MAS

Início Internacional EUA Frente ao abismo, Trump dá um passo em frente!

Frente ao abismo, Trump dá um passo em frente!

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

trumppoluicaoEra um acordo de cavalheiros. Depois do fracasso do Protocolo de Quioto negociado em 1997, a Conferência do Clima de Paris de Novembro 2015 era mais uma tentativa de minimizar os efeitos do aquecimento global, pois longe vai o tempo em que este podia ser travado.

As metas são pouco ambiciosas e não vinculativas. Barack Obama sabia que se Paris fosse um tratado internacional e não um mero acordo, a maioria republicana no congresso não o ratificaria tal como aconteceu com Quioto. Os Estado-Unidos são pois uma das poucas nações onde a realidade do aquecimento global ainda é debatida, mercê do lobby das empresas petrolíferas e das empresas carboníferas ainda sobreviventes. Mesmo a própria administração Trump parece dividida sobre esta questão com Steve Bannon um negacionista do aquecimento global antropogénico e Rex Tillerson e Ivanka, aparentemente favoráveis ao acordo de Paris, o que espelha bem o caos e divisão que reina na Casa Branca.

O Acordo de Paris pretendia limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º centígrados, estabelecendo um mecanismo de revisão que de cinco em cinco anos reavaliaria os compromissos de redução de gases de estufa, sempre voluntários, de cada país. Além disso, ajuda financeira na ordem dos 3 mil milhões seria fornecida, através de um “Green climate fund”, a nações pobres para as ajudar a lidar com as mudanças climáticas. Este é pois, não um acordo com medidas concretas, assertivas e urgentes mas sim uma declaração de intenções. E de boas intenções está o inferno cheio, especialmente este em que estamos lentamente a arder: secas, tempestades, incêndios, cheias, subidas do nível do Mar, fomes e cerca de 100 000 000 de pessoas, no hemisfério Sul, que poderão ser atiradas para a pobreza nos próximos quinze anos segundo números do Banco Mundial.

E mesmo esta tímida tentativa de minimizar os efeitos das emissões de gases de estufa é posta em causa pelo actual inquilino da Casa Branca. Numa conferência de imprensa, que seria uma obra prima da comédia, se fosse ficção, anunciou a retirada dos Estados-Unidos do Acordo de Paris comprometendo seriamente o objectivo estabelecido. Estes tinham-se comprometido em reduzir as as suas emissões de 26 a 28% abaixo dos níveis de 2005. Os Estados-Unidos são actualmente responsáveis por mais de 22% das emissões de dióxido de carbono e o maior emissor per capita de todas as nações o que implicaria que sem o esforço americano de redução da poluição atmosférica 0,3 graus dos 2 acordados como limite ficariam já comprometidos.

Populista como sempre, e a realidade que se dane, Trump retomou uma das suas promessas de campanha, de recriar postos de trabalho na extracção de carvão, uma indústria que o gás natural já tinha tornado obsoleta muito antes da exploração em massa de energia solar e eólica. É um discurso que fala para as famigeradas bases de Trump, as populações dos Estados economicamente deprimidas da chamada cintura de ferrugem, acenando com a possibilidade de um regresso de um tipo de indústrias que há muito tempo deixou aquele território. Neste momento, mais de 370 000 pessoas trabalham no sector da energia solar, o dobro dos que trabalham no carvão. Foi também um discurso profundamente paranoico que acusa o acordo de ser um embuste, um instrumento de guerra económica contra os Estados-Unidos e de extorsão de fundos americanos, quando na verdade a burguesia americana se conta entre aqueles que mais exploram e contribuem para a degradação da ecosfera. Das sementes transgénicas da Monsanto à maré negra do Golfo do México passando pelo lixo electrónico largado em lixeiras a céu aberto em vários países africanos e asiáticos, entre outros crimes ambientais, a dívida ecológica americana é avassaladora.

Algumas questões também se levantam com este rasgar do acordo, no que a ordem política mundial diz respeito. Este isolamento auto-imposto dos Estados-Unidos em questões ambientais revela ser mais um sintoma da perda de poderio e protagonismo do imperialismo americano. A decisão de Trump é coerente com a ideologia protecionista que ele vem anunciando desde a sua campanha eleitoral e satisfará uma parte da burguesia americana, como os Irmãos Koch, que vê qualquer tipo de regulamentação ambiental como um entrave ao lucro. Por outro lado, multinacionais do sector das tecnologias da informação e das energias renováveis como a Microsoft, a Google, a Tesla, a Shell e a Disney criticaram veementemente esta decisão que cria assim profundas divisões na própria burguesia americana.

No fim, a China poderá ser um dos grandes beneficiários da decisão de Trump. Depois do acordo de Paris, já anunciara o cancelamento da construção de uma centena de centrais de carvão e decidiu investir 361 mil milhões de dólares em energias renováveis até 2020. A China é já hoje o maior produtor mundial de painéis solares, um título que já pertenceu em tempos aos Estados-Unidos.

Uma improvável aliança parece ter-se formado, nesta questão, entre as maiores economias da Zona Euro, - a Alemanha, a Itália e a França - e a China. Temos Macron na televisão a convidar cientistas e engenheiros americanos a vir trabalhar para a França e onde estes irão, obviamente, o investimento em tecnologia seguirá. E temos a possibilidade de uma “taxa de carbono” sobre as exportações americanas a ser sugerida pelo governo mexicano. Será que estamos perante o princípio de uma guerra comercial, aquela mesma que Trump ameaçava começar? Se a primeira declaração de guerra é, pela boca de Trump, a retirada dos Estados-Unidos do acordo de Paris, o primeiro tiro poderá não ser o seu. E neste momento, o Tio Sam encontra-se completamente isolado.

Durante anos, alguns sectores da burguesia americana lançaram a desinformação, a suspeita sobre a realidade do aquecimento global para proteger os seus negócios. O resultado está a vista: uma grande parte da população elegeu um magnata da construção civil com um discurso anti-intelectual, com promessas vãs de recuperar empregos graças a ao desmantelamento de regulamentação ambiental. E agora mesmo o muito insuficiente acordo de Paris é posto em causa pela maior potência industrial do mundo. Até que ponto os objectivos deste acordo podem estar comprometidos, tanto em graus Celsius como no empenho dos signatários, está ainda por determinar.

Uma coisa é certa, enquanto formos dominados por uma classe privilegiada, para a qual os negócios se devem sobrepor ao clima, este problema tenderá a agravar-se. É isto que o capitalismo tem para nos oferecer: destruição climática, muros, exploração, opressão e miséria.

 

Davide Santos

 
Text size
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Contacta-nos

Email: mas@mas.org.pt

MAS nas redes sociais:

facebook_iconyoutube_icon

Boletim electrónico do MAS

Subscreve o boletim electrónico do MAS e com conta, peso e medida receberás informação das novidades da nossa página.