{"id":1168,"date":"2013-05-10T14:56:17","date_gmt":"2013-05-10T13:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2013\/05\/10\/o-preco-do-lucro-em-bangladesh\/"},"modified":"2013-05-10T14:56:17","modified_gmt":"2013-05-10T13:56:17","slug":"o-preco-do-lucro-em-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2013\/05\/10\/o-preco-do-lucro-em-bangladesh\/","title":{"rendered":"O pre\u00e7o do lucro em Bangladesh"},"content":{"rendered":"<p><em>S\u00e3o mais de 1000 os trabalhadores, em sua maioria mulheres, mortos em consequ\u00eancia da derrocada do edif\u00edcio Rana Plaza, a 24 de abril, em Bangladesh. No texto que reproduzimos a seguir, escrito por New Wave (Bolshevik-Leninista), fica clara a responsabilidade das grandes multinacionais do vestu\u00e1rio no verdadeiro assassinato desses homens e mulheres.<\/em><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic; line-height: 1.5;\">Entre as companhias internacionais que subcontratavam empresas para produzir no edif\u00edcio que ruiu est\u00e3o a irlandesa Primark, as espanholas El Corte Ingl\u00e9s e Mango, a canadiana Joe Fresh e a francesa Bon March\u00e9. Ao povo de Bangladesh em luta pela puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis pela trag\u00e9dia e contra a superexplora\u00e7\u00e3o e as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho que lhe s\u00e3o impostas, a nossa total solidariedade.<\/span><\/p>\n<p><strong>Desabamento de f\u00e1brica mata trabalhadores em Bangladesh<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhadores do vestu\u00e1rio em Bangladesh est\u00e3o em p\u00e9 de guerra contra a explora\u00e7\u00e3o e maus tratos cr\u00f3nicos dispensados pelos patr\u00f5es. O ponto de inflex\u00e3o foi atingido quando o pr\u00e9dio Rana Plaza, de oito andares, desabou matando v\u00e1rias centenas de trabalhadores [<em>o \u00faltimo balan\u00e7o contabiliza mais de 1000 <\/em><em>mortos<\/em>] que ali viviam. J\u00e1 h\u00e1 not\u00edcias de que trabalhadores est\u00e3o queimando f\u00e1bricas t\u00eaxteis em outros locais.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o em Bangladesh \u00e9 tensa desde o levante de Shahbag, que mobilizou estudantes e uma grande parte da intelectualidade pequeno-burguesa progressista para o julgamento dos criminosos de guerra respons\u00e1veis por crimes contra a humanidade durante a guerra de liberta\u00e7\u00e3o em 1971. Logo no in\u00edcio deste movimento, surgiram tamb\u00e9m as lutas dos trabalhadores ap\u00f3s o desastroso inc\u00eandio na f\u00e1brica de roupas Tazreen, que costumava fornecer para a Walmart [<em>multinacional americana no setor do varejo, considerada a terceira maior do mundo<\/em>]. O movimento dos trabalhadores do vestu\u00e1rio ganhou novo vigor, auxiliado pela desintegra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds, que est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>A ind\u00fastria do vestu\u00e1rio: uma ind\u00fastria rica em brutalidade<\/strong><\/p>\n<p>A economia de Bangladesh depende inteiramente da explora\u00e7\u00e3o mais vergonhosa das massas empobrecidas. Isso se reflete claramente na dram\u00e1tica condi\u00e7\u00e3o laboral dos trabalhadores do vestu\u00e1rio, exposta pelos desastres mortais que flagelam as f\u00e1bricas que dominam a sua paisagem industrial. A ind\u00fastria do vestu\u00e1rio \u00e9 historicamente not\u00f3ria na explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata, desde as f\u00e1bricas de algod\u00e3o de Manchester, no s\u00e9culo XIX, at\u00e9 as f\u00e1bricas de Bangladesh deste s\u00e9culo. A ind\u00fastria t\u00eaxtil em Bangladesh continua a ser um centro de trabalho intensivo onde os lucros