MAS

Que partido queremos?

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Para lutar por este programa, para o dar a conhecer e o propor aos trabalhadores e ao povo é preciso um novo partido. Os partidos actuais de esquerda não estão dispostos a virar a defender um programa que seja anti-capitalista. As suas propostas são as de gerir o sistema e repartir os custos da crise entre explorados e exploradores. É assim uma necessidade imperativa a construção de um novo partido, tarefa sem a qual nenhuma das outras poderá ser levada até ao fim.

 

Um partido de combate, não um partido eleitoralista

 O partido que nos propomos a construir é um partido diferente. Um partido sem ilusões na falsa democracia que nos rege. Um partido que, sem ignorar os processos eleitorais, aposta tudo na mobilização e na organização populares e que sabe que as vitórias não se conseguem no Parlamento. Baseamo-nos numa experiência de mais de 150 anos de actividade da esquerda parlamentar. Apesar de constituírem um grande avanço, arrancado por lutas heróicas dos trabalhadores, as democracias modernas não deixam de ser democracias burguesas. Democracias em que as liberdades formais são concedidas, mas em que o direito ao trabalho, à saúde, à educação são sonegados. Democracias em que as decisões que afectam a vida do povo são tomadas em instâncias obscuras por governantes não eleitos. Democracias que, há mais de um século, têm sido o mais eficaz mecanismo da burguesia para silenciar, domesticarem e tornar inofensiva a esquerda.

Por isso, o partido que nos propomos a construir privilegiará o combate nas ruas, a organização nos bairros, nas escolas e nas empresas e não dedicará o grosso dos seus esforços, quadros e meios à actividade parlamentar e autárquica, mas sim à organização e mobilização de milhares de trabalhadores contra este sistema, este regime e esta falsa democracia. Não desprezaremos os momentos eleitorais ou eventuais possibilidades parlamentares, mas não viveremos do dinheiro do Parlamento. Os nossos deputados receberão o mesmo que um trabalhador comum, abdicarão das reformas vitalícias e outras benesses e o seu mandato será do partido e dos trabalhadores e não poderão nunca ir contra o programa que os elegeu. Só assim poderão escapar à cooptação de que foi vítima a maioria absoluta da esquerda parlamentar através da democracia burguesa.


Um partido enraizado e dirigido pelos mais explorados

 Propomo-nos a construir um verdadeiro partido das classes exploradas. Será por isso feito de trabalhadores e pelos trabalhadores, procurará construir-se entre os mais explorados e oprimidos. Será uma obsessão crescer entre os bairros mais pobres, entre os trabalhadores mais explorados, entre as mulheres trabalhadoras, a juventude e os emigrantes, e promover e formar esses militantes à condição de quadros e dirigentes. Não pretendemos construir mais um partido em que burocratas, sindicais e intelectuais, dirigem os trabalhadores. Esta não será uma tarefa fácil, mas será essencial: criar uma geração de trabalhadores que sejam dirigentes socialistas. A revolução será obra dos trabalhadores ou não será, dizia Marx. Um partido revolucionário será obra dos trabalhadores ou não será revolucionário, acrescentamos nós.


Um regime partidário centralizado e democrático

 Sabemos que o regime interno dos partidos de esquerda tem sido um dos factores de desilusão dos activistas e de reforço dos preconceitos anti-partidos. Perante isso, somos frontais: pretendemos um partido com centralismo democrático. No sentido original da expressão e não no sentido deturpado por noventa anos de estalinismo. O que é então o centralismo democrático? É um regime para a acção em que os militantes participam na vida do partido e na construção da sua política. Recusamos o modelo do centralismo burocrático que os Partidos "Comunistas" impuseram às suas fileiras sob o falso nome de centralismo democrático.

Nestes partidos, não há discussão, não há disciplina sobre os dirigentes, que tudo decidem e que fazem o que querem, não há direito a fracções ou tendências e passam-se anos e anos sem que haja congressos onde a militância seja ouvida. Quando há congressos, só são admitidas opiniões e propostas previamente aceites pela direcção. Este é o modelo do PCP e dos seus pares pelo mundo fora e recusamo-lo.

