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100 Anos da Revolução Russa: resgatar no passado uma promessa de futuro

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sovieteNo centenário da Revolução Russa uma questão parece incontornável: é impensável retomar satisfatoriamente a referência histórica da mais profunda experiência revolucionária e a que mais seriamente ameaçou a ordem do capital, sem compreender e abordar, ao mesmo tempo, o seu trágico desfecho.

Ao invocarmos o outubro russo, imediatamente emerge a incerteza perturbadora: não seria retomar um projeto e uma experiência fracassados, como evidenciariam a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1991? Esses acontecimentos têm a escala do fim de todo um período histórico e, com sua densidade, pesam sobre o tempo presente. Na cronologia do tempo ajustada às viragens bruscas da história indicam, na expressão de Eric Hobsbawm, o fim do “breve século XX” que teria início em 1914 e término em 1991, “o período que começa em Sarajevo e (como agora podemos tristemente reconhecer) também termina em Sarajevo, ou melhor, com o colapso dos regimes socialistas da União Soviética e, consequentemente, da metade oriental da Europa”.1

De maneira geral os propagandistas do capital e a imprensa de mercado partem do fim para comprometer o início. A Revolução Russa de 1917 e os processos do Leste Europeu, dos finais da década de 1980 e início dos anos 1990, são tomados em bloco, numa linearidade espantosa que, de resto, precisa ignorar a própria história.

A versão que predomina no senso comum é a de que a tomada do poder pela classe trabalhadora, inaugurada pela Revolução Russa, fracassou; de que a ascensão de Stálin e o regime por ele inaugurado, com toda a sua brutalidade, perseguições e execuções de opositores; com a subjugação de povos inteiros eram o resultado natural do desenvolvimento linear do programa de Lenin e do Partido Bolchevique e a revolução não passaria de um “golpe”. Nos casos mais insidiosos e superficiais, o fim da URSS representaria a “evidência” da inviabilidade das próprias concepções de Marx.

Existem inúmeros fatos históricos que contradizem essa abordagem. Um dos mais trágicos remete para a perseguição e execução, por parte do regime stalinista, na segunda metade dos anos 1920 e durante toda a década de 1930, da quase totalidade dos dirigentes do Partido Bolchevique à época da Revolução de Outubro.2 Poderíamos também citar o esforço ingente, quase infinito, por parte da burocracia, de produzir falsificações históricas, de desfiguração, supressão de documentos e proscrição de livros que retratavam fatos e a participação de personagens centrais no processo revolucionário.3 Esse intento, aliado a extinção física de milhares de revolucionários que sobreviveram à guerra civil, nada mais pretendia que, por outros meios, desfigurar a memória coletiva e reconfigurar a própria história da Revolução. Não seriam esses dois aspectos evidências mais que eloquentes da ruptura entre a Revolução Russa e o regime que se estabeleceu em meados dos anos 1920 sob a condução de Stálin?

Nesta exposição, nos deteremos em uma questão que nos parece de grande importância para a compreensão da ruptura operada pela burocracia soviética, personificada em Stálin, com a perspectiva original do Partido Bolchevique, com os líderes mais proeminentes da revolução, como Lenin e Trotsky, mas, fundamentalmente, com premissas marxistas. Trata-se do preceito de que o socialismo, sendo um modo de produção superior ao capitalismo, isto é, que é a superação positiva de suas contradições, parte, ao mesmo tempo, de suas realizações. Sendo assim, é inconcebível para Marx – e para o posterior programa bolchevique original – qualquer possibilidade duradoura de superação do capital que não tivesse, como ponto de partida, o próprio mercado mundial que – apesar da anarquia da produção e concorrência – já articulava a economia numa rede de braços, de matérias primas, produtos, serviços e tecnologias em escala planetária. Aspectos fundamentais para a produtividade do trabalho e para a potencial satisfação das necessidades humanas.4

Não se trata de uma ruptura teórica, sem consequências políticas. Em verdade, a ruptura com a perspectiva da revolução internacional – ou, nas concepções de Trotsky, da Revolução Permanente – foi instrumento de luta política, conscientemente manejada pela burocracia soviética na luta no interior do Partido Bolchevique e na sociedade soviética e que, ao fim, comprometeria a sua própria existência.

