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Revolução e contra-revolução no Egito

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A revolução no Egito demonstrou uma força gigantesca ao derrubar Mubarak. Agora abre mais um capítulo ao questionar de frente o governo militar de turno. Está em xeque o destino do país mais populoso do Médio Oriente e a estabilidade de toda a região, o que inclui Israel.

Revolução e contra-revolução se enfrentam nas ruas do Cairo em lances acompanhados em todo o mundo. A revolução egípcia marcou o início de 2011 e foi um de seus símbolos mais importantes. Um momento excecional de um ano excecional, que nunca será esquecido, pela junção afinal da crise económica com o ascenso de massas. A revolução egípcia tem uma base material nas consequências sociais da crise económica centrada na Europa. E alimenta os sonhos e o ideário de uma nova geração de lutadores em todo o mundo. Não por acaso a ocupação da praça Tahrir se transformou em um exemplo reproduzido nas praças de todo o mundo, como os “indignados” de Madrid e “Ocupy Wall Street”. Os seus resultados terão um enorme valor para os rumos da economia e política de todo o planeta.

Uma revolução em curso

Como todas as grandes revoluções, a egípcia coloca grandes temas em debate para os revolucionários de todo o mundo. O primeiro é se realmente é uma revolução. Alguns setores da esquerda ainda insistem em classificar o que se passa como uma “rebelião”. Trotsky no prólogo de seu livro História da Revolução Russa dizia:

O traço característico mais indiscutível das revoluções é a intervenção direta das massas nos acontecimentos históricos. Em tempos normais, o Estado, seja monárquico ou democrático, está por cima da nação; a história corre nas mãos dos especialistas deste ofício (…). Mas nos momentos decisivos, quando a ordem estabelecida se faz insuportável para as massas, estas rompem as barreiras que as separam da política, derrubam seus representantes tradicionais e, com sua intervenção, criam um ponto de partida para o novo regime (...). A história das revoluções é para nós, acima de tudo, a história da irrupção violenta das massas no governo de seus próprios destinos.”

No Egito, as massas “irromperam violentamente” para “intervir nos acontecimentos históricos”. Mais ainda, fortaleceram-se nessa primeira batalha, cujo símbolo maior é a Praça Tahrir. E, depois da derrubada de Mubarak, recorrem sistematicamente à reocupação da Praça para lutar por suas reivindicações. Enquanto essa força não for anulada, a estabilidade burguesa não retornará ao Egito.

O primeiro passo: uma revolução democrática vitoriosa

Trata-se de uma revolução em curso. Mas o que aconteceu na queda de Mubarak? Caiu o governo ou também o regime? E porque isso caracteriza uma revolução? A polémica agora é sobre o caráter da própria revolução, ou de como se liga a tarefa democrática com a estratégia socialista.

Nahuel Moreno (1) explicava porque a derrubada das ditaduras militares de Argentina, Bolívia e Peru tinham sido revoluções: “Alguns sustentam que só há revolução quando o movimento de massas destrói as Forças Armadas de um Estado ou regime, como ocorreu na Nicarágua. Outros definem que há revolução quando muda o caráter do Estado, ou seja, quando o poder passa às mãos de outra classe, como aconteceu na Rússia de 1917. Finalmente, outros ainda asseguram que a revolução se produz quando se expropria a classe dominante, como se deu, por exemplo, em Cuba, mais de um ano depois do triunfo castrista (...).

Reformas e revoluções produzem-se em tudo o que existe, pelo menos em tudo o que é vivo. ‘Reforma’ , como o nome indica, significa melhorar, adaptar alguma coisa, para que continue existindo. Já ‘revolução’ é o fim do velho, e o surgimento de algo completamente novo, diferente (...).

Porém, entre essas revoluções, ocorrem progressos, melhoramentos, ou seja, reformas. Como toda definição marxista ou cientifica, revolução e reforma são termos relativos ao segmento da realidade que estamos estudando (...). Para usá-las corretamente, não devemos esquecer o seu caráter relativo. Revolução em relação a quê? Reforma em relação a quê? (...).