s\u00e3o baseados na maior redu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do custo da m\u00e3o de obra, incluindo a sua seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 muito importante destacar que a maior parte dos 3 milh\u00f5es de trabalhadores da ind\u00fastria s\u00e3o mulheres. Os patr\u00f5es preferem empreg\u00e1-las devido \u00e0s suas especiais habilidades na costura, bem como pela maior dificuldade que enfrentam para organizar a sua luta. Esta \u00faltima \u00e9 a principal raz\u00e3o pela prefer\u00eancia por mulheres trabalhadoras no setor. O controlo e a disciplina ditatorial imposta pelos empres\u00e1rios aos trabalhadores sob o seu comando \u00e9 indispens\u00e1vel para permitir um n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o extremamente cruel.<\/p>\n<p><strong>A import\u00e2ncia da ind\u00fastria e dos grupos de interesse<\/strong><\/p>\n<p>A ind\u00fastria do vestu\u00e1rio responde sozinha por 70% das exporta\u00e7\u00f5es de Bangladesh e 10% de seu PIB (Produto Interno Bruto). Esse \u201cpoder econ\u00f3mico\u201d \u00e9 obtido com base em sal\u00e1rios \u00ednfimos que chegam a 34 d\u00f3lares por m\u00eas. N\u00e3o \u00e9 nenhuma surpresa, portanto, que todos os principais produtores t\u00eaxteis e de confe\u00e7\u00f5es estejam a investir em Bangladesh para perpetuar a explora\u00e7\u00e3o de seu povo. Igualmente n\u00e3o constitui surpresa o facto de muitas das principais empresas internacionais de varejo, lideradas por nomes como a Walmart, utilizarem Bangladesh como o destino priorit\u00e1rio da \u201cterceiriza\u00e7\u00e3o\u201d de seus produtos. Esta situa\u00e7\u00e3o \u201cfavor\u00e1vel\u201d atraiu, entre outros, investimentos indianos pesados no setor de vestu\u00e1rio, avaliados em at\u00e9 600 milh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00f3 no ano passado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de grandes interesses estrangeiros, h\u00e1 poderosos capitalistas locais, politicamente vinculados ao imperialismo, propriet\u00e1rios da maioria das 5.100 f\u00e1bricas de vestu\u00e1rio em Bangladesh. A f\u00e1brica Rana Plaza, em Savar, pertencia a um oligarca deste tipo, Sohel Rana. Politicamente, ele \u00e9 l\u00edder da ala jovem da Liga Awami, o partido do governo de Bangladesh. Estas empresas s\u00e3o, em geral, dependentes das exporta\u00e7\u00f5es para pa\u00edses desenvolvidos, principalmente os EUA, que abocanham a \u201cparte do le\u00e3o\u201d das exporta\u00e7\u00f5es t\u00eaxteis do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria do vestu\u00e1rio foi um dos principais benefici\u00e1rios da proletariza\u00e7\u00e3o provocada, entre outras raz\u00f5es, pelo terror ecol\u00f3gico imposto pela \u00cdndia com a constru\u00e7\u00e3o de uma barragem (respons\u00e1vel pela seca de muitos rios nas regi\u00f5es leste e oeste de Bangladesh ao bloquear-lhes o fluxo natural atrav\u00e9s da fronteira) e a liquida\u00e7\u00e3o da soberania mar\u00edtima (de 200 milhas) do pa\u00eds (com o dom\u00ednio de ilhas estrat\u00e9gicas perto da fronteira, a impedir assim o livre acesso \u00e0 Ba\u00eda de Bengala). O capitalismo indiano desempenha um papel vital ao arruinar a agricultura de Bangladesh dessas duas maneiras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a \u00cdndia \u00e9 fundamental para garantir seguran\u00e7a pol\u00edtica e militar ao governo de Bangladesh e, desta forma, impor o cruel empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o do interior. Vemos os resultados desta proletariza\u00e7\u00e3o nas mortes causadas pelos desastres no setor de vestu\u00e1rio. \u00c9 a combina\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios fatores econ\u00f3micos e pol\u00edticos, juntamente com a proletariza\u00e7\u00e3o da sociedade, que faz do setor t\u00eaxtil de Bangladesh o segundo maior do mundo, perdendo apenas para o da China.