o impedimento de Allende, mesmo com os milh\u00f5es de d\u00f3lares despejados pelo imperialismo americano, o galopante mercado negro e a infla\u00e7\u00e3o que fechou 1972 ao redor de 200%. Com os 44% dados \u00e0 UP, a via institucional do processo chileno estava fechada, como reconheceu o principal assessor pol\u00edtico de Allende, o catal\u00e3o Joan Garc\u00e9s. Era voz corrente que o enfrentamento entre o processo revolucion\u00e1rio e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o era inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o ap\u00f3s a metade de 1972 repetiu-se de forma acentuada: a oposi\u00e7\u00e3o utilizou todas as suas armas legais, o poder Judici\u00e1rio, o Congresso, a Controladoria da Rep\u00fablica, o seu poder econ\u00f3mico, financiando o mercado negro, o desabastecimento, os lock-outs patronais, as associa\u00e7\u00f5es de classe m\u00e9dia e os seus meios extralegais, os bandos armados fascistas.<\/p>\n<p>Em 29 de junho d\u00e1-se o pen\u00faltimo ato do processo, j\u00e1 prenunciando o desastre: um regimento de tanques levanta-se em Santiago, cerca o pal\u00e1cio presidencial, mata cerca de 22 pessoas, mas n\u00e3o consegue a ades\u00e3o das demais unidades das For\u00e7as Armadas. A rea\u00e7\u00e3o popular \u00e9 espetacular, novamente, e num tempo concentrado: naquele dia, outra vez, a grande maioria das empresas foi ocupada. Uma grande manifesta\u00e7\u00e3o comandada pelos cord\u00f5es industriais vai a uma concentra\u00e7\u00e3o em frente ao pal\u00e1cio exigindo o fechamento do Congresso e a puni\u00e7\u00e3o aos golpistas. Mas Allende foi inflex\u00edvel e se apegou desesperadamente \u00e0 institucionalidade, deixando at\u00e9 de aplicar medidas elementares de saneamento dentro das corpora\u00e7\u00f5es militares, coisa que muitos governantes pelo mundo j\u00e1 fizeram sem serem revolucion\u00e1rios. Ao final da manifesta\u00e7\u00e3o apresentou os generais que, junto com Prats, haviam sido os her\u00f3is que impediram o triunfo do golpe (entre eles, incrivelmente, o pr\u00f3prio Pinochet) e declarou o estado de emerg\u00eancia, o que dava aos militares o controle do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os meses seguintes mostraram a oposi\u00e7\u00e3o preparando o terreno para o golpe: a Suprema Corte e o Congresso declararam a ilegalidade do governo, abrindo o caminho &#8220;legal&#8221; aos golpistas.<\/p>\n<p>Os militares come\u00e7aram a exercitar-se e coesionar as suas fileiras. O pretexto foi a Lei de Controle de Armas aprovada ap\u00f3s o lock-out de outubro, sem que Allende a vetasse, e que permitia que os militares realizassem opera\u00e7\u00f5es de busca e apreens\u00e3o em qualquer lugar. Com essa desculpa foram acostumando os soldados rasos a enfrentarem os trabalhadores, foram testando a resist\u00eancia dos cord\u00f5es industriais.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima e pat\u00e9tica negocia\u00e7\u00e3o foi patrocinada por Allende e o PC: um novo di\u00e1logo com a DC, j\u00e1 claramente voltada para a derrubada do governo. O jornal do PC, <em>El Siglo<\/em>, estampava a manchete, &#8220;depois de um tancazo, por que n\u00e3o um dialogazo&#8221;? E por intermin\u00e1veis cerca de 30 dias perderam tempo com uma campanha contra a guerra civil, quando havia \u00e9 que se preparar para ela&#8230;A DC exigiu a capitula\u00e7\u00e3o total (um gabinete s\u00f3 de militares, a devolu\u00e7\u00e3o de todas as empresas ocupadas, a promulga\u00e7\u00e3o de reforma constitucional que limitava drasticamente a APS e a repress\u00e3o aos cord\u00f5es industriais), o que Allende n\u00e3o podia aceitar.<\/p>\n<p>Os trabalhadores ficaram confusos e desmoralizados pela negativa do governo em contra-atacar a direita e pelas concess\u00f5es feitas. Uma \u00faltima, simb\u00f3lica e in\u00fatil concess\u00e3o foi a entrega do Canal 9 de TV, ocupado por seus trabalhadores e que conseguiam furar um pouco o bloqueio jornal\u00edstico dos monop\u00f3lios televisivos. Prevendo qualquer ataque, os trabalhadores por meio de seus sindicatos designavam guardas permanentes para proteger o canal 9.