Se nos referimos à estrutura da sociedade, às classes sociais, a única revolução possível é a expropriação da velha classe dominante pela classe revolucionária (...). Se nos referimos ao Estado, a única revolução possível é que uma classe destrua o Estado da outra; que a expulse e o tome nas mãos, construindo um Estado distinto (...). Sustentamos que a mesma lei se aplica em relação aos regimes políticos.”

Segundo Moreno, há revoluções sob duas condições. A primeira é o surgimento de crises revolucionárias, ou seja, quando as instituições do regime ficam completamente paralisadas. Quando o processo é de reformas não existe isso, portanto ocorrem mudanças graduais, planeadas. A segunda condição é que o regime anterior desaparece, e o que aparece posteriormente é “absolutamente distinto”.

No Egito, durante 18 dias, as massas ocuparam a Praça Tahrir, transformando-a não só no centro das lutas contra Mubarak, mas também num poder alternativo ao do governo. Ali se centralizava a luta, enviavam-se colunas de manifestantes para outros lugares, organizava-se a defesa contra os ataques da polícia, cuidava-se dos feridos. Um duplo poder se impôs.

O governo não controlava mais o país. Os toques de recolher foram ignorados pelo povo. Para tentar reprimir as manifestações, a ditadura recorreu a policiais disfarçados de civis que não impediram a continuidade das manifestações. Para conseguir quebrar a rebelião seria necessário um banho de sangue, como o ocorrido na China de 1989. Mas para isso se precisava de um exército unificado, sob as ordens de Mubarak. E isso não existia. As Forças Armadas estavam paralisadas pela crise.

A classe operária, que até então participava das lutas dissolvida na população, entrou em marcha como classe com uma onda de greves impressionante, juntando as suas reivindicações económicas à luta pela queda da ditadura. Começando pelos operários do Canal de Suez, abarcando operários têxteis, metalúrgicos, petroleiros, ampliando-se para outras grandes cidades e depois às pequenas.

O governo estava encurralado. Tentou uma última manobra, com um acordo com a oposição burguesa, com uma transição (uma reforma) mantendo Mubarak até setembro. Ele próprio fez esse anúncio pela televisão. A reação das massas foi de fúria. Quinze milhões de pessoas ocuparam as praças de todo o país. A classe operária caminhava em direção a uma greve geral.

Existiu uma crise revolucionária no Egito nesses dias, com as greves operárias, a mobilização unificada ao redor da Praça Tahrir, as Forças Armadas paralisadas.

O imperialismo agiu então para buscar uma alternativa por fora de Mubarak, que tinha sido sustentado até então. Entregou a cabeça do ditador para preservar o controlo da situação, através de um governo militar que se colocava como uma “transição para eleições em seis meses”. As massas festejaram a vitória.

O regime, logo após a queda de Mubarak, era muito diferente da ditadura de antes. A diferença fundamental foi uma brusca mudança na relação de forças, com as massas sentindo-se vitoriosas e querendo seguir em busca de suas reivindicações. O regime não se define somente pelas instituições no poder, mas pela relação entre elas, por onde passa realmente o poder.

Antes, Mubarak governava como expressão de uma ditadura militar. Assassinou milhares de pessoas e impediu por trinta anos qualquer oposição. Agora, a mesma instituição - o exército -, para governar, tinha de se apoiar na negociação permanente com a oposição, em particular com a Irmandade Muçulmana. E assumia um claro mandato de transição, com o compromisso de realizar eleições constituintes e presidenciais em seis meses.

No entanto, o elemento de continuidade tem uma grande importância. A instituição principal continua sendo o exército, com altas figuras do governo anterior, centralizadas pelo marechal Hussein Tantawi. As Forças Armadas, exatamente por sua paralisia na crise revolucionária, preservou a sua autoridade perante as massas, angariada nas guerras contra Israel. Com a queda de Mubarak, manteve-se como o centro da contra-revolução, a base de apoio para o imperialismo e a burguesia egípcia para derrotar as massas rebeladas.