<\/p>\n<p><strong>Car\u00e1ter das lutas existentes<\/strong><\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas do movimento dos trabalhadores do vestu\u00e1rio em Bangladesh \u00e9 a espontaneidade de suas lutas. Uma greve nacional tamb\u00e9m foi feita antes, mas, de um modo geral, as greves nesse setor s\u00e3o espor\u00e1dicas e espont\u00e2neas. Exemplos not\u00e1veis foram a greve dos trabalhadores da ind\u00fastria t\u00eaxtil em 2006 e, novamente, em torno de 2009, seguida pelo motim dos soldados. Entre as exig\u00eancias feitas pelos trabalhadores, as principais s\u00e3o por sal\u00e1rios justos, condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho e dignidade no trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso destacar que a maioria dos 3 milh\u00f5es de trabalhadores da ind\u00fastria do vestu\u00e1rio s\u00e3o mulheres. Isso se deve, em parte, pela op\u00e7\u00e3o dos patr\u00f5es do ramo em se aproveitar da fraqueza pol\u00edtica das mulheres trabalhadoras e das dificuldades relativas de organiz\u00e1-las politicamente e dentro dos sindicatos para melhor control\u00e1-las.<\/p>\n<p>A natureza da presente greve geral \u00e9 caracterizada pela \u201craiva plebeia\u201d contra os pr\u00f3prios meios de produ\u00e7\u00e3o em que trabalham. O primeiro objeto da ira dos trabalhadores s\u00e3o as pr\u00f3prias f\u00e1bricas de vestu\u00e1rio. Logo ap\u00f3s a trag\u00e9dia em Savar, os trabalhadores incendiaram v\u00e1rias f\u00e1bricas em protesto.<\/p>\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o foi uma reminisc\u00eancia da descri\u00e7\u00e3o feita por Marx do per\u00edodo inicial da luta pelo proletariado no <em>Manifesto Comunista<\/em>: \u201cEles dirigem os seus ataques n\u00e3o contra as condi\u00e7\u00f5es burguesas de produ\u00e7\u00e3o, mas atacam os pr\u00f3prios instrumentos de produ\u00e7\u00e3o; eles destroem as mercadorias estrangeiras que competem com o produto de seu trabalho; eles destroem as m\u00e1quinas; eles queimam as f\u00e1bricas\u201d. No entanto, ao contr\u00e1rio dos oper\u00e1rios primitivos de meados do s\u00e9culo XIX, que Marx descreveu, os trabalhadores do vestu\u00e1rio n\u00e3o est\u00e3o interessados em \u201crestaurar o <em>status <\/em>abolido do trabalhador medieval\u201d, mas em alcan\u00e7ar padr\u00f5es mais elevados de bem-estar e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho!<\/p>\n<p>Esta combina\u00e7\u00e3o de raiva plebeia com uma trajet\u00f3ria mais avan\u00e7ada de luta \u00e9 potencialmente revolucion\u00e1ria, pode abrir caminho para lutas mais avan\u00e7adas no futuro pr\u00f3ximo e d\u00e1 \u00e0 luta dos trabalhadores do vestu\u00e1rio uma import\u00e2ncia imensa no cen\u00e1rio s\u00f3cio-pol\u00edtico de Bangladesh. O que falta claramente neste quadro \u00e9 a presen\u00e7a de uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria organizada, que possa canalizar essa energia crua e dirigir os trabalhadores por meio de t\u00e1ticas mais avan\u00e7adas em sua batalha contra os patr\u00f5es do vestu\u00e1rio, violentamente exploradores, e os seus protetores imperiais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a natureza dessa ind\u00fastria obriga-nos a assumir uma perspetiva internacionalista da luta. Devemos buscar a solidariedade dos trabalhadores t\u00eaxteis e do com\u00e9rcio varejista na \u00cdndia e nos EUA [e na Europa] \u00e0 luta dos seus companheiros em Bangladesh. O apoio da classe