{"id":1079,"date":"2013-02-05T12:08:27","date_gmt":"2013-02-05T11:08:27","guid":{"rendered":"http:\/\/alternativa.mas.org.pt\/index.php\/2013\/02\/05\/revolucao-no-egito-desafia-alianca-entre-generais-e-irmandade-muculmana\/"},"modified":"2013-02-05T12:08:27","modified_gmt":"2013-02-05T11:08:27","slug":"revolucao-no-egito-desafia-alianca-entre-generais-e-irmandade-muculmana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/2013\/02\/05\/revolucao-no-egito-desafia-alianca-entre-generais-e-irmandade-muculmana\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o no Egito desafia alian\u00e7a entre generais e Irmandade Mu\u00e7ulmana"},"content":{"rendered":"<p>O segundo anivers\u00e1rio do in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o encontrou novamente dezenas de milhares de manifestantes nas ruas das principais cidades do Egito. Em Suez, Alexandria, Mahalla, Port Said e, principalmente, na emblem\u00e1tica Pra\u00e7a Tahrir, os trabalhadores e o povo eg\u00edpcio protagonizam concentra\u00e7\u00f5es, marchas e duros confrontos com a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Exigem do atual governo da Irmandade Mu\u00e7ulmana, presidido por Mohamed Morsi, que cumpra as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e econ\u00f3micas ainda n\u00e3o atendidas desde que, depois de 17 dias de intensa luta e ao custo de 850 m\u00e1rtires, derrubaram o ditador Mubarak, em fevereiro de 2011.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Nas ruas e nas pra\u00e7as eg\u00edpcias, ressoa com for\u00e7a o grito de \u201cp\u00e3o, liberdade e justi\u00e7a social\u201d e a ic\u00f3nica palavra de ordem \u201cO povo quer a queda do regime!\u201d. O governo isl\u00e2mico de Morsi, junto com a c\u00fapula militar, responde a essas mobiliza\u00e7\u00f5es com uma brutal repress\u00e3o e um maior endurecimento do regime.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara Alta do Parlamento aprovou um projeto de lei no dia 28 de janeiro, apresentado pelo pr\u00f3prio Executivo, que autoriza o Ex\u00e9rcito a \u201cgarantir a seguran\u00e7a do pa\u00eds e deter manifestantes\u201d. Desta forma, e com a miss\u00e3o de \u201cproteger as institui\u00e7\u00f5es vitais do Estado\u201d, os militares gozam novamente de completa liberdade para reprimir o povo e atuam em conjunto com a pol\u00edcia, em princ\u00edpio at\u00e9 as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas, programadas para abril.<\/p>\n<p>Mas a juventude e o povo eg\u00edpcio n\u00e3o se amedrontaram com o fato de os militares sa\u00edrem \u00e0s ruas. Ao contr\u00e1rio, as manifesta\u00e7\u00f5es tornaram-se cada vez mais massivas e radicalizadas. Com a situa\u00e7\u00e3o fugindo ao seu controle, o presidente eg\u00edpcio decretou \u201cestado de emerg\u00eancia\u201d nas cidades de Port Said, Ismailia e Suez, onde imperar\u00e1 um toque de recolher das 21h \u00e0s 6h durante um m\u00eas. Nem bem esta decis\u00e3o foi anunciada, v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es e milhares de pessoas declararam que continuariam nas ruas e desafiariam a restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o foi imediata, e o chefe do Ex\u00e9rcito e ministro de Defesa, general Abdel Fattah al Sisi, declarou em comunicado que o pa\u00eds se encontra \u00e0 beira \u201cdo colapso\u201d e que \u201cas tentativas de afetar a estabilidade das institui\u00e7\u00f5es do Estado \u00e9 um assunto perigoso, que amea\u00e7a a seguran\u00e7a nacional eg\u00edpcia\u201d. O Ex\u00e9rcito mobilizou as suas for\u00e7as em v\u00e1rias cidades, principalmente na zona do Canal de Suez, uma via de navega\u00e7\u00e3o crucial pela qual passam 17.000 barcos por ano e que rende 470 milh\u00f5es de d\u00f3lares ao Egito mensalmente.<\/p>\n<p>Desde que esta nova onda de protestos come\u00e7ou, e no fechamento deste artigo, j\u00e1 s\u00e3o quase 60 mortos e centenas de feridos devido aos confrontos com as for\u00e7as repressivas.<\/p>\n<p><strong>O regime mant\u00e9m-se mesmo sem Mubarak<\/strong><\/p>\n<p>O povo eg\u00edpcio, no contexto do processo revolucion\u00e1rio que se abriu em toda a regi\u00e3o, iniciou a sua revolu\u00e7\u00e3o movido pela fome e pela aus\u00eancia das liberdades democr\u00e1ticas mais elementares. Milh\u00f5es sa\u00edram \u00e0s ruas, fartos de d\u00e9cadas de mis\u00e9ria, explora\u00e7\u00e3o, entrega das riquezas ao imperialismo e submiss\u00e3o \u00e0 terr\u00edvel opress\u00e3o da ditadura militar de Mubarak.