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-1294\" style=\"margin: 10px 10px 10px 5px; float: left;\" alt=\"moneda_sob_bombardeio\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/alternativa.mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/moneda_sob_bombardeio.jpg?resize=360%2C274\" height=\"274\" width=\"360\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/moneda_sob_bombardeio.jpg?w=360 360w, https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/moneda_sob_bombardeio.jpg?resize=300%2C228 300w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/>O resto j\u00e1 \u00e9 conhecido. O golpe de 11 de setembro teve pouca, mas heroica resist\u00eancia, em especial em algumas f\u00e1bricas dos cord\u00f5es. Cabem algumas considera\u00e7\u00f5es finais sobre o car\u00e1ter do governo da Unidade Popular, o seu programa e as alternativas que se estavam a gerar ao final do processo, mas que n\u00e3o tiveram tempo de amadurecer.<\/p>\n<p>O programa da Unidade Popular revelou-se equivocado, pois n\u00e3o contemplava a uni\u00e3o das amplas camadas de explorados e oprimidos do pa\u00eds e propunha uma alian\u00e7a com uma suposta burguesia nacional antimonopolista que se demonstrou estar mais ligada aos interesses do grande capital e ter uma clara concord\u00e2ncia ideol\u00f3gica com este, mesmo no momento em que auferiu imensos lucros, arrastando setores importantes da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma caudalosa pol\u00e9mica sobre a experi\u00eancia chilena. Uma corrente maiorit\u00e1ria dentro da esquerda e fora dela argumenta que o desastre se deveu \u00e0 falta de acordo com o centro pol\u00edtico (que supostamente representava a classe m\u00e9dia e a burguesia &#8220;nacional&#8221;), ou seja, a DC. Sem poder entrarmos profundamente no tema, uma observa\u00e7\u00e3o. A DC era o partido mais importante do capital no Chile, os seus setores mais progressistas haviam rompido pela esquerda e a sua base trabalhadora estava disposta a enfrentar o patronato como se demonstrou no lock-out de outubro. Por outro lado, o limitado programa de reformas da Unidade Popular numa sociedade dependente do imperialismo e tremendamente desigual abriu as comportas da luta social, o que desembocou num grandioso processo revolucion\u00e1rio, que n\u00e3o comportava solu\u00e7\u00f5es parlamentares, nem concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As classes sociais fundamentais estavam em movimento, e s\u00f3 o confronto poderia saldar contas. Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o enfrentavam-se nas ruas, f\u00e1bricas, campos e minas do pa\u00eds. O acordo com a DC significaria claramente a capitula\u00e7\u00e3o de todo o movimento social e a repress\u00e3o de sua vanguarda, o que a UP n\u00e3o se atreveu a fazer. Ficou na metade do caminho, tentando desesperadamente conter o movimento que de certa forma provocou e que a ultrapassou completamente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica militar da Unidade Popular<\/strong><\/p>\n<p>O conjunto da orienta\u00e7\u00e3o da UP j\u00e1 explica o porqu\u00ea de ter havido t\u00e3o pouca resist\u00eancia ao golpe militar. Mas no terreno da sua atitude frente \u00e0s For\u00e7as Armadas as coisas chegaram a um ponto incr\u00edvel. Durante os tr\u00eas anos de governo, em nenhum momento houve uma pol\u00edtica frente \u00e0 inevit\u00e1vel oposi\u00e7\u00e3o da oficialidade \u00e0 qualquer reforma social mais profunda. Inclusive incutiu-se um mito que depois ficou claro que n\u00e3o tinha nenhum fundamento, o suposto car\u00e1ter profissional e legalista das for\u00e7as armadas chilenas. Na verdade, elas intervieram de forma sangrenta sempre que foram chamadas, como nas greves e mobiliza\u00e7\u00f5es no governo Frei, com mortos e feridos. Em 1969 houve uma tentativa de golpe comandada pelo general Viaux, o mesmo que prepararia o assassinato do general Ren\u00e9 Schneider, mas isso n\u00e3o mudou uma v\u00edrgula esta orienta\u00e7\u00e3o suicida.