Contra este regime centralista e burocrático, os novos partidos de esquerda, como o Bloco, defendem um regime um pouco diferente, que também recusamos. Este é o regime da falsa liberdade sem controlo nem reuniões. As bases não são ouvidas porque não há reuniões, só os dirigentes é que reúnem, opinam e decidem. As bases sabem da política do partido pela televisão. Como cada um pode dizer o que quer sem que haja disciplina, os dirigentes anunciam publicamente as decisões antes de estas passarem pelos órgãos próprios, comprometendo assim o partido, que depois não pode ir contra a opinião pública de um dirigente. Claro, na base existe também liberdade de opinião. Porém, esta liberdade não tem eco nos meios de comunicação social. Mais do que mil militantes de base, o que prepondera é o que diz o parlamentar ou o colunista oficial do partido. A verdadeira direcção do partido passa a ser o Grupo Parlamentar, que age independente das direcções eleitas e define a política do partido à revelia da base e dos congressos.

Assim, os congressos, apesar de darem liberdade de tendência, são esvaziados. Os resultados políticos dos congressos são previamente anunciados à imprensa antes de a base votar e, assim, o órgão máximo do partido é transformado num comício onde sobra tempo de antena para as direcções e falta para as oposições. O resultado do congresso é definido previamente na eleição de delegados, que se dá da mesma forma que nos grandes partidos do regime, através de dirigentes e funcionários que controlam as regionais e os pagamentos de quotas anuais e, assim, levam os militantes a votar, sendo em muitos casos o único contacto que têm com a base. Claro, os dirigentes destes partidos, perante congressos que não o são, não têm qualquer pudor em aí repudiarem uma política perante a base e levarem-na a cabo pouco tempo depois à revelia do mandato que lhes foi atribuído. Exemplo clássico deste procedimento foi a intervenção do deputado do BE, Luís Fazenda, negando absolutamente em Convenção qualquer apoio a Manuel Alegre do PS nas presidenciais de 2011 para depois se tornar num dos mais fervorosos defensores do candidato socialista, lado a lado com os governantes que aplicavam a mais dura austeridade em décadas. Este modelo inovador do Bloco de Esquerda é semelhante ao que vinga no PS e na Social-Democracia clássica. É o modelo propício à estratégia eleitoralista, que se baseia num partido de aderentes afastados da vida partidária, num exército de funcionários, assessores e parlamentares. É o modelo que, por se opor ao modelo estalinista, acalentou esperanças em muitos activistas, mas que cedo se tornou factor de desilusão para milhares de lutadores.

Contrários aos modelos estalinista e social-democrata, propomos um partido com toda a liberdade na discussão e toda a unidade na acção. Um partido em que a política é discutida por todos, votada por maioria, mas aplicada por unanimidade. Um partido em que todos aplicam a decisão da maioria e em que todos depois fazem os balanços necessários para corrigir os erros. Um partido em que o colectivo prepondera sobre o individual, em que os dirigentes não têm o mais ligeiro benefício relativamente à base, em que a liberdade de opinião e a disciplina são para todos. Um partido em que os congressos são soberanos, com direito a tendências e fracções. Um partido em que a adesão é voluntária, mas a militância obrigatória. Sabemos que numa sociedade em que preponderam os discursos elogiosos ao individualismo e à independência pessoal, que insuflam a consciência anti-partidos e, em última instância, a divisão e a desorganização, a nossa proposta de partido não é fácil. Mas a revolução socialista também não o será.