<\/p>\n<p>O processo revolucion\u00e1rio liberou imensas for\u00e7as sociais que sacudiram todo o pa\u00eds e que se retroalimentam com as lutas dos povos vizinhos. A revolu\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia, com uma grande participa\u00e7\u00e3o da juventude empobrecida e uma importante participa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora organizada, conquistou o seu primeiro e poderoso triunfo ao derrubar o odiado ditador Mubarak.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar da poderosa mobiliza\u00e7\u00e3o popular e devido \u00e0 trai\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00f5es tradicionais com s\u00f3lidas ra\u00edzes populares, como a Irmandade Mu\u00e7ulmana, a queda de Mubarak n\u00e3o significou a queda do regime pol\u00edtico, que continua assentado na preemin\u00eancia e nos enormes privil\u00e9gios econ\u00f3micos da alta c\u00fapula militar.<\/p>\n<p>Os militares continuaram mantendo o controle do poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico. Primeiro, por meio da Junta Militar encabe\u00e7ada pelo marechal Hussein Tantawi (que dissolveu o Parlamento e a primeira Assembleia Constituinte) e, depois, com o pacto contrarrevolucion\u00e1rio que a Irmandade firmou com o alto comando militar, pelo qual Morsi assumiu a presid\u00eancia em troca de manter os interesses econ\u00f3micos e pol\u00edticos do Ex\u00e9rcito intactos.<\/p>\n<p>Com Morsi na presid\u00eancia, os militares continuam controlando pelo menos 40% da economia local, pois s\u00e3o propriet\u00e1rios de grandes grupos empresariais e extens\u00f5es de terra. Al\u00e9m disso, as For\u00e7as Armadas do pa\u00eds continuam a receber anualmente mais de 1,4 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares dos Estados Unidos catalogados de &#8220;ajuda militar\u201d, o que as torna a institui\u00e7\u00e3o militar que mais recebe recursos financeiros do imperialismo depois de Israel. Em outras palavras, s\u00e3o os Estados Unidos que continuam a pagar os sal\u00e1rios dos generais eg\u00edpcios.<\/p>\n<p>No terreno pol\u00edtico, os militares continuam definindo e controlando o seu pr\u00f3prio or\u00e7amento sem controlo algum de qualquer outra institui\u00e7\u00e3o estatal e mant\u00eam a prerrogativa de nomear o ministro de Defesa no gabinete, que em nenhum caso pode ser um civil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, gozam de uma irritante impunidade, ao ponto de serem praticamente intoc\u00e1veis. At\u00e9 agora, nenhum comando militar importante foi condenado pelo massacre de 850 pessoas durante as mobiliza\u00e7\u00f5es que derrubaram Mubarak, sem mencionar os crimes de lesa humanidade cometidos durante a sua ditadura. H\u00e1 poucas semanas, por exemplo, um Tribunal de Apela\u00e7\u00e3o declarou nula a condena\u00e7\u00e3o do ex-ditador \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua e determinou que todo o julgamento deve ser refeito.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o regime que, mesmo sem Mubarak, mant\u00e9m-se e sustenta-se no pacto entre a Irmandade e a mesma c\u00fapula militar de sempre. A ess\u00eancia do regime bonapartista, repressor e submisso ao imperialismo continua intacta, pois o regime foi reformado (por isso a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente em muitos sentidos em rela\u00e7\u00e3o aos tempos de Mubarak), mas n\u00e3o destru\u00eddo, como foi o caso da L\u00edbia.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia da ess\u00eancia do regime configurou-se na Constitui\u00e7\u00e3o defendida por Morsi e pela Irmandade, redigida pelos isl\u00e2micos ao gosto dos generais, que, ap\u00f3s outra s\u00e9rie de violentos protestos em dezembro de 2012, foi aprovada num plebiscito com a participa\u00e7\u00e3o de apenas 32,9% dos potenciais eleitores e apesar de ter sido derrotada nos principais centros urbanos, como Alexandria e na pr\u00f3pria capital, Cairo.