<\/p>\n<p>N\u00e3o levantaram um programa de reivindica\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas e muito sentidas na base e na suboficialidade contra os privil\u00e9gios dos oficiais, a brutalidade e a falta de direitos democr\u00e1ticos, entre eles o direito de voto, e por melhorias no n\u00edvel de vida, j\u00e1 que sofriam, como o conjunto de seus irm\u00e3os de classe, com a tremenda crise econ\u00f3mica exacerbada pela luta distributiva entre as classes fundamentais da sociedade, o flagelo do mercado negro e o desabastecimento. Nenhum controle das promo\u00e7\u00f5es militares, nenhuma depura\u00e7\u00e3o de oficiais golpistas e, o principal, nenhuma propaganda antigolpista que passasse por cima da r\u00edgida estrutura militar e apelasse diretamente aos trabalhadores sob uniforme. Nem \u00e9 preciso dizer que em nenhum momento alentou-se a defesa armada do governo, \u00fanica garantia que os soldados, marinheiros e suboficiais poderiam atrever-se a rebelar-se sem que isso significasse suic\u00eddio&#8230;<\/p>\n<p>A mentalidade legalista levou a que nem houvesse uma estrat\u00e9gia de resist\u00eancia &#8211; as r\u00e1dios de esquerda foram silenciadas e n\u00e3o havia transmissores alternativos, a orienta\u00e7\u00e3o de ficar nos locais de trabalho n\u00e3o servia mais para uma situa\u00e7\u00e3o extrema&#8230;mas era tudo consequ\u00eancia de tr\u00eas anos perdidos, de n\u00e3o ter a clareza e a coragem de enfrentar a realidade do embate, coisa que a burguesia demonstrou ter de sobra.<\/p>\n<p>Estamos num terreno em que h\u00e1 poucas informa\u00e7\u00f5es, mas hoje conhecemos melhor um epis\u00f3dio simb\u00f3lico: o caso dos marinheiros antigolpistas.<\/p>\n<p>Desde a elei\u00e7\u00e3o de Allende, a tremenda divis\u00e3o de classes que existia na Marinha chilena fez com que os marinheiros e suboficiais comemorassem intensamente a elei\u00e7\u00e3o e os oficiais a considerassem uma grande derrota. Por mais de dois anos centenas de marinheiros organizados nos barcos e em terra controlavam a atividade dos oficiais e quando viram que estavam abertamente organizando o golpe tentaram alertar o governo e pedir a ajuda aos partidos de esquerda para tomarem os barcos, como havia acontecido com a revolta da Armada em 1931. &#8220;Depois do golpe ser\u00e1 imposs\u00edvel&#8221;, diziam, profeticamente. N\u00e3o receberam resposta e foram presos e barbaramente torturados.<\/p>\n<p>Allende, no dia 5 de agosto de 1973, formava um novo e final gabinete c\u00edvico-militar, ironicamente chamado de Gabinete de Seguran\u00e7a Nacional, e, para apaziguar a oficialidade da Marinha, denunciou a subvers\u00e3o feita pela ultra-esquerda, fiel \u00e0 sua estrat\u00e9gia de n\u00e3o afrontar a hierarquia militar. Somente 15 dias depois dos factos retratou-se. Que poderia ter ocorrido se fossem alentados todos os filhos da classe trabalhadora sob uniforme a que recha\u00e7assem as ordens golpistas e que o movimento sindical e popular fizesse uma campanha de massas com esse eixo sobre a base das For\u00e7as Armadas?<\/p>\n<p>Por uma dessas casualidades da vida, os marinheiros antigolpistas, em especial o principal dirigente, o sargento C\u00e1rdenas, sobreviveram, pois j\u00e1 estavam presos, e os meandros burocr\u00e1ticos das pris\u00f5es da ditadura fizeram com que n\u00e3o fossem assassinados e fossem ao ex\u00edlio. Mais de 30 anos depois, um pesquisador chileno, Jorge Magasich, produziu um belo livro, <em>Los que dijeron no<\/em>, em que conta essa hist\u00f3ria e entrevista os marinheiros.