Uma questão emerge flagrante: como e porque Stálin assumiu a direção do Partido e, logo, do Estado Soviético? Uma resposta simplista remeteria para jogos e intrigas em gabinetes ministeriais ou para as qualidades pessoais, se assim podemos nos expressar, do próprio Stálin. Trotsky, na obra em que analisa o processo de degeneração da Revolução Russa e a vitória de Stálin, argumenta que em relação ao desenvolvimento da nascente economia soviética e as contradições sociais que persistiam, a Oposição de Esquerda – grupo que disputava os rumos do Partido Bolchevique e da própria Revolução nos anos 1920 – oferecia analises mais precisas e antevia com muito maior êxito os dilemas do desenvolvimento econômico em oposição ao que a camada de dirigentes, que se amoldava ao nascente estrato social burocrático, desenvolvia. Não obstante, conforme o Revolucionário Russo:

Essa afirmação [de que a análise da ‘Oposição de Esquerda’ era infinitamente mais justa] parece, inicialmente em contradição com o simples fato de ter sido a fração do partido menos capaz de prever e alcançar incessantes vitórias, enquanto o grupo mais perspicaz caminhava de derrota em derrota. Essa objeção, que por si mesma se apresenta ao espírito, só é convincente para quem, ao aplicar o pensamento racional à política, não vê mais que um debate lógico ou uma partida de xadrez. Ora, a luta política é, no fundo, a dos interesses e das forças, não dos argumentos. A qualidade dos dirigentes de modo algum é indiferente aos êxitos dos combates, mas não é o único fator, nem mesmo o decisivo. Os campos adversários exigem, por outro lado, chefes à sua imagem.”5

Trotsky, portanto, desloca a análise para as razões materiais que sedimentaram as bases sociais que permitiu a vitória do projeto personificado em Stálin a partir de uma determinada correlação de forças. A ascensão de Stálin é resultado de carências materiais e agudas contradições que persistem na sociedade soviética e que estimularam poderosas forças sociais. A ameaça externa, o isolamento e o atraso herdado do passado envolvem a sociedade soviética num círculo de contradições sociais que conduzem ao fortalecimento do Estado numa estrutura despótica, a partir da burocracia, para arbitrar os conflitos sociais nascidos da escassez.

Em 1917, a Rússia ingressou em sua segunda revolução – a de outubro – porque as contradições internas foram potencializadas ao extremo pela sua participação na Primeira Guerra Mundial. Na aliança militar da qual participou o império russo, em troca de capital e tecnologia da França e da Inglaterra, o czar oferecia – parafraseando a liturgia cristã – o corpo e o sangue de seu povo. Numa população estimada em 150 milhões de habitantes, foram mobilizados 15 milhões de soldados.6 Em torno de 4 milhões foram feridos ou feitos prisioneiros e 1,5 milhão foram mortos. Portanto, o pais que realizou a sua segunda revolução no curto período de 8 meses, tinha sua economia destroçada pela guerra. Os braços que plantavam e colhiam nos campos, que teciam e regulavam engrenagens nos centros urbanos foram deslocados para a guerra imperialista, cujos únicos interessados eram a aristocracia, os credores internacionais – franceses e ingleses principalmente – e a burguesia que viu no conflito a possibilidade de alavancar lucros.

Entre os países imperialistas que participam da guerra, a Rússia constitui, nas palavras de Lenin, o elo mais frágil. Com um enorme contingente de homens, carentes de instrução e cultura (a imensa maioria da população era analfabeta); com uma maioria camponesa que ainda utilizava instrumentos rudimentares; sem tecnologia e equipamentos, o atraso econômico relativo se manifesta também nos campos de batalha. Os estragos na estrutura econômica e no tecido social da Rússia não foram insignificantes.

Em 1917, Lenin – ainda em seu exílio na Suíça – toma conhecimento da Revolução de Fevereiro. Antes que possa chegar em território russo, por meio de cinco cartas, escritas no início de março, empreende uma análise perspicaz das forças sociais que convergiram para o fevereiro russo e que conduziram a queda do czar. 7 Apreende com acuidade as contradições sociais e a dinâmica das forças em movimento e faz dessa compreensão um vigoroso instrumento para intervir no processo histórico.