Mas o conteúdo do regime é distinto da ditadura de antes. O governo militar não podia dispor da força própria da ditadura Mubarak. Tem de negociar com a oposição burguesa uma saída política.

Qual foi o resultado então da primeira parte da revolução egípcia? Caiu o regime (a ditadura militar) junto com Mubarak? Ou caiu o governo Mubarak e se manteve o regime? O que existe hoje: uma transição em direção a um regime bonapartista (2) com formas democráticas? Ou uma transição para uma democracia burguesa com características bonapartistas?

Aplicando os critérios definidos por Moreno, houve uma revolução democrática vitoriosa. Houve uma crise revolucionária e o regime posterior é qualitativamente distinto do anterior.

Mas uma resposta categórica a essa pergunta, na verdade, só será possível quando a transição se completar, depois das eleições presidenciais. A força da revolução egípcia; o ineditismo do conjunto da revolução no Médio Oriente e Norte da África e as condições especiais da região pela presença de Israel adicionam muitos elementos novos na realidade que exigem paciência nas caracterizações. As duas hipóteses estão colocadas. A própria realidade nos revelará a resposta.

Reação democrática no Médio Oriente e Norte da África?

Essa é uma região na qual o imperialismo não aplicava a política da reação democrática, ou seja, a utilização da democracia burguesa para a contenção do ascenso das massas. Existe uma polarização violenta entre revolução e contra-revolução na região que levou o imperialismo até agora a não utilizar como tática privilegiada a reação democrática, como faz na América Latina. Na região das maiores reservas de petróleo do mundo, sacudida historicamente por guerras e revoluções, é fundamental manter regimes estáveis. Por isso, a colonização imperialista apoiou sempre monarquias e ditaduras repressoras.

Quando teve de se enfrentar com o nacionalismo burguês, os governos imperialistas reagiram com uma contra-ofensiva militar. A expressão mais acabada dessa política foi a criação do Estado de Israel, um enclave militar a serviço da contra-revolução em toda a região.

A democracia burguesa, no entanto, já deu mostras de sua serventia para o capital para derrotar ascensos revolucionários. A realidade posterior à Segunda Guerra Mundial demonstrou a ampla e eficaz utilização da democracia burguesa, que serviu tanto para períodos de estabilidade como para derrotar ascensos revolucionários. Foi assim na revolução portuguesa em 1975 e na revolução nicaraguense em 1979. Com a crise das ditaduras latino americanas na década de 80, foi a alternativa construída pelo capital para reestabilizar a região. A democracia burguesa na América Latina, com todas as crises, já subsiste há 27 anos no Brasil, 30 na Argentina, 21 no Chile. Os planos neoliberais foram aplicados na América Latina pelos regimes democráticos e não por ditaduras (com exceção do “pioneiro” Pinochet). E foi também a democracia burguesa que absorveu os governos frente populistas como Lula, Evo Moralez, etc.

Estamos iniciando um novo período político que tem como base a crise económica internacional mais grave desde a depressão de 29. Está começando uma nova série de combinações de crise e ascenso. Vamos ter pela frente situações e crises revolucionárias em vários países, e sua resolução seja pela vitória ou derrota da revolução pode apresentar novas relações entre democracia e bonapartismo. O imperialismo tanto pode utilizar o bonapartismo para enfrentar o ascenso na Europa, como ser obrigado a utilizar a democracia burguesa para tentar derrotar a revolução no Médio Oriente e manter o seu controlo económico e político da região.

A força e ineditismo da revolução no Norte da África e Médio Oriente já obrigou ao recurso da democracia na Tunísia, em que o Ennahda - um partido islâmico burguês - ganhou as eleições constituintes em outubro passado. Já existem eleições anunciadas na Líbia. Esse recurso já está a ser usado no Egito, com eleições parlamentares em curso e presidenciais anunciadas para julho de 2012.