<\/p>\n<p>Nos dias do golpe, juntamente com os bols\u00f5es de resist\u00eancia, houve fuzilamentos nos quart\u00e9is e houve resist\u00eancia ativa na escola de suboficiais da pol\u00edcia, mas foram poucos, muitos menos dos que poderiam ter sido se a pol\u00edtica da UP tivesse sido distinta. Claro que sempre uma derrota como essa parece inevit\u00e1vel e seria imposs\u00edvel provar com certeza o contr\u00e1rio, mas o conjunto das condi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, os vasos comunicantes que havia entre um ex\u00e9rcito de conscritos e um movimento de massas que ocupava como nunca antes o centro pol\u00edtico do pa\u00eds n\u00e3o poderiam deixar de influir para que as divis\u00f5es surgissem. Mas para isso faltou uma pol\u00edtica por parte do governo e do conjunto da esquerda com um tempo suficiente, e n\u00e3o os \u00faltimos chamados desesperados da esquerda do PS e do MIR para que os soldados desobedecessem \u00e0s ordens golpistas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O poder popular<\/strong><\/p>\n<p>Esta foi a express\u00e3o chilena para um fen\u00f3meno recorrente nos grandes processos revolucion\u00e1rios, que \u00e9 o surgimento de organismos de poder dual que se enfrentam \u00e0 institucionalidade burguesa. A originalidade chilena \u00e9 que o termo poder popular consta no programa da UP, com uma conota\u00e7\u00e3o de apoio ao governo e como tal foi reivindicado por Allende e pela direita da UP, o PC e setores do PS. O proletariado e a esquerda chilenos tinham uma enorme tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, fruto de quase um s\u00e9culo de atividade socialista quase ininterrupta, com seus altos e baixos. Por isso, na vanguarda havia debates interessantes, ao calor dos acontecimentos. Somente para citar, havia uma interpreta\u00e7\u00e3o de que havia um poder dual dentro do aparelho de Estado, entre o governo e as demais institui\u00e7\u00f5es, numa grosseira deturpa\u00e7\u00e3o do conceito tradicional do poder dual como um poder independente e oposto ao estado e suas institui\u00e7\u00f5es como se viu em tantos processos revolucion\u00e1rios. Mas, mesmo os mais radicais dentro da UP e o MIR consideravam o governo como um aliado vacilante, mas um aliado.<\/p>\n<p>De novembro de 1972 at\u00e9 o golpe existiram v\u00e1rios foros nos quais se debateu o poder popular, com a presen\u00e7a de seus dirigentes e\/ou de dirigentes dos partidos de esquerda. Basicamente esbo\u00e7avam-se duas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira, era a de Allende e do PC, que primeiro atacaram fortemente os cord\u00f5es industriais, mas frente ao seu fortalecimento acabaram reconhecendo-os e aos comandos comunais formalmente, mas os concebiam como subordinados ao governo. Os comunistas somente ingressaram nos cord\u00f5es a partir de julho de 1973 e mesmo assim sem muita for\u00e7a.<\/p>\n<p>A segunda posi\u00e7\u00e3o era apoiada por quase todos os dirigentes dos cord\u00f5es e sustentava que eles deveriam ser aut\u00f3nomos do governo, mas n\u00e3o a ele se opor. Nenhuma corrente expressiva colocava a perspetiva de organizar uma for\u00e7a pol\u00edtica e\/ou social fora da UP, inclusive para melhor lutar contra os golpistas.<\/p>\n<p>Uma pol\u00e9mica dentro desse campo era entre os que defendiam a primazia dos cord\u00f5es industriais e os que defendiam os comandos comunais, como o MIR, argumentando que estes agrupavam ao conjunto dos explorados e que os cord\u00f5es somente poderiam ter um papel sindical. Muito ainda est\u00e1 por ser escrito sobre os detalhes do movimento real, de base, dentro da revolu\u00e7\u00e3o chilena, mas nos limitamos a observar que, mesmo sendo uma posi\u00e7\u00e3o correta em abstrato, n\u00e3o respondia \u00e0 realidade daquele momento, em que os cord\u00f5es industriais tinham um peso muito maior. Na verdade, estranhamente, esta posi\u00e7\u00e3o do MIR coincidia na pr\u00e1tica com a opini\u00e3o dos comunistas de integra\u00e7\u00e3o dos cord\u00f5es \u00e0 CUT, desconhecendo o papel claramente pol\u00edtico, muito al\u00e9m do meramente sindical, que tinham adquirido e como \u00fanica alternativa real de exercerem um papel de vanguarda social naquele momento. Uma das raz\u00f5es que possivelmente influiu para essa posi\u00e7\u00e3o do MIR foi a sua maior implanta\u00e7\u00e3o nos setores de &#8220;pobladores&#8221;, enquanto a sua inser\u00e7\u00e3o no proletariado industrial era bem reduzida ainda.