O horizonte de Lenin quanto à escala da revolução e o enquadramento das particularidades da Rússia na conjuntura internacional aberta pela guerra são enunciados claramente no título e nas duas primeiras frases da primeira carta, que concebe a Revolução de Fevereiro como “A primeira etapa da primeira revolução” / “A primeira revolução gerada pela guerra mundial imperialista eclodiu. A primeira, mas certamente, não a última”.8

Após resgatar a importância da experiência da revolução de 1905, ele prossegue:

A burguesia não foi capaz de adiar por muito tempo a crise revolucionária gerada pela guerra. A crise cresce com força irresistível em todos os países, começando pela Alemanha, a qual, na expressão de um observador que a visitou há pouco, atravessa uma ‘fome genialmente organizada’, e terminando pela Inglaterra e pela França, onde a fome se avizinha também e onde a organização é muito menos ‘genial’. (…)

É natural que na Rússia Tsarista, onde a desorganização era a mais monstruosa e onde o proletariado é o mais revolucionário (não por causa das qualidades particulares, mas em virtude das tradições vivas do ‘ano cinco’), a crise revolucionária eclodisse mais cedo que em qualquer outro país”9

A Revolução de Fevereiro só poderia ser apreendida a partir das peculiaridades nacionais russas, amalgamadas e tencionadas pelo arranjo de forças internacionais e pela sua imersão na guerra imperialista. Cabe observar que, de imediato, Lenin vislumbra que o movimento de fevereiro não era, ainda, o ponto de chegada. Tampouco as fronteiras do império detêm o horizonte revolucionário. A vista alcança e ultrapassa os limites do território Russo.

Sob a liderança de Kerensky, o governo provisório que surge com a queda do czar, atado aos interesses da burguesia e dos credores externos que promovem a guerra e à aliança de classe com os grandes proprietários de terras, é incapaz de solucionar os problemas que conduziram milhares de trabalhadores e camponeses ao movimento de fevereiro. Em outubro de 1917 o poder dos Sovietes se eleva contra a devastação provocada pela guerra imperialista, para solucionar o grave problema da terra e o agravamento da fome. O poder soviético é sustentado pelos únicos setores sociais que não tinham nada a ganhar com a continuidade do conflito: os operários e os camponeses. Os últimos, cabe observar, fonte recorrente para recomposição de soldados no front. No dia 25 de outubro, enquanto são demovidos os últimos obstáculos do governo provisório, Lenin apresenta as primeiras medidas revolucionárias na Reunião do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, dentre as quais constam:

(…) O novo governo operário e camponês proporá imediatamente uma paz justa e democrática a todos os povos beligerantes.

Abolirá imediatamente a propriedade latifundiária da terra e entregará a terra aos camponeses. Criará o controle operário da produção e distribuição dos produtos e estabelecerá um controle de todo o povo sobre os bancos, juntamente com sua transformação numa só empresa estatal. (…)”10

O poder dos Sovietes se defrontou, imediatamente, com a sabotagem e a desorganização econômica e, logo, com a resistência armada dos resquícios da monarquia e da fúria dos burgueses expropriados. Do apoio, assessoria e subsídios militares aos contrarrevolucionários, as potências capitalistas passaram à intervenção direta com o exército de 14 países. A ação militar foi acompanhada de um cerco econômico que impedia relações comerciais e diplomáticas, dificultando o acesso da Rússia revolucionária à produtos fundamentais para a sua sobrevivência e para a reconstrução do país.

Foram três anos de uma cruenta guerra civil (1918-1920) e de isolamento sem precedentes. Se ao final da Primeira Guerra a condição da Rússia já era dramática, com a guerra civil a situação ganha aspectos ameaçadores. Avaliando o quadro de miséria econômica como indutor de acumulo e diferenciação social que nutria a nascente burocracia no interior da União Soviética, Trotsky relembra:

“No terreno histórico da miséria, agravadas pelas devastações das guerras imperialista e civil, a ‘luta pela existência individual’, longe de se atenuar nos anos seguintes, conheceu, por momentos, um agravamento sem precedentes: será necessário relembrar que atos de canibalismo se reproduziram por duas vezes em certas regiões do país?”11