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que explica que amplos setores de massas sintam-se tra\u00eddos em seus anseios de conquistar verdadeiras liberdades democr\u00e1ticas e continuem a lutar pelos mesmos objetivos pelos quais lotaram as pra\u00e7as h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o combina-se com o agravamento da j\u00e1 dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que o Egito enfrenta, e que n\u00e3o parece ter solu\u00e7\u00e3o a curto prazo. No mais importante e populoso pa\u00eds do mundo \u00e1rabe, 40% da popula\u00e7\u00e3o encontra-se abaixo da linha de pobreza. Em julho de 2012, segundo as cifras do governo, o desemprego chegou a 12,6%. Na juventude, esta taxa supera os 85% entre os jovens com t\u00edtulo universit\u00e1rio e ensino m\u00e9dio, segundo dados do Minist\u00e9rio de Recursos Trabalhistas do Egito<a href=\"http:\/\/www.litci.org\/pt\/administrator\/index.php?option=com_content&amp;task=edit&amp;cid[]=3434#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><span style=\"text-decoration: underline;\">[1]<\/span><\/a>. Por outro lado, o desemprego afeta muito mais as mulheres e \u00e9 maior entre os habitantes das zonas urbanas (16,2%) que das rurais (10%). Nesses dois anos, mais de 1.500 empresas foram fechadas e o turismo, importante fonte de divisas para o pa\u00eds, est\u00e1 praticamente paralisado.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tem uma d\u00edvida externa que representa 90% de seu PIB. No ano passado, Morsi gastou cerca de 10% do PIB somente para pagar juros de empr\u00e9stimos que foram contra\u00eddos por Mubarak. O deficit fiscal (gasta-se mais do que se arrecada) \u00e9 de 10,4%.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es que movem a revolu\u00e7\u00e3o. Por um lado, um regime pol\u00edtico opressor que, pela for\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o, foi obrigado a realizar mudan\u00e7as, mas que se mant\u00e9m em sua ess\u00eancia para sustentar o Estado burgu\u00eas e defender os privil\u00e9gios de uma minoria parasit\u00e1ria de generais e capitalistas locais, que entregam o pa\u00eds ao imperialismo. Por outro, uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica insuport\u00e1vel para amplos setores das massas exploradas.<\/p>\n<p>Por isso a revolu\u00e7\u00e3o continua. Mas continua sobre novas bases objetivas e subjetivas. A juventude e o povo trabalhador sabem que s\u00e3o os protagonistas da queda de Mubarak e agora lutam para avan\u00e7ar mais.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria din\u00e2mica da situa\u00e7\u00e3o objetiva e o avan\u00e7o (em saltos) na consci\u00eancia de milh\u00f5es de trabalhadores a partir de sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coletiva fazem com que a mobiliza\u00e7\u00e3o e a revolu\u00e7\u00e3o desenvolvam-se num processo permanente. Derrubado Mubarak, agora as mobiliza\u00e7\u00f5es se dirigem diretamente contra o governo da Irmandade Mu\u00e7ulmana em conluio com os generais, o principal partido burgu\u00eas do pa\u00eds e, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>A experi\u00eancia com a Irmandade Mu\u00e7ulmana<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um facto o crescente desgaste pol\u00edtico de Morsi e da Irmandade Mu\u00e7ulmana ante a vanguarda de ativistas e setores de massas. N\u00e3o afirmamos que a Irmandade tenha perdido toda a sua base social e pol\u00edtica, mas a din\u00e2mica atual n\u00e3o indica que este partido v\u00e1 aumentar o seu prest\u00edgio, e sim o inverso.<\/p>\n<p>Com cada medida, com cada decreto ou cada repress\u00e3o aumentam as fissuras na m\u00e1scara \u201cprogressista\u201d da Irmandade. Conforme as mobiliza\u00e7\u00f5es aumentam e a experi\u00eancia \u00e9 mais concreta, mais se revela o verdadeiro rosto da Irmandade, e o seu papel de avalista da manuten\u00e7\u00e3o do regime e de instrumento do imperialismo para derrotar a revolu\u00e7\u00e3o no Egito e em toda a regi\u00e3o fica mais n\u00edtido aos olhos dos eg\u00edpcios e dos outros povos \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Em dezembro passado, quando Morsi anunciou o \u201cdecreta\u00e7o\u201d com o qual passava a concentrar quase todos os poderes e for\u00e7ava o plebiscito para impor uma Constitui\u00e7\u00e3o feita pelos militares, antioper\u00e1ria, antigreves e baseada em preceitos religiosos, milhares de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas e dezenas deram suas vidas a enfrentar esta medida.