<\/p>\n<p>A falta de independ\u00eancia dos cord\u00f5es e dos \u00f3rg\u00e3os de poder popular foi dram\u00e1tica quando se tratou de enfrentar o golpe que se preparava, pois se aguardavam as iniciativas do governo, que nunca vieram&#8230;por tudo isso, os cord\u00f5es somente podem ser classificados como os mais avan\u00e7ados organismos embrion\u00e1rios, potenciais, de poder dual, que poderiam ter se desenvolvido como tais se o tempo permitisse o amadurecimento das suas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O mais pr\u00f3ximo que se chegou a uma posi\u00e7\u00e3o independente foi a carta da coordena\u00e7\u00e3o dos cord\u00f5es industriais endere\u00e7ada a Allende dias antes do golpe, em que o tom j\u00e1 era de bastante dist\u00e2ncia. Ap\u00f3s refletirem sobre o significado do programa e da elei\u00e7\u00e3o da UP, sobre as concess\u00f5es feitas \u00e0 direita, enumeravam as medidas m\u00ednimas para lutar e terminavam com essas palavras que consideramos serem o ponto mais avan\u00e7ado a que ia chegando a vanguarda revolucion\u00e1ria chilena, mas que infelizmente n\u00e3o teve o tempo necess\u00e1rio para amadurecer e se fazer de massas. Outra poderia ter sido a hist\u00f3ria da classe trabalhadora e do povo do Chile e da Am\u00e9rica Latina se isso tivesse ocorrido.<\/p>\n<p>Dizia a carta: &#8220;N\u00f3s advertimos-lhe camarada que, com o respeito e a confian\u00e7a que ainda lhe temos, se n\u00e3o cumprir com o programa da Unidade Popular, se n\u00e3o confiar nas massas, perder\u00e1 o \u00fanico apoio real que tem como pessoa e dirigente e que ser\u00e1 respons\u00e1vel por levar o pa\u00eds n\u00e3o \u00e0 guerra civil que<em> <\/em>est\u00e1<em> <\/em>j\u00e1 est\u00e1 em pleno desenvolvimento, mas ao massacre frio, planificado da classe<em> <\/em>oper\u00e1ria mais consciente e organizada da Am\u00e9rica Latina. E [n\u00f3s o advertimos] que ser\u00e1 responsabilidade hist\u00f3rica deste Governo, levado ao poder e mantido com tanto sacrif\u00edcio pelos trabalhadores, habitantes, camponeses, estudantes, intelectuais, profissionais, a destrui\u00e7\u00e3o e descabe\u00e7amento, qui\u00e7\u00e1 a tal prazo, e a tal custo sangrento, n\u00e3o s\u00f3 do processo revolucion\u00e1rio chileno, mas tamb\u00e9m o de todos os povos latino-americanos que est\u00e3o lutando pelo Socialismo&#8221;.<\/p>\n<p>No entanto, essa evolu\u00e7\u00e3o era lenta, limitada ainda a uma vanguarda ampla e dificultada pelas posi\u00e7\u00f5es ambivalentes da esquerda do PS, que procurava conciliar o apoio aos cord\u00f5es e a necessidade de superar a institucionalidade capitalista com a participa\u00e7\u00e3o no governo, sem colocar a necessidade de forjar uma alternativa \u00e0 UP. Se num primeiro momento serviram de est\u00edmulo \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, depois serviram como um freio, uma justificativa elaborada desde a &#8220;esquerda&#8221;, impedindo os trabalhadores de avan\u00e7arem politicamente. Tinham a seu favor a enorme tradi\u00e7\u00e3o de legalismo dentro do movimento de massas do Chile, na cren\u00e7a no que seus dirigentes lhe diziam sobre a imparcialidade dos militares e, fundamentalmente, a confian\u00e7a em seus dirigentes, a quem atribu\u00edam muitas de suas conquistas. Sabemos como custou cara essa tradi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Falta dizer algumas palavras sobre o MIR, visto como a \u00fanica alternativa \u00e0 esquerda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UP. Em que pese a sua