E sabemos que os lutadores que já fizeram um piquete de greve, que já dirigiram uma manifestação, que já se organizaram clandestinamente contra os patrões e a ameaça de despedimento sabem que para quem quer revolucionar o mundo não há outra opção que a mais ampla liberdade na discussão – para o colectivo poder construir a melhor política – e a mais dura unidade na acção – para não facilitar a vida aos nossos adversários. Sabemos que não há infinitos modelos partidários. Até hoje, a História só nos deu a conhecer, por um lado, a desorganização e falsa liberdade individualista e o centralismo burocrático do PCP e liberalismo parlamentar do Bloco de Esquerda, por outro. Todos estes regimes desiludiram e cansaram milhões. O modelo que propomos nunca foi seriamente tentado no nosso país e na maior parte do mundo. Sê-lo-á agora e sucederá onde os outros falharam.


Uma moral revolucionária contra a corrupção e divisão de quem luta

A desagregação do capitalismo promove a desagregação de toda a sociedade, inclusivamente no campo moral e ético. A contaminação de quase toda a sociedade pela moral capitalista é um facto. A ideia de que tudo vale para se obterem benefícios pessoais é quase hegemónica. A corrupção tornou-se normal. O machismo, a homofobia e a xenofobia grassam por toda a sociedade. E tudo isto se vem considerando normal, chocando apenas quando atinge certos limites. Também a esquerda e os seus partidos se deixam contaminar por esta moral. A calúnia e o insulto facilmente substituem o debate à esquerda. Quando se discorda de alguém, tornou-se comum misturar nas discussões assuntos pessoais e mentiras sobre o passado sem preocupação com as repercussões que tais métodos têm na vida de lutadores e lutadoras. O machismo, a xenofobia e a homofobia também impregnaram os partidos de esquerda, mesmo os que, nos seus programas, combatem estes estigmas. A corrupção, o uso de dinheiros partidários, a apropriação de sedes ou outras ferramentas conseguidas pela militância alheada tornou-se normal e aceite. Claro, os prejudicados por estes métodos não são apenas os seus alvos, mas o conjunto da esquerda e da classe trabalhadora, que fica dividida, desconfiada e descredibilizada, incapaz de lutar contra o capitalismo.

Apenas uma moral férrea de solidariedade, de respeito pela diferença de opiniões entre quem luta, de recusa da calúnia, da corrupção e dos benefícios pode garantir a confiança dos explorados nas suas forças e nos seus partidos. É essa moral que pretendemos reerguer, ensinar e devolver ao movimento dos trabalhadores, sem fechar os olhos às faltas de militantes e dirigentes. Mais uma vez, não será uma opção fácil, mas é a única possível para aqueles que pretendem resistir a este sistema decadente e remetê-lo ao caixote do lixo da história.


Uma esquerda que depende apenas dos trabalhadores e militantes

Queremos um partido independente da burguesia, das suas instituições e dos seus partidos. Como sabemos que na nossa sociedade "quem paga manda" e que dificilmente uma força política põe em causa a sua base de sustento material, defendemos um partido que se auto-financie e não viva à sombra do dinheiro do Parlamento e das autarquias. O dinheiro de que necessitamos virá das contribuições mensais dos militantes e do apoio dos simpatizantes e só investiremos no que estiver ao nosso alcance. Em contrapartida, não deveremos nada a ninguém, a não ser a maior fidelidade aos trabalhadores. Só sendo independentes de empresas podemos pôr em causa a burguesia. Só sendo independentes do Estado podemos pôr em causa o capitalismo e o regime. As esquerdas que temos não são independentes. O nível de vida dos seus dirigentes é assegurado pelo dinheiro do Parlamento, das autarquias ou de Bruxelas. Por isso não mordem a mão que os alimenta. Um partido revolucionário basear-se-á no princípio oposto.