<\/p>\n<p>Mais de 40 sedes da Irmandade foram incendiadas em v\u00e1rias cidades pelas massas revoltadas. Milhares ocuparam novamente a Pra\u00e7a Tahrir e transpuseram barreiras de arame protegidas por tanques do Ex\u00e9rcito para depois rodear o pr\u00f3prio Pal\u00e1cio Presidencial. Quando houve o plebiscito, milh\u00f5es n\u00e3o foram votar ou votaram contra do texto constitucional de Morsi e dos militares.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 a mesma coisa. Novas sedes foram atacadas pelas massas, e nas pra\u00e7as h\u00e1 cada vez mais cartazes exigindo a ren\u00fancia de Morsi, algo impens\u00e1vel h\u00e1 apenas seis meses.<\/p>\n<p>Isso se explica porque a Irmandade, totalmente entregue \u00e0 tarefa de derrotar a revolu\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se obrigada a mostrar de que lado est\u00e1. Apesar de seus discursos ou de suas medidas assistencialistas para alguns setores da popula\u00e7\u00e3o, o aumento das lutas e do \u201ccaos\u201d fazem com que agora a Irmandade tenha que chamar a repress\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>Somente no domingo, dia 27 de janeiro, mais de 90 pessoas foram presas no Cairo acusadas de \u201cvandalismo\u201d e \u201csabotagem\u201d. No meio do descontrolo, a pr\u00f3pria c\u00fapula da Irmandade interpelou Morsi publicamente e exigiu mais repress\u00e3o. Mohamed Beltagy, um dos l\u00edderes mais proeminentes do Partido da Liberdade e Justi\u00e7a, o bra\u00e7o pol\u00edtico da Irmandade, censurou Morsi: \u201cO que est\u00e1 esperando para intervir?\u201d. Para dizer-lhe depois: \u201c\u00c9 seu dever parar tudo isso atrav\u00e9s de todos os meios que a Constitui\u00e7\u00e3o e a lei proporcionam\u201d. E acrescentou: \u201cinclusive a declara\u00e7\u00e3o do estado de emerg\u00eancia\u201d. (<em>El Pa\u00eds<\/em>, 27\/01\/13)<\/p>\n<p>Nem isso nem os bandos armados com paus, tanto da Irmandade como de outros setores ligados aos salafistas (setor cujo programa \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de um Estado teocr\u00e1tico isl\u00e2mico e que desde os tempos de Mubarak eram usados como for\u00e7a de choque contra as massas mobilizadas), que irrompem para dispersar as manifesta\u00e7\u00f5es, passam desapercebidos para as amplas massas mobilizadas. Toda a experi\u00eancia concreta e o desgaste da Irmandade abrem espa\u00e7o real para construir novas alternativas pol\u00edticas de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A mobiliza\u00e7\u00e3o deve continuar e unificar-se<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 o momento em que as mobiliza\u00e7\u00f5es devem continuar, ampliar-se e unificar-se em torno de um plano de luta nacional. \u00c9 fundamental avan\u00e7ar na mais ampla coordena\u00e7\u00e3o de todas as organiza\u00e7\u00f5es sindicais, juvenis e populares que enfrentaram Mubarak e que continuam se mobilizando. A luta deve continuar n\u00e3o s\u00f3 pela conquista de liberdades democr\u00e1ticas, contra as medidas repressivas do governo e contra a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o bonapartista que impera desde dezembro, mas tamb\u00e9m por medidas concretas contra o desemprego, por aumento de sal\u00e1rios e por uma reforma agr\u00e1ria radical.<\/p>\n<p>Neste contexto, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio discutir a caracteriza\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o burguesa ao atual governo de Morsi.<\/p>\n<p>Desde o final de 2012, o setor maiorit\u00e1rio da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Irmandade, que se declara \u201cliberal e laico\u201d e toma dist\u00e2ncia da \u201cera Mubarak\u201d, agrupou-se na chamada Frente de Salva\u00e7\u00e3o Nacional. Esta frente pol\u00edtica \u00e9 muito ampla e dirigida por personagens como Mohamed el Baradei e o antigo chanceler de Mubarak e ex-secret\u00e1rio geral da Liga \u00c1rabe, Amr Musa. Outras figuras, como Hamdin Sabahi, um nacionalista burgu\u00eas que foi o terceiro candidato mais votado nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e que tem um peso importante no mundo sindical e social, tamb\u00e9m cumprem um papel de destaque. A Frente de Salva\u00e7\u00e3o Nacional chamou a votar pelo \u201cN\u00c3O\u201d no plebiscito.