No período da Guerra Civil, a Rússia se transformou, conforme o Dirigente do Exército Vermelho, numa “fortaleza sitiada”. As condições econômicas eram de quase indigência e, nesses termos, era impossível acumular privilégios. Os melhores e mais abnegados militantes se mobilizaram para a guerra civil, prioridade para a sobrevivência da própria revolução. A sociedade russa foi levada à tensão extrema. Dilacerada pelo conflito, tencionada a sobreviver isolada com a herança do relativo atraso histórico, acossada pelo cerco e pela fome, muitas vezes ficou no limiar da quase derrota. Nestas difíceis circunstâncias, o Partido Bolchevique adotou medidas de exceção, todas a contragosto e com a esperança de logo poder suprimi-las. O próprio Partido Bolchevique, em seu X Congresso, iniciado em 8 de março de 1921 – atravessado por grandiosas polêmicas decorrentes da própria situação contraditória do país – termina por votar uma resolução que proíbe as frações em seu interior.12

A perspectiva dos Bolcheviques não era o isolamento. Tampouco que o Outubro ficasse restrito ao território russo. Acreditavam e batalharam firmemente para que a Rússia, por suas características peculiares, rompesse o elo da cadeia imperialista e iluminasse o caminho para que a classe trabalhadora de países capitalistas mais desenvolvidos marchasse na mesma direção, permitindo o fim do isolamento, o fluxo de tecnologias, o intercâmbio de matérias-primas e a cooperação entre os povos. Esse horizonte é antecipado por Trotsky que, muito antes de outubro de 1917, ainda em 1906, sustentava: “A Revolução no Leste da Europa vai dotar o proletariado do Ocidente de idealismo revolucionário e desencadear nele o desejo de falar ‘russo ao seu inimigo…’”.13 Isto é, de falar a língua da revolução.

Essa perspectiva não era utópica ou deslocada da realidade. As contradições do capitalismo, elevado a sua fase imperialista, havia conduzido a matança da Primeira Guerra Mundial. Milhares de homens – vivos e mortos – apodreciam nas trincheiras. Por toda a Europa, a burguesia – elevando os seus interesses a interesses pátrios – fabricou a morte em escala industrial e invocou a quinta-essência da ciência para produzir cadáveres e escombros.

Em 1918/1919 a classe trabalhadora alemã confirma as esperanças dos revolucionários russos e investe contra o poder do Kaiser, põe fim ao antigo império alemão, mas, na sequência de disputas em torno do estabelecimento de uma nova ordem social, é derrotada. Prevalece a República de Weimar, Rosa Luxemburgo e Karl Liebiknecht são assassinados. Os trabalhadores alemães se insurgem novamente em 1923 e, mais uma vez, a tomada do poder será frustrada. Na Hungria, em finais de 1918 é anunciado o fim da monarquia dos Habsburgos e a mudança do regime político. O governo de coalizão moderado que surge é, imediatamente, confrontado com a ameaça de invasão militar pelos países da Entente. A ameaça provoca, em março de 1919, a unificação dos socialistas e comunistas – os últimos recém libertos da prisão -num novo governo revolucionário, de tipo soviético. A República Húngara dos Conselhos resistirá até o final de julho – 133 dias – quando o Exército Vermelho Húngaro sucumbirá às forças conservadoras estrangeiras. Em 1920 a monarquia será restaurada.

Na França, Inglaterra e Itália uma colossal onda de greves antecipa a advertência de perigo para a burguesia. Em 1919 e 1920, o movimento na Itália – o “Biênio Vermelho” – mobiliza aproximadamente 2 milhões de trabalhadores nas grandes cidades industriais que convergem para a ocupação das fábricas e o controle da produção. Realizam, inclusive, uma greve geral que paralisou o país em julho de 1920 contra as agressões imperialistas ao governo soviético. No sul da Itália, os camponeses tomam as grandes propriedades. Ainda que amplo e profundo, o movimento hesita e não alcança o poder. A burguesia ganha tempo, contra-ataca e impõe uma violenta reação dirigida pelos fascistas que, em 1922, realizarão a Marcha sobre Roma liderada por Benito Mussolini.

Por motivos diversos, as revoluções que irromperam na sequência da Revolução Russa foram derrotadas. Apesar das derrotas em alguns casos e limitações em outros, esses movimentos foram fundamentais para desestabilizar a ofensiva militar contra a URSS. Contudo, o nascente Estado Soviético permaneceu isolado.