Um partido pela unidade, contra o sectarismo

 Defendemos além disso um partido que promova a unidade na acção. É verdade que as diferenças à esquerda são muitas e por isso queremos erguer uma alternativa aos partidos existentes. Mas também é verdade que essa divisão precisa de uma solução. Por isso nos afirmamos como um partido com uma voz e uma acção próprias, mas que não se cansará de batalhar pela unidade de acção sempre que esta seja possível. Em cada luta, em cada greve, em campanhas com objectivos concretos, estamos disponíveis para estar ao lado de Bloco, do PCP e de todos quantos estejam na luta. Queremos combater o sectarismo existente à esquerda, o facto de cada partido parecer muitas vezes mais interessado em defender o seu feudo pessoal, o seu aparato e o seu quinhão de eleitores do que em promover a unidade nas lutas. Essa divisão, sobretudo entre Bloco e PCP, tem sido desastrosa. Temos feito a crítica a esse sectarismo e continuaremos a fazê-la e a dizer bem alto a toda a esquerda: o facto de militarmos em partidos diferentes não nos deve impedir de estar unidos nas lutas concretas e juntar forças nas grandes batalhas que se aproximam. Somos e seremos uma ferramenta ao serviço da unidade dos que lutam.


Um partido organizado à escala mundial, como a revolução socialista

O ascenso da juventude e dos trabalhadores que hoje vivemos resgata uma das grandes tradições da classe trabalhadora a nível mundial, uma tradição que é um princípio para os lutadores socialistas: o internacionalismo. A esquerda tradicional há muito que abandonou o internacionalismo. Os Partidos Comunistas defenderam e vão defendendo a teoria do "socialismo num só país" e assim desenvolvendo um perfil nacionalista e patriótico que os leva a abraçar a burguesia que se anuncia como sendo também nacionalista. Das vezes que tiveram oportunidade de tomar o poder, esta teoria dos PC's teve resultados ainda mais nefastos, com os regimes totalitários da URSS, de Cuba, da China ou da Coreia do Norte. Também a chamada nova esquerda resume o seu internacionalismo a campanhas esporádicas direccionadas a temas internacionais ou às relações diplomáticas com partidos próximos de outros países. O sindicalismo tradicional, em que apostam estas forças de esquerda, também há muito abandonou uma perspectiva internacionalista das lutas, salvo raras e honrosas excepções. Tudo isto enfraquece as lutas numa primeira instância e, de um ponto de vista estratégico, impede o combate ao capitalismo.

Este é um sistema internacional, organizado à escala mundial e que só pode, por isso, ser derrotado na arena da luta de classes global. E se, para a vitória à escala nacional, é preciso uma ferramenta à altura, o mesmo é verdade à escala mundial. Essa necessidade permanente tem sido intuída pelos novos movimentos. A jornada internacional de lutas de 15 de Outubro, que reuniu centenas de milhares de pessoas em mais de mil cidades de todos os continentes, dá uma primeira resposta à necessidade do internacionalismo. Mas isso não chega, é preciso forjar nestas lutas a alavanca da revolução internacional, um Partido Mundial da Revolução Socialista. Esta tarefa é a primeira a que se propôs o movimento dos trabalhadores, com a Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional, a que pertenceram Marx e Engels e que precedeu os partidos socialistas à escala nacional. Ou seja, a organização internacional precedeu a nacional. É essa ordem de prioridades que queremos resgatar. Não basta acabar com o capitalismo dentro das fronteiras nacionais. É necessário alargar a revolução à escala internacional. Assim, aderimos à Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional como corrente internacional revolucionária e socialista que se propõe a reconstruir um Partido Internacional da Revolução Socialista, tarefa indispensável perante a escala das tarefas que se levantam.


Revolucionar também o mundo sindical

Queremos um partido que, em relação aos movimentos sindicais, sociais ou outros tenha apenas duas obsessões: a máxima democracia nos movimentos e a sua mobilização permanente. Recusamos o aparelhamento das forças sindicais, sociais e populares às cúpulas partidárias. O movimento sindical e outros têm de responder por si, decidir na base, nas suas próprias assembleias, por maioria. Recusamos assim o controle burocrático dos movimentos sindicais e sociais como faz o PCP com a CGTP e como tenta fazer o Bloco em todos os movimentos em que intervém. Porém, não recusamos o direito à intervenção de partidos nos movimentos, pois a democracia consegue-se dando voz e poder de decisão aos jovens e aos trabalhadores e não hostilizando aqueles que se organizam partidariamente, direito arrancado pelo sangue e suor de muitos. Recusamos ainda a criação de sindicatos e movimentos artificiais, que são colaterais sindicais ou movimentistas dos partidos. Defendemos ainda uma visão politizada e consciente para o movimento sindical. Este deve discutir política e programas para o conjunto da sociedade e não só para as empresas e o mundo laboral. Temos ainda a obsessão de levar a organização sindical aos sectores em que ela está ausente, sobretudo entre os jovens, os novos sectores da economia, as mulheres e os imigrantes.