trabalhadora indiana \u00e9 fundamental, pois \u00e9 o capitalismo indiano que, atrav\u00e9s de seus agentes, garante a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sobre o pa\u00eds e forneceu os meios para que a explora\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria do vestu\u00e1rio fosse poss\u00edvel. Da mesma forma, a solidariedade dos trabalhadores em empresas de varejo dos EUA, em particular os da Walmart e outros, \u00e9 fundamental para o fortalecimento da luta e para frustrar a cadeia de produ\u00e7\u00e3o capitalista que vai de Bangladesh para a Am\u00e9rica e Europa.<\/p>\n<p><strong>Reivindica\u00e7\u00f5es a serem apresentadas<\/strong><\/p>\n<p>A luta dos trabalhadores do vestu\u00e1rio revela tudo o que \u00e9 corrupto e explorador no capitalismo em Bangladesh. Para lutar contra este sistema, devemos fazer reivindica\u00e7\u00f5es que correspondam \u00e0s necessidades mais profundas dos trabalhadores. O programa de reivindica\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias deve ser constru\u00eddo de modo a dar uma dire\u00e7\u00e3o consistentemente revolucion\u00e1ria \u00e0 luta:<\/p>\n<p><em>&#8211; Indemniza\u00e7\u00e3o para todos os trabalhadores prejudicados e puni\u00e7\u00e3o dos patr\u00f5es do vestu\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p>A luta mais urgente visa a indemniza\u00e7\u00e3o imediata dos familiares dos trabalhadores que perderam a vida ou a integridade f\u00edsica no desabamento do Rana Plaza, em abril deste ano, e no inc\u00eandio na Tazreen, em novembro de 2012. O governo precisa ser pressionado para compensar imediatamente os trabalhadores e as suas fam\u00edlias, n\u00e3o s\u00f3 para cobrir os custos de sa\u00fade, mas para cobrir a perda de perspetivas devido \u00e0 perda de renda. Al\u00e9m disso, os propriet\u00e1rios de Rana Plaza e Tazreen devem ser levados \u00e0 justi\u00e7a por sua neglig\u00eancia criminosa.<\/p>\n<p><em>&#8211; Garantia de condi\u00e7\u00f5es de trabalho decentes e leis do trabalho<\/em><\/p>\n<p>O n\u00facleo da luta dos trabalhadores do vestu\u00e1rio \u00e9 conseguir condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho, incluindo a seguran\u00e7a adequada nas f\u00e1bricas e um sal\u00e1rio digno. A for\u00e7a de trabalho em Bangladesh \u00e9 notoriamente mal paga. Esta situa\u00e7\u00e3o deve ser alterada pela aplica\u00e7\u00e3o imediata de uma lei que garanta um sal\u00e1rio m\u00ednimo que cubra as necessidades b\u00e1sicas de uma fam\u00edlia de 4 pessoas, ajustado pela infla\u00e7\u00e3o e pela alta do custo de vida. A cada aumento da infla\u00e7\u00e3o deve ocorrer um aumento proporcional do sal\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>&#8211; Nacionaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do vestu\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p>As f\u00e1bricas privadas de vestu\u00e1rio, tanto nacionais quanto estrangeiras, s\u00e3o respons\u00e1veis pelas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho em Bangladesh. Mas elas se safam por causa de sua prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para destruir esta matriz viciada de explora\u00e7\u00e3o que caracteriza a ind\u00fastria do vestu\u00e1rio no pa\u00eds \u00e9 a sua nacionaliza\u00e7\u00e3o, colocando-a sob o controlo dos trabalhadores. Esta \u00e9 uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para qualquer avan\u00e7o real nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o mais de 1000 os trabalhadores, em sua maioria mulheres, mortos em consequ\u00eancia da derrocada do edif\u00edcio Rana Plaza, a 24 de abril, em Bangladesh. 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