A segunda derrota do proletariado alemão não foi apenas uma catástrofe restrita à Alemanha. Ela também alterou significativamente a psicologia das massas na União Soviética. O povo russo apostou seriamente suas esperanças e recursos na segunda revolução alemã. Ela, mais uma vez, representava a possibilidade de romper o isolamento. Com a derrota, a ideia de se voltar para si, retornar para a grande extensão territorial russa e seus próprios recursos, “preservar” e reconstruir o país ganhou peso de massas. É nessa toada que Trotsky avalia a dimensão dessas derrotas no estado de ânimo das massas e sua influência na luta política travada pela Oposição de Esquerda:

(…) Agora o que nos interessa, sobretudo, é o instrutivo e incontestável fato das contínuas derrotas da revolução na Europa e na Ásia, enfraquecendo a situação internacional da URSS, terem fortalecido extraordinariamente a burocracia soviética. Duas datas são significativas nessa série histórica. Na segunda metade de 1923, a atenção dos operários soviéticos concentrou-se com paixão na Alemanha, onde o proletariado parecia lançar mão do poder; a retirada em pânico do Partido Comunista Alemão representou para as massas operárias da URSS uma penosa decepção. A burocracia soviética desencadeou imediatamente a sua campanha contra a ‘revolução permanente’ e infligiu à Oposição de Esquerda a sua primeira e cruel derrota. Em 1926-1927, a população da URSS recebeu um novo afluxo de esperança: todos os olhares se voltaram dessa vez para o Oriente, onde se desenrolava o drama da revolução chinesa. No final de 1927, a revolução chinesa foi torpedeada pelo carrasco Chiang-Kai-shek, a quem os dirigentes da Internacional Comunista tinham entregado literalmente os operários e camponeses chineses. Uma onda gelada de decepção atravessou as massas da URSS. Após uma campanha frenética na imprensa e em reuniões, a burocracia decidiu-se enfim, em 1928, a prender massivamente os oposicionistas.”14

Foi sob o impacto de uma sucessão de levantes operários e uma sequência de derrotas, sob a frustração das esperanças, renovada a cada recuo do proletariado de outros países, que o setor burocrático, relativamente fortalecido com a incipiente recuperação econômica proporcionada pela Nova Política Econômica (NEP) e os primeiros resultados da planificação econômica, estreitou seus laços de identidade em torno de interesses e vantagens materiais destacados da maioria do povo. Conforme Trotsky, até o ano de 1924 ninguém concebia a possibilidade de construção do socialismo restrito ao território da União Soviética. A criação da “teoria do socialismo num só país” era, antes de tudo, instrumento de luta política no interior do partido e da União Soviética.

No percurso da guerra civil, as forças sociais e as reservas revolucionárias se extinguiam, os sovietes foram se esvaziando. O Exército Vermelho, sob a liderança de Trotsky venceu, mas o partido, os sovietes e a classe trabalhadora não saíram incólumes do conflito. Quando conseguem alguma estabilização da República Soviética e a economia inicia sua recuperação, o entendimento de que os Bolcheviques, apesar dos percalços, se manterão no poder conduz parcelas antes indecisas ao partido. A perda de valorosos combatentes na guerra civil termina com o início do ingresso dos setores antes vacilantes, hesitantes e de arrivistas no Partido e nos órgãos do Estado. Esses setores sedimentarão as bases sociais do novo e poderoso estrato social, a burocracia soviética, que darão lastro ao conservadorismo e à acomodação, impondo limites e rupturas à própria revolução.15

Com a ascensão de Stálin e o extermínio dos opositores à esquerda, a burocracia se cristaliza no poder e a manutenção do regime assegura a preservação e reprodução dos privilégios. A acomodação sustentada pela “teoria do socialismo em um só país” ganhará a coloração macabra do “Pacto de Não Agressão” Hitler-Stálin, em 23 de agosto de 1939. Será preservada na política de “coexistência pacífica” com o capitalismo nos acordos de Yalta e Ptsdam em fevereiro e agosto de 1945 que estabelecem a divisão do mundo em esferas de influência ao final da Segunda Guerra Mundial.

Inicialmente, a Rússia se manteve e foi nutrida pelas energias e forças da revolução que tinham raízes profundas nas massas populares e, em parte, porque uma onda de mobilizações operárias atravessou toda a Europa e, ainda que não tenham produzido uma nova revolução vitoriosa, impediu uma nova investida militar que ameaçaria os governos dos próprios países imperialistas. De toda forma, o impulso da Revolução Russa, a liberação de energias sociais, a expropriação dos meios de produção e a economia planificada, apoiada nos recursos e na extensão do território russo, apesar da burocracia e do isolamento, permitiu enormes avanços em todos os campos.16

