O MAS E AS ELEIÇÕES DE 18 DE MAIO: Esquerda parlamentar cavou a sua sepultura

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1) Passado um ano, realizaram-se novamente mais umas eleições antecipadas, sem que nesse intervalo de tempo tivesse havido um significativo intensificar de lutas laborais ou sociais em enfrentamento com o governo. Pelo contrário, o primeiro governo Montenegro/AD, com 11 meses de vida, passou vários meses a negociar para apaziguar os conflitos laborais que vinham da governação PS. Montenegro aprendeu com A. Costa: distribuir migalhas e não bater de frente com os protestos de rua. Montenegro, conseguiu assim desmobilizar alguns dos principais sectores em conflito, a começar pelo sector da educação, forças policiais, bombeiros e saúde. Aceitando algumas cedências (aceitando alguns aumentos salariais) a reivindicações laborais. Os objetivos políticos do governo, no sentido de desmantelar serviços públicos, privatizar sectores, e iniciar ofensiva contra direitos laborais ficaram ainda foram executadas. O plano do governo era ganhar eleições antecipadas (não este ano) mas que viriam mais tarde ou mais cedo (por não possuir maioria no parlamento) logo não podia fazer todo o ‘mal’ programado. A ideia que fica deste primeiro governo é uma ideia de ‘negociar’ e não de enfrentar. É neste contexto que centenas de milhares de trabalhadores de todos os sectores acima referidos optaram pelo voto na AD, reforçando-lhe a vitória eleitoral, independentemente dos escândalos de compadrio e favorecimentos que envolviam parte dos governantes, incluindo o próprio primeiro-ministro Luís Montenegro.

Intensificou-se viragem à direita, extrema-direita cresce, e há hecatombe no PS e na esquerda da ‘geringonça’

2) Os mais importantes partidos da esquerda parlamentar (o BE e o PCP) ao ficarem irremediavelmente ligados ao apoio à governação PS, na ‘geringonça’ e na proximidade ao PS, desperdiçaram oportunidades de mobilização e opondo-se a lutas (por exemplo a dos Motoristas das Matérias Perigosas e a luta do STOP na Educação), destruíram a sua anterior ‘função’ de partidos de ‘oposição’ à governação, deixando vazio este espaço parlamentar, que foi rapidamente ocupado por uma extrema direita que soube capitalizar as mudanças políticas que percorrem o mundo e a desilusão e cansaço das massas populares nos sucessivos governos dos ‘centrões’, no caso português os governos do PS e do PSD (com ou sem CDS). A verdade é que 50 anos de governos PS ou PSD e de 25 de apoio ao BE e o PC (!) cansou, e fez centenas de milhares de trabalhadores e de largos sectores de juventude girarem para os Chegas e ILs desta vida. Quando não se rompe com o sistema (capitalista) é óbvio que qualquer direita reacionária pode fazer demagogia, mesmo sendo semelhante (para pior) do que tem vindo a criticar. Haver urgências fechadas permanentemente nos Hospitais não se deve a existência de qualquer socialismo no país e nem da existência de governos ‘socialistas’, ainda que o partido que mais governou o país ostente o conceito no nome. Os governos do PS sempre governam à direita e ajudaram em tudo a privatizar a saúde e a deixar à míngua o SNS, quer sejam em verbas insuficientes, salários e carreiras sempre desprezadas, provocando a saída de centenas de profissionais quer para o privado quer para a emigração. E, claro, o PSD ou PSD/CDS quando governaram fizeram o mesmo.

3) Comparando os dados sobre o território nacional (sem os votos dos círculos da Emigração), as eleições de 18 de Maio, passados 14 meses das anteriores eleições (10 Março 2024) reforçam as tendências de há um ano e aprofundam a decadência da esquerda parlamentar que tem quebras qualitativas, nomeadamente no Bloco de Esquerda. Vejamos:

  • A AD (PSD/CDS), direita tradicional, reforça a sua votação e passa de 1.811.027 (29,5%) e 79 deputados, para 1.951.977 (32,7%) e 89 deputados, uma subida de 140 mil votos apesar dos escândalos do governo e de Luís Montenegro. Quanto ao PS, sofre uma hecatombe e perde 366 mil votos (5%), ficando com 1.394.501 (23,38%) e 58 deputados (perdendo 20 deputados);
  • O Chega ganha mais 240 mil votos e pode passar a ser o segundo maior partido em votos e deputados, com 1.345.689 (22,56%) e pode alcançar os 60 deputados, mais 10 do que há um ano;
  • Quanto à Iniciativa Liberal (IL), basicamente mantém a posição, ganha 1 deputado subindo 18 mil votos e agora tem 9 deputados. Na esquerda parlamentar, o Livre continua a subir (e a não ser penalizado pela política de muleta do PS), pois não foi parte da geringonça, não foi apoiante formal do governo (ainda que esse seja, na essência, o seu projecto), nem na altura tinha expressão significativa mas ganha agora mais 50 mil votos e passa a 250.651 (4,2%), com 6 deputados (sobe 2 deputados face a 2024);
  • O PCP e o BE continuam perdedores, o PCP resiste um pouco melhor e só perde 1 deputado e 20 mil votos, fica com 3 deputados e uma votação de 180.943 (3%), a mais baixa de sempre. Mas a queda livre em que se encontra há mais de 10 anos continua. Ainda assim ultrapassa o BE. No entanto, é o BE que fica destroçado, desce de 5 deputados para apenas um único (desde a sua fundação, em 1999, nunca teve menos de 2 deputados e chegou a ter 19), o BE perde 175 mil votos num ano, e agora tem 119.211 (2%).

4) O MAS apresentou à esquerda parlamentar a proposta de formar uma frente eleitoral nestas eleições, para diminuir o crescimento parlamentar da direita e da extrema-direita. Os resultados eleitorais mostram que as somas de votos destes partidos tinham obtido representação parlamentar em mais 6 distritos (Braga, Aveiro, Coimbra, Leiria, Santarém e Faro) e reforçado a quantidade de deputados obtidos em Porto, Lisboa e Setúbal), podendo alcançar 20 deputados (e não se ficarem pelos 11 que no total obtiveram) e retirando 5 deputados ao Chega e 4 deputados à AD.

5) O falhanço das políticas do BE e do PCP como pretensos representantes das lutas sociais e laborais mas com políticas pró UE e corrida armamentista assumida pelo Livre, colocam a urgência de construção de nova alternativa política na representação dos trabalhadores e das populações empobrecidas. A crise do PCP e, particularmente, a derrocada do BE, mostram as consequências de políticas de adaptação ao regime e ao sistema, mostram as consequências de desmobilizarem os grandes movimentos sociais (por exemplo os movimentos de 2011/2012 e o 15 de Setembro), de caluniarem lutas radicalizadas e tudo fazerem para as desmobilizar (como fizeram com a greve do STOP), de estarem sempre dispostos a ‘alianças’ com o PS e mesmo a ‘salvá-lo’ quando está no plano inclinado. Toda esta política destes partidos foi criando condições para que a extrema-direita se desenvolvesse como oposição aos governos deste regime, canalizando parte significativa da contestação dos muitos sectores pobres e explorados que estão revoltados com décadas de promessas, mas com a dura realidade do ‘vira o disco e toca o mesmo’…

6) Só uma esquerda sem telhados de vidro, sem cumplicidades com governos e privilégios, sem viver ‘à mama’ das subvenções políticas, sem subordinação aos ditamos do regime, da UE e do sistema político e económico do capital; só essa esquerda poderá contribuir para a construção da alternativa política anti-sistémica e democrática que as populações necessitam. O período político que se avizinha é fundamental para se erguer uma barreira à extrema direita e mostrar como esta é uma mera defensora deste sistema e exploração capitalista e uma falsa defensora da mudança que verdadeiramente beneficia os trabalhadores e as populações, e cujo programa tem de assegurar vida digna a quem trabalha, vida digna aos pensionistas, habitação, saúde e educação públicas para todos, o que é alternativo ao caminho armamentista e aos super lucros de um punhado de grandes empresas e bancos. A direita e a extrema-direita não são a solução. E à esquerda há que erguer uma nova alternativa revolucionária. O MAS empenhar-se-á em ser parte dessa indispensável reconstrução de uma esquerda combativa.

22 de Maio de 2025
CE do MAS

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