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A crise do Labour Party e a batalha de Jeremy Corbyn

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O principal partido de oposição na Inglaterra e no País de Gales ainda é, de longe, o Labour Party (Partido Trabalhista). Na Escócia, boa parte do espaço do Labour é ocupado pelo Partido Nacionalista Escocês (SNP), que é um partido com uma linha de centro-esquerda, porém mais à esquerda que o Labour antes da ascensão de Jeremy Corbyn. Já na Irlanda do Norte, esse espaço também parece ter sido ocupado por organizações anti-unionistas, principalmente o Sinn Fein (SF). Mas de um modo geral, sem a menor sombra de dúvida, o Labour é o principal partido de oposição.

Entretanto, o Labour vive uma enorme crise com uma brutal guerra interna. Jeremy Corbyn chegou à liderança como um fenômeno desde a base, contra toda a estrutura parlamentar e do aparato partidário. Desde então, a principal tarefa dos caciques do Labour Party e seus aliados na mídia não foi outro, senão o de tentar desmoralizar e remover Corbyn para apresentar um nome mais “confiável” à burguesia. Principalmente perante às frações que estão descontentes com a condução do processo de Brexit pelo governo do Partido Conservador.

Embora o peso de Corbyn ainda seja maior na vanguarda, ele ainda é restrito nos setores mais amplos da população. É que o ritmo das lutas sociais e da radicalização política não evoluiu no mesmo ritmo que a ascensão de Corbyn. Para um setor da classe trabalhadora, Corbyn ainda é considerado “muito à esquerda”. Aliás, é sobre esse fenômeno que a estrutura tradicional do partido se apoia para desferir ataques diários contra Corbyn. Diga-se de passagem, esse setor vai muito além da ala direita dos “Blairistas”. Ela abrange os caciques do partido, as estruturas locais (CLP) e a imprensa, sendo o The Guardian um dos jornais dos mais atuantes.

Essa campanha de ataques contra Corbyn já contou até mesmo com a participação do físico Stephen Hawkins. Recentemente, todos os jornais tomaram a “denúncia” feita por um importante parlamentar do Labour, de que haveria um complô – “entrismo” – entre Corbyn, o Momentum, o Unite, o maior sindicato do país, além de outros sindicatos, para destruir o LP.

Mas a força de Corbyn não pode ser subestimada. Ela vem de baixo. Isso já foi assim nas eleições para a escolha da liderança do Labor. Um de seus principais pilares, por exemplo, é o movimento sindical, principalmente os sindicatos mais fortes e que estão mais à esquerda. Dentre eles, se encontra o maior sindicato do país, na verdade uma central sindical, o Unite.

Nas eleições do Unite que se encerram no dia 19, a candidatura favorita é a de Len McCluskey, aliado de Corbyn e candidato à reeleição. O nome da chapa é United Left, um trocadilho com o nome do sindicato e a expressão “esquerda unida”. Muitas das principais organizações da esquerda socialista apoiam McCluskey e tem membros na chapa.

Assim, o entusiasmo é uma marca presente do movimento pró-Corbyn. Em recentes eleições complementares ocorridas em três distritos, o LP lançou candidatos anti-corbynistas. Mesmo assim, a campanha foi levada à frente com uma enorme garra pelo Momentum e ativistas de esquerda. Ken Loach entrou de cabeça na campanha. Uma entrevista com Loach publicada pelo The Guardian ilustra o que foi esta batalha.

As perseguições e as críticas a Corbyn

A política de perseguições dentro do LP, principalmente contra ativistas de esquerda, continua. Utiliza-se como principal mote as acusações de “antissemitismo”, quando na verdade trata-se de posições contra o sionismo do Estado de Israel e a questão palestina, às vezes até moderadas.

A “guerra civil” no LP não se limita à campanha contra Corbyn e seus poucos aliados no parlamento. Ela está em cada CLP (Labour Party do distrito), Conselhos Locais (municípios) etc. Um caso ilustrativo é o processo contra o ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone. Acusado de antissemita, quase foi expulso do LP há poucos dias.  Livingstone é um ativo apoiante de Corbyn e crítico feroz do sionismo e da política do Estado de Israel na Palestina.

Além dessa, existem várias outras denúncias de perseguições à ativistas de esquerda sob a mesma acusação de antissemitismo, quando na verdade o que fazem são críticas à política do Estado de Israel na região da Palestina.

Entretanto, Corbyn tem sido criticado por não enfrentar até o fim a estrutura do Labour e não defender esses ativistas com a energia necessária. Este, sem dúvida, é um sério alerta que deve ser levado em consideração.

De toda forma, vamos ver como terminará essa guerra. Se Theresa May e o Partido Conservador não nadam de braçadas na condução do país e no quesito estabilidade interna, o LP não vive uma situação muito diferente. A estrutura trabalhista quer ocupar o espaço aberto pelos conservadores para representar importantes setores do grande capital imperialista, especialmente o financeiro, que não está contente com a condução do Brexit. Entretanto, Corbyn não é nem de longe o perfil ideal para isso.

Embora não seja um revolucionário, Corbyn adota um perfil de esquerda. Ele defende as greves e os movimentos sociais, fazendo-se presente em diversas atividades: comícios com ferroviários em greve, participação na marcha do Serviço Nacional de Saúde, etc. Defende também a renacionalização das empresas privatizadas desde os anos Thatcher, a taxação de ricos e fortunas, um salário máximo e aumento do salário mínimo, direitos de imigrantes e minorias, e, obviamente, se coloca categoricamente contra os cortes e as políticas de austeridade. No momento do anúncio do acionar do Artigo 50 que deu início ao Brexit no último dia 29 de março, Corbyn, fez um discurso contundente que teve repercussão do mesmo nível do da Primeira Ministra Theresa May.

Não está descartado, portanto, que tenha êxito o esforço para removê-lo da liderança do partido e colocar em seu lugar uma liderança “palatável” como candidato a primeiro ministro nas próximas eleições. Mas essa é ainda uma luta em curso. Com a turbulência e as incertezas que rondarão o Reino Unido a partir do acionar do Brexit, tudo pode acontecer. Caso siga o curso ascendente da retomada das lutas no pais, o futuro de Corbyn dependerá, acima de tudo, do próprio Corbyn. Ou melhor, de sua decisão de enfrentar até o fim o establishment do Labour.

 

Artigo de Vicente Marconi (São Paulo, Brasil) no EsquerdaOnline.com.br