Contudo, esses recursos e expansão iniciais encontraram limites no tempo e no espaço e confrontavam-se com o capitalismo que, ainda que tenha perdido o controle direto sobre essa parcela do globo, dispunha ainda do domínio e comando da economia mundial. A União Soviética, com a política de manutenção do “socialismo em um só país”, não estava imune ao inevitável e necessário intercâmbio comercial com as potências capitalistas. Sob a lógica de preservar privilégios, esses acordos incluíam trocas desiguais que comprometiam as bases da própria economia soviética. Trotsky abordou a questão da sobrevivência da União Soviética e do desenvolvimento econômico precisamente na década de 1930, num período de grande florescimento e exuberante desenvolvimento industrial da URSS e que contrastava com a imersão dos países capitalistas na grande crise de 1929:

(…) Os sucessos econômicos da URSS permitem fixar-se, movimentar-se, armar-se e quando preciso, recuar e esperar, em uma palavra, manter-se. Mas pela sua própria essência a questão ‘Quem vencerá?’, não só no sentido militar, mas, sobretudo, no sentido econômico, coloca-se diante da URSS no plano mundial. A intervenção militar é perigosa, mas a intervenção das mercadorias baratas no comboio dos exércitos capitalistas seria incomparavelmente mais nociva. (…) Mas enquanto a URSS permanece isolada e, pior ainda, enquanto o proletariado europeu suporta as derrotas e recua, a força da sociedade soviética mede-se em última instância pela produtividade do trabalho, que, na economia de mercado, se manifesta em custos e preços. A diferença entre os preços internos e os preços do mercado mundial é um dos principais indicativos da correlação de forças. Enquanto isso, fica proibido à estatística soviética sequer levantar essa questão. Isso se deve ao fato de que, apesar das condições de estagnação e decomposição, o capitalismo mantém uma enorme vantagem com relação á técnica, organização e cultura do trabalho.”17

A análise do Revolucionário Russo é fecunda. Lembremos que em 1936, quando veio à luz esses estudos, o capitalismo encaminhava o mundo, mais uma vez, para uma nova e ainda mais destrutiva guerra, o fascismo e o nazismo foram acionados como recursos pela burguesia para interditar a possibilidade de novas revoluções. E, mesmo diante do enorme avanço obtido pela União Soviética no campo econômico, numa análise comparativa e de longo alcance, Trotsky é assertivo: a ameaça militar é real, mas o comboio das mercadorias baratas é ainda mais ameaçador.

Os índices de crescimento da URSS (abstraindo, evidentemente, os aspectos de como foram alcançados) registram, respectivamente, para o período 1928-1950, 10,8%; 1951-1960, 10,3%; 1961-1970, 7,2%; 1971-1980, 4,3%; 1981-1985, 3,2%.18 Os números, ainda que positivos, indicam a desaceleração da economia soviética a partir dos anos 1970.

Com os limites de ganhos, determinados pelos próprios limites de expansão da economia planificada, pela restrição territorial e pela dependência cada vez maior do mercado mundial, a burocracia viu-se na iminência de não mais expandir e reproduzir seus privilégios. Numa situação de ausência de mobilidade, a limitação de privilégio converteu-se na base que sedimentou os interesses fundamentais da burocracia para converter privilégios cada vez mais incertos na certeza da propriedade privada, ainda que isso significasse a incerteza da concorrência com o retorno da anarquia no plano econômico. Na década de 1980 optou, portanto, por converter seus privilégios em propriedade privada. Trocou a sua condição instável de casta burocrática pela certeza da propriedade privada. Os mecanismos político e econômico utilizados foram a Glasnost – Transparência, no sentido de abertura – e a Perestroika – reestruturação -, conduzidas pelo Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Mikhail Gorbachev. Os modernos capitalistas russos surgiram das entranhas da própria burocracia soviética associada aos interesses do capital internacional.

A Revolução Russa e as perspectivas socialistas foram profundas. Ainda que o stalinismo constituísse uma ruptura significativa com os seus fundamentos, algumas das formas e expressões mais emblemáticas do período revolucionário anterior permaneceram no léxico, destituídas, contudo, de todo o seu conteúdo e essências originais. As bases materiais da Revolução Russa foram parcialmente preservadas na estatização e planificação econômicas. As realizações no campo da economia, da cultura, das ciências, da educação… não tem precedentes históricos.19 Os avanços materiais conferidos por essas medidas, apesar da sabotagem que representava a própria burocracia, subsistiram como referência material e, portanto, como inspiração concreta para o fim da exploração e para a emancipação humana, embalaram lutas e sonhos por sete décadas.