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante, na conjuntura da luta contra o governo e o regime bonapartista, que as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias e juvenis apliquem uma pol\u00edtica de ampla unidade de a\u00e7\u00e3o contra as medidas de Morsi. Nesse sentido, \u00e9 correto coordenar atos e mobiliza\u00e7\u00f5es com todos aqueles que de fato enfrentem o regime, inclusive com esses setores burgueses.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esta pol\u00edtica n\u00e3o pode significar jamais um abandono da independ\u00eancia de classe nem deve gerar qualquer tipo de ilus\u00e3o de que a oposi\u00e7\u00e3o burguesa seja uma alternativa de mudan\u00e7a real em rela\u00e7\u00e3o a Morsi e aos militares. Por seu car\u00e1ter de classe, a oposi\u00e7\u00e3o burguesa \u201claica e democr\u00e1tica\u201d n\u00e3o \u00e9 e nem poder\u00e1 ser consequente at\u00e9 o fim na luta contra o regime, muito menos no combate ao imperialismo.<\/p>\n<p>Diante das mobiliza\u00e7\u00f5es, cada vez mais radicalizadas, o chamado da Frente \u00e9 principalmente a \u201cdialogar\u201d com o governo, pois teme, tanto quanto Morsi, que as massas ultrapassem as vias do Estado capitalista. Isso fica claro, por exemplo, no recente chamado de El Baradei, que convocou tanto Morsi como os militares para buscarem juntos uma forma de pacificar a situa\u00e7\u00e3o: \u201cNecessitamos urgentemente uma reuni\u00e3o entre o Presidente, os ministros de Defesa e do Interior, o partido governante, a corrente salafista e a Frente de Salva\u00e7\u00e3o Nacional (FSN) para dar passos urgentes a fim de deter a viol\u00eancia e come\u00e7ar um di\u00e1logo s\u00e9rio\u201d, pois \u201cnem a FSN nem o Governo querem dar cobertura \u00e0 viol\u00eancia\u201d (<em>EFE<\/em>, 30\/01).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, para al\u00e9m das diferen\u00e7as t\u00e1ticas ou relacionadas \u00e0 divis\u00e3o de cargos ou quotas de poder, tanto o setor de Morsi e dos militares como o setor integrado pelos senhores El Baradei ou Musa (cuja principal bandeira \u00e9 um \u201cgoverno de unidade nacional\u201d, que na pr\u00e1tica significa um novo pacto com a Irmandade e os militares) coincidem na vis\u00e3o estrat\u00e9gica de apaziguar a mobiliza\u00e7\u00e3o popular e derrotar a revolu\u00e7\u00e3o no Egito.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 permanente<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 por tudo isso que insistimos na necessidade de continuar e aprofundar a mobiliza\u00e7\u00e3o independente da classe oper\u00e1ria e dos setores populares. Tamb\u00e9m \u00e9 imprescind\u00edvel ir a fundo no processo, ainda que seja incipiente, de reorganiza\u00e7\u00e3o sindical da classe, que se expressa na funda\u00e7\u00e3o ou na renova\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios sindicatos e inclusive federa\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o caso da Federa\u00e7\u00e3o Eg\u00edpcia de Sindicatos Independentes (EFITU). As organiza\u00e7\u00f5es sociais e populares devem-se fortalecer e centralizar as suas mobiliza\u00e7\u00f5es em torno de um plano de luta que contemple as principais reivindica\u00e7\u00f5es de todos os setores e que seja definido democraticamente.<\/p>\n<p>Na atual situa\u00e7\u00e3o, a tarefa imediata que est\u00e1 colocada no Egito \u00e9 destruir o regime sustentado pelos generais e financiado pelo imperialismo, garantido principalmente pelo governo da Irmandade.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o deve avan\u00e7ar at\u00e9 destruir completamente o regime. A resolu\u00e7\u00e3o desta tarefa \u00e9 fundamental para que a revolu\u00e7\u00e3o possa avan\u00e7ar, \u00e9 fundamental para conquistar liberdades democr\u00e1ticas e ampliar assim a organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular, criando melhores condi\u00e7\u00f5es para construir uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u2013 isto \u00e9, oper\u00e1ria e internacionalista \u2013 para o processo.