Sabemos que tudo isto implica uma revolução no mundo sindical português que não contará com o apoio, mas com a oposição, daqueles que dirigem hoje os sindicatos e que deles vivem, estando há décadas sem trabalhar e daí retirando uma vida melhor que os trabalhadores que representam. Acabar com esses privilégios, devolver a democracia operária e uma acção combativa aos sindicatos faz também parte dos nossos desígnios. Só assim poderemos salvar o movimento sindical do gigantesco suicídio para que o empurram as direcções da CGTP e da UGT.


Um partido que resgate o marxismo

Para todas estas tarefas é preciso contar com a experiência de luta de gerações e gerações de trabalhadores que nos precederam. A experiência dos que conquistaram a jornada de oito horas, dos que fizeram a revolução de Outubro, dos que lutaram contra o fascismo ou contra as ditaduras estalinistas não nos chega apenas pela História ou pelos direitos que ainda temos, conquistados nestas lutas. Chegam-nos também sob a forma de ensinamentos científicos, sob a forma de teoria. Sob a forma da teoria marxista, actualizada pelos que seguiram as elaborações teóricas de Karl Marx empenhados na estratégia da Revolução Socialista. Das várias teorias que quiseram orientar a luta dos trabalhadores, o marxismo foi a única que passou a prova dos factos.

O marxismo não defendeu a democracia burguesa como regime perfeito através do qual se pode atingir o socialismo, tão pouco propôs que os trabalhadores apoiassem as guerras do imperialismo. Tudo isto foi defendido pela velha social-democracia e pela "nova esquerda", que negavam o marxismo. O Marxismo negou o socialismo num só país e a coexistência pacífica entre socialismo e capitalismo. Não decretou o fim das revoluções nem a supremacia do capitalismo, como o fez parte da esquerda após a queda do Muro de Berlim. O Marxismo defendeu que o capitalismo não é reformável e que arrasta a Humanidade para a barbárie através de profundas crises; defendeu que, perante isto, os explorados se põem em marcha para melhorarem as suas vidas e assim engendram a luta de classes, que é o motor da História; defendeu que a revolução socialista é permanente, internacional e que nela a classe trabalhadora tem um papel primordial.

Todos estes prognósticos são hoje confirmados pela gigantesca crise económica, pelas monumentais revoluções no Norte de África e Médio Oriente, pelo ascenso europeu, pelo renascer da chama socialista em cada canto em que os trabalhadores põem em causa o capitalismo. A falência dos partidos estalinistas – que apesar da fraseologia marxista são a sua negação – e dos partidos "anti-capitalistas" que, como o Bloco de Esquerda, retomam com uma fraseologia pós-moderna a estratégia social-democrata, demonstram também a superioridade do marxismo como teoria para interpretar e mudar a realidade. Apenas o ataque capitalista contra o marxismo, a usurpação e distorção que dele fizeram os partidos estalinistas e o abandono da estratégia revolucionária explicam porque a maioria da esquerda deixou de ser marxista. Mas voltará a sê-lo, à medida que o capitalismo agoniza em crise e as velhas e novas teorias ficam aquém dos desafios. Por isso, assumimo-nos como marxistas, conscientes da necessidade de actualizar o seu legado e de retirar de cima desta teoria científica décadas de dogmatismo, de deturpação e de acriticismo.