Cem anos depois da Revolução Russa, da Revolução Socialista, da Revolução de Outubro, percorremos os seus caminhos e descaminhos para resgatar o projeto original e generoso dos seus realizadores: iluminar o horizonte para que os povos do mundo ponham fim a toda forma de opressão e exploração. Enquanto houver um sistema político e econômico de iniquidades, onde os que produzem a riqueza são relegados à miséria, a Revolução Russa, ainda que distante no tempo, permanecerá como uma lembrança de possibilidades, persistirá como uma promessa de futuro e uma poderosa ameaça, como nos versos de Maiakóvski, um de seus exímios cantores:

“Come ananás, mastiga perdiz.

Teu dia está prestes, burguês.”20

 

Adriano Carmelo Vitorino Zão

 

Notas

1 Hobsbawm, Eric J. “O Presente como História”, em Hobsbawm, Eric J. Sobre História. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo, Cia. das Letras, 1998, p. 244. Ver também, do mesmo autor, o prefácio de A era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo, Companhia da Letras, 2. ed. (6ª impressão), 1995, p. 7: “Acho que já é possível ver o Breve Século XX – de 1914 até o fim da era soviética – dentro de uma certa perspectiva histórica.”

2 Victor Serge, no Prefácio à edição de 1938 de sua obra “O Ano I da Revolução Russa”, indica que dentre os nomes que seriam encontrados nas páginas do livro, apenas Trotsky sobrevivia, perseguido e refugiado no México. Após descrever o destino da maioria, com exceção de Lênin, Dzerjinski e Tchitcherin que haviam morrido antes, todo o restante dos que cumpriram algum papel importante no ano I da Revolução haviam sido fuzilados, estavam em prisão, proscritos ou tinham desaparecido nas prisões até a data do prefácio (1938). Após nomeá-los e indicar a “pena” a que foram submetidos, Serge observa: “A vitória da revolução, guardadas as devidas proporções, não custara muitas perdas aos vencedores; dez anos mais tarde, ao contrário, a reação burocrática, que conquistou o poder sem combate, aniquilou, submersa num mar de lama e sangue, toda uma geração…”. Serge, Victor. O ano I da Revolução Russa. Tradução Lólio Lourenço de Oliveira. – São Paulo: Boitempo, 2007. pp. 28 e 29.

3 Para citar exemplo: o livro muito conhecido no Ocidente, do jornalista e militante John Reed, “Dez dias que abalaram o mundo”, foi banido na União Soviética por Stálin. Conforme Zuenir Ventura, “No livro de Reed, Stálin mal era mencionado, e Trotsky aparecia como uma figura heroica. O livro foi banido juntamente com seu herói. Após a morte de Stálin, o livro mereceu apenas uma relutante tolerância, dado que, enquanto outras vítimas do stalinismo podiam ser reabilitadas, ainda não se podia mencionar o nome de Trotsky, e sem esse não seria possível qualquer relato sobre a Revolução Russa”. Ventura, Zuenir. Apresentação. In: Reed, John. 10 dias que abalaram o mundo; tradução Denise Tavares Gonçalves; prefácio de Zuenir Ventura. São Pulo: Ediouro, 2002. P. 34.

4 Sobre essa questão há uma esclarecedora anotação de Marx realizada em A Ideologia Alemã. Ver Marx, Karl. Anotação do autor, apresentada na edição como nota “c”, p. 38-39. In: Marx, Karl; Engels, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). Tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavin iMartorano. São Paulo, Boitempo, 2007.

5 Trotsky, Leon. A Revolução Traída. São Paulo, Editora Instituto José Luiz e Rosa Sundermann, 2005. Págs. 105, 106.

6 Trotsky, Leon. História da Revolução Russa. Tradução de Diogo de Siqueira. São Paulo,Sundermann,2007. Tomo I, p . 35.De acordo com o seu primeiro censo realizado em 1897, a Rússia contava com 129 milhões de habitantes, dos quais 87% viviam no campo e 81,5% eram agricultores. Broué, Pierre. El partido bolchevique. Tradução: Ramóm Garcia Fernadés. [s.l.] Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, [s.d.], p. 35