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio que todo o movimento oper\u00e1rio, juvenil e popular levante as palavras de ordem de: fora o governo de Morsi e dos militares; abaixo a Constitui\u00e7\u00e3o de Morsi e dos militares; exijamos uma nova Assembleia Constituinte para instaurar amplas e totais liberdades democr\u00e1ticas, para romper todos os acordos com o imperialismo, para expropriar os bens de Mubarak e de todos do antigo regime, e construir um Egito socialista a servi\u00e7o dos trabalhadores e do povo;<\/p>\n<p>por um aumento imediato e geral dos sal\u00e1rios que corresponda ao necess\u00e1rio para os gastos familiares; por um plano econ\u00f3mico de emerg\u00eancia e pela redu\u00e7\u00e3o imediata da jornada de trabalho sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, de forma que garanta trabalho para todos; pela expropria\u00e7\u00e3o das grandes empresas nacionais e multinacionais e do sistema financeiro!<\/p>\n<p>Desde j\u00e1, \u00e9 necess\u00e1rio lutar pela rutura completa com o imperialismo: rutura imediata do Tratado de Camp David e de toda a subordina\u00e7\u00e3o financeira e pol\u00edtica do Ex\u00e9rcito ao imperialismo e a Israel; n\u00e3o ao novo endividamento de 4,8 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares que Morsi e os militares est\u00e3o a negociar com os banqueiros de Washington; n\u00e3o ao pagamento da d\u00edvida externa, para que esses recursos sejam investidos em trabalho, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o para o povo eg\u00edpcio; rutura total com o FMI e com todos os organismos imperialistas!<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a tarefa de destruir o regime deve estar colocada na perspetiva estrat\u00e9gica de instaurar, de forma imediata, um governo oper\u00e1rio, campon\u00eas e popular baseado nas organiza\u00e7\u00f5es sociais e na sua democracia.<\/p>\n<p>Nesta din\u00e2mica, somente um governo com estas caracter\u00edsticas poder\u00e1 avan\u00e7ar nas tarefas de liberta\u00e7\u00e3o social e nacional, come\u00e7ando pela rutura completa de todos os pactos pol\u00edticos e econ\u00f3micos que sujeitam o Egito ao imperialismo e ao Estado nazista-sionista de Israel. Somente com a tomada do poder pela classe trabalhadora ser\u00e1 poss\u00edvel punir todos os crimes de Mubarak e da c\u00fapula militar e confiscar todas as suas propriedades e a enorme fortuna acumulada a partir do roubo descarado do povo e da entrega das riquezas nacionais ao imperialismo.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o no Egito, como todas as que se desenvolvem na regi\u00e3o, continua e ilumina o caminho para todos os povos do mundo. Dois anos depois, a revolu\u00e7\u00e3o mostra-se como um processo permanente, que combina tarefas democr\u00e1ticas e anticapitalistas e inter-relaciona revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, como parte deste todo que \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.litci.org\/pt\/administrator\/index.php?option=com_content&amp;task=edit&amp;cid[]=3434#_ftnref1\" name=\"_ftn1\" style=\"color: #222222; font-family: georgia, serif; font-size: 14px; line-height: 19px;\">[1]<\/a>Rianovosti, 15\/8\/2012.<\/p>\n<p><strong>Ronald Le\u00f3n N\u00fa\u00f1ez (Liga Internacional dos Trabalhadores &#8211; Quarta Internacional)<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.litci.org\/\">http:\/\/www.litci.org\/<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O segundo anivers\u00e1rio do in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o encontrou novamente dezenas de milhares de manifestantes nas ruas das principais cidades do Egito. Em Suez, Alexandria, Mahalla, Port Said e, principalmente, na emblem\u00e1tica Pra\u00e7a Tahrir, os trabalhadores e o povo eg\u00edpcio protagonizam concentra\u00e7\u00f5es, marchas e duros confrontos com a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito. Exigem do atual governo da Irmandade Mu\u00e7ulmana, presidido por Mohamed Morsi, que cumpra as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e econ\u00f3micas ainda n\u00e3o atendidas desde que, depois de 17 dias de intensa luta e ao custo de 850 m\u00e1rtires, derrubaram o ditador Mubarak, em fevereiro de 2011.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1017,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1079","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/mas.org.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/egitocontrairmandade.jpg?fit=393%2C256","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1079"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1017"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/mas.org.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}