A revolução democrática é só um passo da Revolução Permanente

Na conceção da Revolução Permanente (3), o processo revolucionário pode começar por tarefas democráticas (como no Egito) ou mínimas, mas deve ser entendido como parte de uma revolução socialista que vai ter de derrubar o Estado, libertar o país do imperialismo e expropriar a propriedade capitalista.

Nessa época imperialista, a burguesia não assume a direção de mobilizações revolucionárias para a conquista de reivindicações tradicionais das revoluções democráticas burguesas do passado, como a libertação do imperialismo ou a reforma agrária. E nem mesmo a constituição de repúblicas democrático burguesas.

A derrota de Mubarak foi um passo democrático, que desatou uma revolução que se enfrenta objetivamente contra a dominação imperialista. Por isso é uma revolução socialista, ainda inconsciente.

A vitória foi produto de uma mobilização popular gigantesca. Uma classe operária e uma juventude fortalecidas pela vitória, com aspirações de melhorias urgentes nas suas condições de vida.

A grande burguesia egípcia foi parte ativa da ditadura de Mubarak e retaguarda nas mobilizações que o derrotaram. Mas, depois da vitória, apresenta-se como um dos vencedores. O seu objetivo fundamental é reestabilizar económica e politicamente o país para continuar a saqueá-lo.

No caso egípcio, a vitória democrática abre um curso posterior de fortes embates. A crise económica do país não apresenta saídas de curto prazo. A importância do país na dominação geopolítica do imperialismo não permite uma independência política sem grandes choques com Israel. Não existe possibilidade de uma evolução linear. Cada um dos atores da primeira parte democrática da revolução tinha aspirações distintas dos passos a seguir. A “primavera árabe” teria necessariamente uma duração curta.

A crise económica internacional influi diretamente sobre a situação egípcia e é por ela influenciada. As exportações para a Europa, parte fundamental da economia do país, caíram dramaticamente de 33% a 15% entre 2008 e 2009. As remessas dos emigrantes egípcios caíram 17% em relação a 2008. O turismo (que ocupa 11% do PIB nacional) caiu rapidamente, deixando sem emprego uma parte da juventude. Os dividendos do canal de Suez, outra parte importante da economia do país, caíram 7,2% em 2009. O país depende da importação de alimentos, e o aumento dos preços internacionais (18,1% em 2011) foi a gota de água de radicalização das massas. (dados extraídos de “Egypt’s Unfinished Revolution”, Sameh Naguib, ISR)

Além disso, a própria situação revolucionária é um fator importante na desarticulação da economia,seja pelas greves, seja pela instabilidade política.

O proletariado, por outro lado, já vinha em ascenso antes da revolução. A greve de ocupação dos operários de Mahalla em 2006 foi seguida por um ascenso que atingiu o setor público e privado da economia, conseguindo vitórias parciais e enfrentando as leis da ditadura. Durante a revolução, a entrada em cena do proletariado como classe foi decisiva para a queda de Mubarak.

Fortalecidos pela vitória, os operários ampliaram fortemente o número de greves e organizaram novos sindicatos, livrando-se da burocracia ligada à ditadura. Querem melhores salários, assim como afastar as direções das empresas públicas ligadas à ditadura.

A maior parte da juventude empregada e desempregada, um fator importantíssimo da revolução, não tem perspetivas na realidade económica atual do país. Querem empregos e melhores condições de vida.

A burguesia egípcia não tem como fazer concessões económicas para os trabalhadores e a juventude, nem reverter a crise económica de imediato. Quer um regime que reestabilize politicamente o país, garanta uma aparência democrática com eleições regulares. Mas necessita impor o pagamento dos custos da crise em mais e mais medidas de austeridade contra os trabalhadores.

Por outro lado, a subordinação da Junta Militar ao imperialismo norte-americano impõe a manutenção dos acordos com Israel, um forte elemento irritativo para o povo egípcio. Desde a derrubada de Mubarak, em fevereiro, a situação objetiva só piorou no país. O Egito é um vulcão já em erupção. Trata-se de uma situação social, política e militar mais grave e polarizada que as ocorridas durante as revoluções democráticas na América Latina, que foram sucedidas pela estabilização da democracia burguesa.