Um partido para retomar a revolução socialista de Abril

 Acima de tudo, queremos um partido revolucionário e socialista. Este não é um mero desejo idealista, mas uma necessidade histórica patente na história recente de Portugal. A mais recente revolução da história da Europa ocidental deu-se nas ruas que pisamos todos os dias, feita pelas pessoas, hoje muitas delas emudecidas, com que nos cruzamos quotidianamente. A serenidade do povo português é um mito ao serviço das elites nacionais, inventado pelo Fascismo e contrariado pela História.

Ao contrário do que nos diz a historiografia oficial, a revolução dos Cravos não acabou no dia em que começou, nem teve como objectivo único acabar com o fascismo e com a guerra. No seu bojo, a revolução trazia um projecto mais profundo. Um projecto que não era a conquista do estado social e da integração europeia, como se propagandeia hoje. O projecto da Revolução de 1974-75 era o de uma melhoria histórica das condições de vida do povo, de uma sociedade em que "o povo é quem mais ordena", em que a economia e a política não estão nas mãos de uma ínfima minoria, ora eleita ora designada, que gere o país contra a imensa maioria. O projecto de Abril era um projecto socialista. Tal desígnio era tão forte que ficou patenteado na própria Constituição. Mas as palavras não careciam de uma base real: na prática, os trabalhadores em luta começaram a pôr em causa o capitalismo e a construir o socialismo. A expropriação da banca, o controle e a ocupação das empresas pelos trabalhadores, a reforma agrária indicavam as bases económicas do socialismo. As assembleias nas fábricas, nos bairros ou no exército esboçavam a democracia mais avançada de todas: a que arrasa com a democracia burguesa e expressa o poder de quem trabalha.

A esse projecto faltou a ousadia de tomar o poder de Estado, a partir de onde tudo se decide. Essa ousadia não estava ausente nas ruas e nas fábricas, não era uma falha dos trabalhadores, mas dos seus partidos. Para Abril se concretizar faltou um partido socialista e revolucionário. Não faltou um povo em luta, não faltou uma revolução, não faltou um carácter socialista. Faltou apenas uma organização política que expressasse tudo isso. Apesar de usurpar o imaginário de Abril e de se auto-designar como o partido da Revolução, o PCP foi tudo menos isso. Durante os 18 meses do PREC, o PCP governou com o PS, o PSD e o CDS, opôs-se às greves, às lutas mais profundas e à reforma agrária e calou-se perante o 25 de Novembro.

O reencontro com a história da revolução socialista em Portugal é aquilo a que nos propomos. Para defender e tornar permanente as mais básicas conquistas de 74-75 é necessária uma nova revolução. Que desta vez se imponha como socialista, que leve ao poder um governo dos trabalhadores que exproprie as empresas estratégicas e a banca, que planifique a economia e controle o comércio externo, que se apoie nas organizações dos trabalhadores e lhes entregue a gestão das fábricas, das empresas e dos serviços públicos. Assim, o nosso projecto opõe-se frontalmente à democracia do capital e de qualquer forma de capitalismo, sem ilusões em qualquer democracia "radicalizada" ou "participativa" mas assente sobre a exploração. E opõe-se também à herança do estalinismo, ainda hoje tão viva. Opomo-nos tanto ao capitalismo como às ditaduras burocráticas impostas na U.R.S.S., na China, em Cuba e demais estados ditos "socialistas".

Defendemos o fim do controlo e posse dos meios de produção por uma mão cheia de capitalistas ociosos e a sua socialização pelos trabalhadores e pelo povo. E defendemos um regime com as mais amplas democracias para os trabalhadores e para a população explorada, que terão o controlo directo da sociedade, organizados em órgãos de poder popular como os surgidos em 74-75: as assembleias de bairro, de empresa, de soldados, ou outras assembleias populares que a juventude e os trabalhadores em luta construam. Foi esse o projecto da revolução de Abril e é esse o projecto do nosso Partido, um Partido dos Trabalhadores e da Juventude para a Revolução Socialista.