extrema juventude teve um crescimento importante durante os anos do governo Allende (calcula-se sua milit\u00e2ncia org\u00e2nica em cerca de 10 mil militantes, ainda que seja dif\u00edcil determinar com precis\u00e3o este n\u00famero). No entanto, tinha limita\u00e7\u00f5es claras: do ponto de vista pol\u00edtico, n\u00e3o tinha uma estrat\u00e9gia clara frente \u00e0 UP, na verdade, as suas caracteriza\u00e7\u00f5es apostavam em pressionar o governo para que radicalizasse suas posi\u00e7\u00f5es. Isso explica o seu acordo eleitoral e program\u00e1tico com a esquerda do PS para as elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 1973 e para a atua\u00e7\u00e3o dentro do movimento de massas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o para atuar no movimento de massas, fez uma transi\u00e7\u00e3o incompleta de um partido de quadros, militarista, para um partido que aspirava conquistar influ\u00eancia de massas. N\u00e3o conseguia incorporar organicamente uma grande quantidade de militantes atra\u00eddos por suas posi\u00e7\u00f5es devido aos seus m\u00e9todos internos bastante burocr\u00e1ticos (o seu congresso de 1968 foi sucessivamente adiado at\u00e9 o golpe, em que pese o ac\u00famulo de novos problemas e debates criados pela nov\u00edssima situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds), o que aumentou a sua incoer\u00eancia e as tens\u00f5es internas.<\/p>\n<p>O seu ultimatismo no movimento dificultou a sua estrutura\u00e7\u00e3o no movimento oper\u00e1rio (s\u00f3 teve 1,5% dos votos na elei\u00e7\u00e3o da CUT de 1972), mantendo a sua for\u00e7a essencialmente entre os estudantes e moradores de bairros de lata das cidades. Isso n\u00e3o nega, como no caso das demais organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda do pais, a abnega\u00e7\u00e3o e o hero\u00edsmo de seus militantes.<\/p>\n<p>No momento mais dif\u00edcil, apareceu com toda a sua for\u00e7a a principal defici\u00eancia do processo chileno: a inexist\u00eancia de uma corrente revolucion\u00e1ria que tivesse acumulado as experi\u00eancias e os quadros durante o processo revolucion\u00e1rio para poder propor \u00e0 vanguarda e \u00e0s massas a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa \u00e0 UP, com base na pr\u00f3pria experi\u00eancia da luta de classes, e n\u00e3o de forma doutrin\u00e1ria ou ultimatista. Uma alternativa \u00e0 sua variante mais reformista, PC-Allende, como \u00e0s suas variantes mais \u00e0 esquerda &#8220;a esquerda&#8221; do PS e o MIR.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><strong><strong>Waldo Mermelstein<\/strong><\/strong><strong> <\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Militante do <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.pstu.org.br\" rel=\"noopener\">PSTU (Brasil)<\/a>, viveu no Chile, como exilado pol\u00edtico brasileiro, os meses que precederam o golpe e a derrubada do governo Allende, em 1973<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O golpe militar que derrubou Salvador Allende vitimou milhares de pessoas, destruiu os partidos pol\u00edticos e as organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e imp\u00f4s o modelo precursor do neoliberalismo. N\u00e3o por acaso, os estudantes e o povo que se manifestam nestes dias \u00e0s centenas de milhares pelas ruas de Santiago [refere-se \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es de 2011, quando foi escrito este artigo] levantam a bandeira de &#8220;Se va caer, se va caer, la educaci\u00f3n de Pinochet&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1290,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[21],"tags":[],"class_list":["post-1295","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chile"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/chile_cerco_palacio.jpg?fit=361%2C231","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1290"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}