A revolução egípcia só pode ser entendida como parte de uma revolução permanente. Nas condições do país e da região, isso significa que ou avança com um conteúdo anticapitalista e anti-imperialista ou retrocede em termos democráticos. Da mesma forma no contexto internacional: ou a revolução no Médio Oriente avança sobre Israel ou inevitavelmente vai retroceder, seja por uma invasão militar israelita ou pela reação (ou contra-revolução) interna.

A especificidade das Forças Armadas no Egito

Em geral, a cúpula das Forças Armadas é parte das classes dominantes nos estados burgueses. No caso egípcio, essa realidade ganha contornos mais definidos. As Forças Armadas controlam uma parte considerável da economia, entre 20 e 30%, incluindo companhias de comércio, turismo, agricultura, etc. Além disso, têm uma subordinação política e material fortíssima com o imperialismo norte-americano. Recebem o segundo maior auxílio militar do mundo (1,3 mil milhões de dólares, só inferior ao de Israel), e têm os seus oficiais treinados diretamente nos EUA.

Essa realidade material das Forças Armadas egípcias, somada às circunstâncias políticas da queda de Mubarak (em que ainda mantiveram autoridade perante as massas), leva a que esse centro da contra-revolução queira manter os seus privilégios. A ditadura militar em sua configuração anterior foi derrotada, mas sobrou uma instituição com fortes laços com a burguesia e autoridade perante as massas. Nenhum setor privilegiado quer entregar as suas vantagens.

No início, o novo governo militar teve de se render à nova relação de forças determinada pela revolução. O primeiro-ministro Essam Sharaf teve de ir até a Plaza Tahrir buscar legitimidade, sendo carregado nos braços da multidão.

O governo militar não se apoiava só na autoridade política das Forças Armadas e sim em seu próprio caráter de transição, com eleições anunciadas para seis meses para um parlamento constituinte e de um novo governo. O novo governo se apoiava numa negociação permanente com a oposição, em particular com a Irmandade Muçulmana.

Essa organização tem um papel particularmente importante agora e no futuro do Egito. Trata-se da organização política de maior força do país, a expressão da oposição burguesa com a forma muçulmana. As suas mesquitas mantêm relações não só religiosas como assistencialistas com a população, ocupando um espaço deixado aberto pelo estado. Durante a ditadura, negociava permanentemente com Mubarak, apesar de ilegalizada e reprimida, quando interessava ao regime.

Em todo o período da revolução manteve sempre uma distância das mobilizações, só entrando oficialmente em cena quando a realidade já estava definida. Como ocorre muitas vezes em revoluções democráticas, no entanto, a Irmandade Muçulmana entra no período pós Mubarak com grande autoridade política e como um elemento político essencial para a dominação burguesa.

Logo depois da queda de Mubarak, o novo governo militar enfrentou greves e novas mobilizações. Buscou criminalizá-las e reprimi-las, mas não conseguiu evitá-las. Ao contrário, o número de greves nesses meses foi maior do que em todo o ascenso anterior desde 2006. O governo acertou com a Irmandade Muçulmana um calendário eleitoral confuso que aponta várias eleições parlamentares (que começaram em 28 de novembro e seguem em 2012) e a presidencial para 2012 ou 2013, sem data definida.

O passo seguinte do governo foi tentar um pequeno golpe, moldando o novo regime que está sendo construído com uma configuração claramente bonapartista, semelhante ao antigo regime. O Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), como é chamado o governo militar, divulgou uma carta de princípios da nova Constituição na qual apresentou a sua intenção de tornar-se “avalista da Constituição” após as eleições. A carta propõe que os membros do CSFA continuem atuando como “árbitros”, usando um poder de veto sobre qualquer artigo da futura Constituição com o qual não concordem e gozando de liberdade irrestrita para definir o orçamento das Forças Armadas de maneira sigilosa.

