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Três notas brevíssimas sobre as eleições britânicas

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1 – Os revolucionários devem valorizar o significado da vitória de Corbyn para liderança do Partido trabalhista (Labour Party). Nos anos 90 do século passado o Labour foi o berço da “terceira-via” ou seja, da conversão da social-democracia ao neoliberalismo e sob a liderança de Tony Blair, o Labour tornou-se “moderno”, “pragmático” e capaz de tomar “decisões difíceis”. Traduzido em políticas concretas isto significou privatização, ataques aos direitos dos trabalhadores, aumento das desigualdades e uma participação entusiástica em aventuras imperialistas. Em poucos anos a terceira-via tornou-se o catecismo de toda a social-democracia europeia. Jeremy Corbyn, um republicano assumido, tem um passado consistente de defesa dos trabalhadores e dos serviços públicos, de luta contra a guerra e contra o racismo e de oposição às armas nucleares. Já derrotou a ala blairista duas vezes em eleições para a direcção do Labour, apoiado por um movimento jovem e entusiasta e que já trouxe para o Labour mais de 200 000 novos membros.

 

2 – Os revolucionários devem valorizar o significado de um bom resultado eleitoral para o Labour. Corbyn ganhou a liderança do Labour e vai ter um bom resultado eleitoral precisamente porque rejeitou a política de Tony Blair e dos Conservadores e recuperou uma linguagem classista, denunciou as desigualdades crescentes na sociedade britânica e apontou o dedo às guerras imperialistas como a causa do terrorismo. Como muitos na esquerda britânica têm notado, sempre que Corbyn radicaliza o discurso, mais e mais camadas da população que se sentia sem representação política consideram votar Labour. É curioso notar que a subida do Labour desde o início da campanha coincide com uma descida acentuada do UKIP. Corbyn tem ensaiado algumas linhas de compromisso com a ala direita do partido (como na questão do controlo da imigração ou do programa nuclear britânico) e esse é o principal perigo para a sua campanha.

3 – Corbyn não é um revolucionário e como líder de um partido que é um dos pilares do sistema político britânico, irá muito provavelmente fazer cedências e compromissos. Vimos como o SYRIZA na Grécia, com uma situação política muito mais radicalizada, capitulou de forma tão miserável à União Europeia. Se Corbyn for eleito as pressões serão imensas para que abandone o seu programa. Mesmo assim, as principais organizações da esquerda revolucionária britânica estão a apelar, correctamente, ao voto em Corbyn. As massas não se vão tornar revolucionárias só porque nós lhes pedimos, vão ter que testar na prática os limites da política e dos dirigentes dos seus partidos habituais. Se nesse processo os revolucionários souberem oferecer alternativas ao beco sem saída do compromisso com o sistema, então terão uma audiência e poderão crescer. Qualquer revolucionário digno desse nome só pode estar junto deste grande movimento de combate à austeridade, à desigualdade e à guerra.

 

Por Rui Borges