7 Segundo referência nas notas 1 e 2 das cartas de Lenin, organizadas em As portas da Revolução: Escritos de Lenin de 1917, as primeiras quatro cartas foram escritas entre 7 e 12 (20 e 25) de março; a quinta carta, não concluída, foi escrita na véspera da partida de Lenin da Suiça, em 26 de março (8 de abril) de 1917. As duas primeiras cartas foram enviadas para Alexandra Kollontai, em Oslo, no dia 9 (22) de março, para serem encaminhadas a Petrogrado em 17 (30) de março. Ver Zizek, Slavoj. As portas da Revolução: Escritos de Lenin de 1917. Organização, introdução e posfácio de Slavoj Zizek, com tradução de Luiz Bernardo Pericás e Fabrício Rigout. Tradução dos textos de Lenin: Daniela Jinkings. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 25.

8 V.I. Lenin. “Cartas de Longe”, em As portas da Revolução: Escritos de Lenin de 1917. Op. cit., p. 25.

9 Idem, p. 29. (Destaques no original.)

10 Resolução da Reunião do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, 25 de outubro (7 de novembro) de 1917. In: Zizek, Slavoj, Às Portas da Revolução: seleção de escritos de Lenin de feveriro a outubro de 1917 / V. I. Lenin, Slavoj Zizec; tradução dos textos de Slavoj Zizec, Luiz Bernardo Pericás e Fabrizio Rigout, tradução dos textos de Lenin, Daniela Jinkings. – São Paulo: Boitempo, 2005.

11 Idem, p. 81. (Destaques no original.).

12 Broué, Pierre. Op. cit., p. 210. Sobre a imprensa

13 Trotsky, Leon. “Três Concepções da Revolução”, em A revolução permanente na Rússia. Tradução de A. Campos e J. Cabral Fernandes. 15. ed. Coleção Clássicos Antídoto n. 2. Lisboa, Antídoto, 1977, p. 99.

14 Trotsky, Leon. A Revolução Traída. Op. Cit. P.109.

15 Em 1923, as contradições da Nova Política Econômica e as pressões que exercem sobre o partido e o Estado já são evidentes. Lenin morre em 21 de janeiro de 1924 e, no mesmo ano, uma campanha de filiação denominada “recrutamento de Lênin” incorpora mais de 200 mil filiados, engrossando em mais de 50% as fileiras do partido. Destes, 57 % são analfabetos e, conforme Broué, “apesar de seu rótulo, a campanha confirma uma profunda ruptura com os métodos empregados por Lenin.” Broué, Pierre. El partido bolchevique. Tradução: RamómGarciaFernadés. [s.l.], Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, [s.d.], p. 265-266. Sobre esse aspecto ver Trotsky, Leon. A Revolução Traída. Op. Cit. Pp.113-119.

16 Em 1936, em sua obra a Revolução Traída, Op. Cit. Trotsky, crítico da burocracia, apresenta a evolução do desenvolvimento industrial da União Soviética com sendo “sem precedentes na História”. P. 39. O primeiro capítulo do livro é dedicado à análise comparativa do desenvolvimento industrial nas duas primeiras décadas do poder soviético.

17 Idem, p. 46.

18 Fontes: Narodnoe Khozyaistvo SSSR, diversos anos, e Bol’shaya Sovetskaya Entsiklopediya, 2. Ed., v. 29, p. 302. Apud Segrillo, Angelo. O fim da URSS e a nova Rússia: de Gorbachev ao pós-Yeltsin. Petrópolis (RJ), Vozes, 2000. p. 10.

19 O coeficiente de Gini variou, nos países do Leste Europeu, de índices mais igualitários no mundo para padrões de países com a pior distribuição de renda, como a Guatemala e o Brasil. O coeficiente de Gini da Rússia saltou de 0,26, em 1987-90, para 0,47 em 1996-98. Segrillo, Angelo. Rússia e Brasil em transformação: uma breve história dos partidos russos e brasileiros na democratização política. Rio de Janeiro, 7Letras, 2005 P. 148. Como esclarece o autor, o coeficiente de Gini varia de zero a um, indicando zero – igualdade absoluta – e um – desigualdade absoluta – ou seja, quando uma única pessoa detém toda a renda do país.

20 Maiakóvski, Vladímir: Maiakóvski – Poemas. Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos. Editora Perspectiva, 6ª edição. São Pulo, 1997. Tradução de Augusto de Campos. p. 82

 
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