Ou seja, a “proteção constitucional” oferecida pela Junta Militar consiste em negar soberania política a um futuro parlamento. Estava, portanto, anunciado que o regime a ser construído seria o velho bonapartismo militar, agora com uma democracia que seria um apêndice do poder militar. Esse anúncio foi feito alguns dias antes do início das primeiras eleições, com o objetivo explícito de evitar uma reação das massas pela expectativa eleitoral.

No entanto, esse anúncio do governo se chocava com a relação de forças definida pela revolução. As organizações da juventude que estiveram na vanguarda da revolução, assim como os novos sindicatos, lançaram-se de novo à Praça Tahrir. Desde 18 de novembro, um novo momento da revolução egípcia está em marcha, agora com a exigência da saída imediata dos militares e a passagem para um governo civil.

Desde então choques violentos dão-se ao redor da Praça. Antes das eleições, multidões ocuparam a Praça e se chocaram com os militares. A repressão não conseguiu evacuar a Praça, apesar de mais mortos e feridos. O governo encabeçado por Essam Sharaf renunciou, e a Junta Militar nomeou Kamal Ganzuri, ex-ministro de Mubarak, como novo chefe de gabinete, causando uma irritação ainda maior.

O governo militar, ao tentar recompor o novo regime com uma feição semelhante à antiga ditadura, chocou-se com a relação de forças atual e perdeu o apoio de massas que tinha. A exigência do fim imediato do governo militar é hoje uma reivindicação do povo egípcio. No curso de dez meses, a revolução passa a chocar-se diretamente contra o centro da contra-revolução, agora sem os véus que o encobriam. Mas os militares não têm apenas a repressão como arma. As eleições estavam a começar.

A reação democrática em curso

No dia 28 de novembro começaram as eleições no país. O governo militar, a burguesia e o imperialismo apostam na reação democrática para conter a revolução. Nessa primeira rodada elegem-se parlamentares em um terço dos distritos do país. Vão ocorrer cinco eleições semelhantes antes das presidenciais, agora marcadas para julho de 2012.

Uma parte importante do ativismo concentrado na Praça Tahrir entendeu o perigo, ao ver a simultaneidade das eleições e das condicionantes constitucionais definidas pela Junta Militar. A resposta correta da mobilização na Praça Tahrir se combinou com outra errada, de boicote às eleições.

As massas egípcias votaram em peso. Era a primeira eleição relativamente livre em suas vidas, e entendiam o voto como expressão de sua vitória na revolução. Mais de 60% de comparecimento eleitoral com dez mil candidatos. A maior parte das organizações que chamaram ao boicote teve de recuar e participar da votação.

A Irmandade Muçulmana foi a grande vitoriosa no primeiro turno das eleições, conseguindo quase 40% dos votos. Os salafistas (muçulmanos fundamentalistas) conseguiram 25%, compondo uma maioria islâmica importante. Aqui se reproduz o fenómeno já visto nas eleições tunisinas, com a vitória da oposição burguesa islâmica.

Esse é um novo poder em formação, ao redor das eleições, do parlamento e das eleições presidenciais de julho próximo. Um poder burguês de grande importância, um novo centro para a contra-revolução. Considerando o rápido desgaste dos militares, não se pode desconsiderar a importância dessa nova arma da burguesia e do imperialismo.

O governo militar tinha em fevereiro duas bases de apoio essenciais. Uma base política pelo apoio das massas, além da burguesia e do imperialismo. E a base essencial das armas. Perdeu o apoio das massas, mantendo o apoio das classes dominantes e o peso das armas. A força da revolução egípcia já derrotou a ditadura de Mubarak em fevereiro. Mas as classes dominantes no Egito ainda têm a alternativa da reação democrática, do novo poder que está sendo construído. A repressão militar não tinha conseguido evacuar a Praça Tahrir. As eleições conseguiram, mostrando o peso da reação democrática.