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Ser trotskista hoje

Ser trotskista hoje

A propósito dos 70 anos da morte de Leon Trotsky, revolucionário renegado pelo estalinismo, apresentamos este texto de Nahuel Moreno, fundador da LIT – QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional). O texto foi escrito em 1985, pelo que a análise política data da época, mas ainda assim, a sua pertinência acerca da política trotskista é elucidativa. 


Ser trotskista hoje

Comecemos por entender o que significar ser verdadeiramente marxista. Não podemos fazer um culto, como se fez a Mao ou Estaline. Ser trotkista hoje em dia não significa estar de acordo com tudo o que escreveu Trotsky sem saber criticá-lo para superá-lo, assim como a Marx, Engels ou Lenine, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não há verdades absolutas. Isso é a primeira coisa, ser trotskista é ser crítico, inclusive do próprio trotskismo.

No aspecto positivo, ser trotskista é responder a três análises e posições pragmáticas claras. A primeira, a que se houver capitalismo no mundo ou num país, não há solução de fundo para absolutamente nenhum problema: começando pela educação, a arte e chegando aos maiores problemas, como a fome, a miséria crescente, etc.

 Além disto, e apesar de não ser exactamente o mesmo, a posição de que é necessária uma luta sem piedade contra o capitalismo até à sua derrota, para impor uma nova ordem económica e social no mundo, que não pode ser outra que não a socialista.

 Segundo problema: nos locais em que que se expropriou a burguesia (falo da URSS e de todos os países que se reclamam socialistas), não há saída se não se impõe a democracia operária. O grande mal, a sífilis do movimento operário mundial é a burocracia, os métodos totalitários que existem nestes países e nas organizações operárias, nos sindicatos, nos partidos que se dizem da classe operária e que foram corrompidos pela burocracia. E este é o grande acerto de Trotsky, que foi o primeiro a empregar esta terminologia, que hoje em dia é totalmente aceite. Todos falam de burocracia, às vezes até os próprios governantes destes estados a que chamamos operários. Enquanto não se construir a mais ampla das democracias não se começa a construir o socialismo. O socialismo não é só uma construção económica. Só o trotskismo fez esta análise e também só o trotskismo concluiu que era necessária uma revolução nestes estados e também nos sindicatos para se chegar à democracia operária.

 A terceira conclusão, decisiva, é que o trotskismo é a única resposta consequente na realidade económica e social mundial, quando um grupo de companhias multinacionais domina praticamente toda a economia mundial. A este fenómeno económico-social há que responder com uma organização e política internacionais.

 Nesta era de movimentos nacionalistas que opinam que tudo se soluciona pelo próprio país, o trotskismo é o único movimento que diz que só há solução a nível da economia mundial inaugurando uma nova ordem, o socialismo. Para isto, é necessário retomar a tradição socialista da existência de uma internacional socialista, que encare a tarefa estratégica e táctica para conseguir a derrota das grandes multinacionais que dominam o mundo inteiro, para inaugurar o socialismo mundial, que ou será mundial ou não será.

 Se a economia é mundial tem de haver uma política mundial e uma organização mundial dos trabalhadores para que todas as revoluções, para que todos os países que façam as suas revoluções, se estendam à escala mundial por um lado; e por outro lado, para que a classe trabalhadora tenha cada vez mais direitos democráticos, para que seja ela a tomar o seu destino nas suas mãos pela via da democracia. 

O socialismo não pode ser senão mundial. Todas as intenções de iniciar um socialismo nacional fracassaram, porque a economia é mundial e porque não pode haver solução económico-social dos problemas dentro das estreitas fronteiras nacionais de um país. Há que derrotar as multinacionais à escala mundial para entrar na organização socialista mundial. 

Por isso, a síntese do trotskismo hoje em dia é que os trotskistas são os únicos no mundo inteiro que têm uma organização mundial (pequena, débil, tudo o que se quiser), mas a única internacional existente, a Quarta Internacional, que retoma a tradição das internacionais anteriores e a actualiza frente aos novos fenómenos, mas com a visão marxista: que é necessária uma luta internacional.

 

Nahuel Moreno 1985

 

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