Agora, novamente os conflitos recomeçaram. No momento em que este artigo estava sendo escrito, mobilizações voltaram a enfrentar-se com o exército na Praça, já com mais mortos e centenas de feridos. O espancamento de uma mulher por soldados - uma imagem transmitida para todo o mundo - indignou ainda mais o povo egípcio.

Quais são as perspetivas?

Revolução e contra revolução se enfrentam novamente no Egito, em condições distintas de fevereiro. A revolução avança com a força de sua classe operária concentrada e uma juventude radicalizada fortalecidas pela queda de Mubarak. Recua pela contra-ofensiva da cúpula militar, dos aparatos de segurança ainda preservados, da burguesia egípcia com todo apoio dos governos imperialistas.

A revolução mostra sua força nas mobilizações e sua fraqueza pela ausência de uma direção revolucionária. O governo tenta com a repressão reconquistar o controle de antes da derrubada de Mubarak, mas já prepara o parlamento para conter a revolução pela reação democrática.

Qual será a resultante desse novo choque? O movimento de massas vai novamente derrotar as Forças Armadas, agora em sua nova cara governamental? A crise das Forças Armadas, contida durante a queda de Mubarak, vai se reabrir pelo choque com as massas?

A combinação entre repressão aberta e reação democrática vai resultar num novo regime democrático burguês com fortes elementos bonapartistas? A Irmandade Muçulmana (ou outra formação burguesa) vai superar as desconfianças do imperialismo e comandar um novo governo, conciliando e mantendo os privilégios dos militares?

Ou um regime bonapartista Os militares vão seguir mandando no país, tendo o novo governo e parlamento eleitos como apêndices? Isso demonstraria a tese de que o regime não caiu com Mubarak, apenas se reciclou de forma vitoriosa.

Um programa para a revolução egípcia

A palavra de ordem central para os dias de hoje no Egito é “Abaixo o governo militar!”. Essa é a palavra de ordem que move milhões de pessoas e pode fazer avançar a revolução egípcia. Ela deve ir acompanhada da liberdade para os presos políticos, destruição dos aparatos repressivos e punição dos torturadores. Devemos fazer um chamado sistemático para os soldados para que rompam a disciplina militar e se somem às mobilizações contra o governo militar. O eixo democrático se completa com a defesa de uma Assembleia Constituinte. Defendemos uma greve geral para pôr abaixo o governo das Forças Armadas.

Outro eixo programático deve estar centrado nas reivindicações económicas, a partir de aumentos salariais imediatos; plano de obras públicas para abranger os desempregados; fim do controle militar sobre as empresas, que devem ficar sob controle operário; sindicatos livres; expropriação das empresas de Mubarak e seus cúmplices e estatização das multinacionais.

O outro eixo programático de grande importância é anti-imperialista e contra Israel, centrado na rutura dos acordos com Israel e abertura da faixa de Gaza. Todo apoio à luta do povo sírio contra a ditadura de Assad.

É preciso enfrentar a reação democrática, buscando desenvolver a mobilização concreta dos trabalhadores e a sua desconfiança em relação ao parlamento burguês.

Nenhuma confiança nas direções - como a Irmandade Muçulmana - que buscam um pacto com os militares e se afastam das mobilizações. É necessário fazer exigências à Irmandade para que se some às mobilizações do povo egípcio.

É preciso organizar um grande encontro, operário e popular para preparar um plano de lutas dos trabalhadores para derrubar o governo que culmine numa greve geral. Junto com isso deve se apresentar um plano económico dos trabalhadores que parta de suas reivindicações imediatas e aponte para a expropriação das grandes empresas e um Governo dos Trabalhadores.

Eduardo Almeida – PSTU/Brasil

(1) Revolucionário trotskista argentino (1924-1987), dirigente da IV Internacional, fundador da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI).(N. do T.)

(2) Expressão inspirada em Napoleão Bonaparte que designa governos em que o poder legislativo submete-se à força do poder executivo. (N. do T.)

(3) Teoria desenvolvida pelo revolucionário russo Leon Trotsky. (N. do T.)

 
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